Uma Teologia Desequilibrada é Uma Teologia Aleijada




Não é necessário fazer uma investigação minuciosa para perceber que o ser humano é tendencioso ao desequilíbrio. Todos nós temos as nossas ênfases unilaterais. Entre cristãos é muito fácil perceber isto quando o assunto é teologia. Sempre há alguém concentrando toda a sua atenção a um determinado ponto e ignorando todos os demais, criando assim uma teologia instável. O nosso Senhor Jesus repreendeu os fariseus por causa da ênfase exagerada que esse grupo dava aos aspectos exteriores da lei, ignorando “o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé” (Mt 23.23). A Bíblia em todo o tempo nos orienta a sermos equilibrados. Nas páginas Sagradas o convite à moderação é constante.

Quando o assunto é espiritualidade e intelectualidade, nos deparamos com o mesmo problema. Alguns realçam de forma extrema a necessidade de oração ignorando a busca pelo conhecimento, enquanto outros cometem o erro oposto, achando que o conhecimento por si só basta. Qual dos lados está certo? Segundo a Bíblia, nenhum. A Bíblia não nos ordena apenas orar, como também não nos orienta apenas estudar. A Bíblia nos mostra ser possível harmonizar as duas coisas. O mesmo Espírito que diz: “Orai sem cessar” (1Ts 5.17), diz: “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite” (Js 1.8). Os apóstolos dedicaram a suas vidas “na oração e no ministério da palavra” (At 6.4); a Igreja primitiva perseverava “na doutrina […] e nas orações” (At 2.42).

Dizer que apenas orar ou apenas estudar basta, é o mesmo que dizer que um pássaro pode alçar voo com uma asa, somente. Um homem que possui apenas uma perna pode andar com o auxílio de uma muleta, mas aquele que possui as duas pernas andará com mais segurança e chegará muito mais longe. Não importa o quanto você ora, se não estuda a bíblia, facilmente poderá cair em falso ensino e sentimentalismo barato. Se você só estuda a Bíblia e não ora, terá uma vida cristã fria, uma “cabeça cheia” e um “coração vazio”. Na Palavra de Deus, entender é tão importante quanto sentir. Valorizar o sentimento em detrimento do conhecimento, ou vice-versa, é altamente perigoso para o cristão.

Muitos estudiosos da Bíblia imaginam que por conhecer certas verdades da palavra de Deus já são espirituais; outros acham que por terem suas emoções mais aguçadas ou possuir certos dons sobrenaturais, eles também são espirituais. Porém, conhecer certas verdades não te faz um verdadeiro crente, assim como ter um dom espiritual não te faz ser espiritual, como era o caso da igreja de Corinto (1Co 1.7; 3.1-3). Watchman Nee afirmou a seguinte verdade: “o fato de alguém ser racional não o torna espiritual. Devemos evitar o erro de espiritualizar uma vida racional, assim como temos de nos precaver para não achar que uma vida predominantemente emotiva é espiritual”. Infelizmente os cristãos agem como se fossem um pêndulo, ora oscilando para um extremo, ora para outro.

O apóstolo Paulo sentia uma profunda angústia no seu coração por causa dos seus compatriotas judeus, pois eles tinham “zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10.2). Alguém, de forma precipitada, poderia louvar a atitude dos compatriotas de Paulo, entretanto ele próprio não faz isso; antes, ele ora pela salvação deles (Rm 10.1)! O zelo dos judeus a quem Paulo se refere era completamente inútil porque não estava acompanhando do entendimento. Eles conheciam muitas coisas, mas permaneciam “não conhecendo a justiça de Deus” (Rm 10.3) por meio do entendimento do Evangelho. Isto nos mostra como esta ênfase unilateral é uma tragédia: ou ela impede o homem de ser salvo, ou ela impede o homem de desenvolver de forma saudável a sua salvação.

Quando Paulo escreve aos Coríntios ele afirma que “O conhecimento incha, mas o amor edifica” (1Co 8.1). Alguns usam textos como este para justificarem a sua falta de interesse pelo estudo sério da Palavra de Deus. Porém, de forma alguma Paulo está desencorajando a igreja a buscar o conhecimento; ele está repreendendo o conhecimento sem o amor, ou seja, a ênfase estava apenas em um lado e o amor estava sendo ignorado. Sem dúvida este não é o propósito de Deus, como também não é o propósito de Deus que venhamos amar sem refletir. Escrevendo aos filipenses, o apóstolo trata da sua oração em favor daqueles crentes: “E peço isto: que o vosso amor cresça ainda mais e mais em ciência e em todo conhecimento” (Fp 1.9). Paulo desejava acrescentar amor ao conhecimento dos coríntios, e acrescentar ciência e conhecimento ao amor dos filipenses, e nisto ele nos ensina que o propósito de Deus para o Seu povo é uma vida cristã sadia e equilibrada. Amor sem conhecimento gera tolerância àquilo que não devemos tolerar; conhecimento sem amor gera orgulho. Devemos compreender que quando eu amo a Deus desejarei conhece-Lo mais, e quanto mais conhece-Lo, mais irei amá-Lo. Uma coisa não anula a outra, mas complementa. Sejamos equilibrados, unindo espiritualidade à intelectualidade, emoção à razão, pois esta é a vontade de Deus para nós revelada em Sua palavra!

Em Cristo,
Gabriel Victor Cardoso de Oliveira