Uma multidão de pecados, uma multidão de misericórdias




No Salmo 51 Davi expressa a miséria do seu coração perante o Senhor e lamenta profundamente o seu adultério com Bate-Seba. São impressionantes as palavras que o rei-poeta empregou para descrever a magnitude dos seus erros. Ele usou termos como: “minhas transgressões”, “minha iniquidade” e “meu pecado” (Sl 51.1,2). Além disso, ele faz questão de repetir estas palavras para demonstrar ainda mais a extensão do seu delito (vv.2,3,5,9). Davi havia pecado gravemente, não bastasse o adultério, ordenou o assassinato de Urias, marido de Bate-Seba e quis ocultar o seu feito. A questão se agrava ainda mais se considerarmos que ele era o chefe da nação eleita, e o homem a quem Deus chamou de “segundo o Meu coração”. Quanto mais alto o homem está, maior pode ser a queda. Davi foi simplesmente o maior homem em seu tempo, pois era o rei. Em outro Salmo ele mesmo afirmou: “Por amor do teu nome, SENHOR, perdoa a minha iniquidade, pois é grande (Sl 25.11 – ênfase acrescentada).

Examinando o livro de Daniel, encontramos uma oração semelhante à de Davi. O profeta usa expressões similares quando diz: “Pecamos, cometemos iniquidades” e “todo o Israel transgrediu” (Dn 9.5,11). E mais uma vez vemos que os grandes da nação também se rebelaram contra o Senhor, pois Daniel ressalta: “Ó Senhor, a nós pertence a confusão de rosto, aos nossos reis, aos nossos príncipes, e a nossos pais, porque pecamos contra ti” (Dn 9.8). Aqui vemos claramente a depravação total do gênero humano. O pecado afetou todas as áreas do nosso ser, como também a todos os homens indistintamente. Reis, príncipes e pais são pessoas que devem ser exemplo, um padrão de piedade a ser seguido, mas o alcance do pecado é universal: “todos pecaram” (Rm 3.23). O próprio Daniel que é lembrado nas Escrituras como um homem fiel, reconhece que também foi encerrado debaixo da desobediência. Ele não somente aponta os pecados da nação de Israel, mas se une aos pecadores em sua súplica e diz:  ”pecamos”.

Esta variedade de termos não é mera retórica, é proposital, e serve como uma descrição do tamanho da nossa culpa diante de Deus! Todos nós pecamos, cometemos iniquidade e transgredimos. Erramos o alvo, quebramos a lei de Deus e contraímos uma dívida impagável! Nosso pecado não foi contra nós somente, nem apenas contra o próximo; foi sobretudo contra o céu e contra Aquele que está assentado no mais alto Trono, e por esta razão merecemos o mais profundo inferno! Como pagar o impagável? O impossível não é obra de meros mortais como nós. A salvação é uma obra impossível para o homem, visto que o preço exigido para satisfazer a justiça divina é caríssimo demais. Poderia haver algum lampejo de esperança para Davi, Daniel, Israel e para nós?

A resposta para esta questão – que sem dúvida é uma das mais importantes questões – se encontra na própria confissão de Davi e Daniel. O salmista contrasta os seus pecados com os atributos de Deus, e acaba encontrando no Deus infinito Alguém maior que o seu pecado, e, portanto, capaz de perdoá-lo. Davi pede que Deus apague as suas transgressões segundo “a multidão das tuas misericórdias” (Sl 51.1 – ênfase acrescentada). Ainda no mesmo Salmo ele fala da benignidade e da salvação do Senhor (Sl 51.1,12). Daniel faz o mesmo: “porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias” (Dn 9.18 – ênfase acrescentada). As palavras “multidão” usada por Davi, e “muitas” por Daniel, apontam para a vastidão do amor de Deus. A misericórdia do Senhor é maior que a miséria humana, e por isso ela pode alcançar o pecador mais vil que clama por Ele.

Ao chegarmos no Novo Testamento, encontramos um homem chamado Paulo. A respeito de si mesmo ele disse: “[sou] o menor dos menores de todos os santos” (Ef 3.8 – KJA), mas dos pecadores ele se considerou o principal (1Tm 1.15). Alguém poderia pensar: “Haveria algum poder no Universo capaz de salvar o maior de todos os pecadores?”. Escrevendo aos Romanos Paulo disse: “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5.20). Paulo escreveu isto baseado no fato de sua própria experiência de vida, ele havia sido alcançado pela graça superabundante, e fala dela em 1Timóteo dando um testemunho pessoal: “dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia […]. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Cristo Jesus” (1Tm 1.13,14). A graça divina triunfou sobre o pecado do homem que considerava a si mesmo o maior de todos os pecadores, e fez dele um dos maiores, senão o maior, arauto do Evangelho da Salvação.

A graça de Deus não é menos abrangente que o nosso pecado, mas é tão infinita quanto o Seu Ser. Quando ela nos alcança afeta todas as partes do nossa vida; além disso, ela é o favor imerecido de Deus concedido aos pecadores, e não apenas à alguns, mas a todos. Como afirmou A.W. Tozer acertadamente: “Ainda que todos os mosquitos em todos os pântanos do mundo fossem pecadores, que todas as estrelas do céu e que todos os grãos de areia do mar também o fossem, a graça de Deus poderia abrangê-los sem esforço algum”[i] (TOZER, 2015). Que abrangência! Que alcance! Que extensão sem limites! Não é à toa que o autor aos Hebreus se refere à salvação em Cristo como a “tão grande salvação” (Hb 2.3), pois temos um grande Salvador, cujo poder e graça para salvar são infinitos.

Há muitas pessoas sofrendo com o fardo esmagador do pecado, almas cansadas e oprimidas que rastejam ofegantes sob o peso de seus delitos. Saiba que sem Cristo seu pecado te fará curvar e te prensará no chão! Nada do que fazemos tem poder para expiar nossas transgressões. Tentar ir ao Céu pela nossa própria justiça é como tentar fazer um avião decolar com um sopro: um esforço completamente inútil. Somente carregados nos ombros da graça é que um dia chegaremos aos portões celestiais! Traga aos pés da cruz toda a sua miséria, o teu Salvador já riscou o escrito de dívida que era contra ti. Ainda que você se sinta como o principal dos pecadores tal qual Paulo, o seu pecado não é maior que a graça do Senhor. Se você tem uma “multidão de pecados” como afirmou Tiago (Tg 5.19), Deus tem uma “multidão de misericórdias”; para nossa iniquidade, Ele oferece a Sua benignidade, e para nossa transgressão, a Sua tão grande salvação!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira



[i] TOZER, A.W. Tradução: Elizabeth Batista, Rio de Janeiro: Graça editorial, 2016. p.171