Uma guerra estranha




A vida cristã é profundamente agressiva. A Bíblia nos ordena vestir a armadura de Deus e suportar as aflições como bons soldados de Cristo (Ef 6.13; 2Tm 2.3). Essas imagens bélicas não nos lembram um parque de diversão – embora muitos hoje estão fazendo de suas igrejas lugar de entretenimento –, mas nos remetem a um cenário sangrento. Jesus, como também o apóstolo Paulo, usaram palavras fortes para ilustrar a reação ofensiva que devemos ter com o pecado. Nenhum afeto deve ser dirigido a este terrível inimigo, nenhuma cordialidade ou acordo de paz deve ser bem-vindo neste campo de batalha que é o nosso próprio coração.

Apesar de ser violenta, esta é uma guerra de natureza diferente daquelas que comumente conhecemos, porém, real. O seu modelo não é medieval, moderno ou cinematográfico; não é desta ordem, mas pertence a uma categoria completamente distinta. Vamos nomeá-la aqui de “Uma Guerra Estranha”, e nos debruçar um pouco sobre este assunto para compreendermos em que consiste tal estranheza.

Uma sensação estranha

Segundo o teólogo e escritor Keith Stanglin, um dos testemunhos da salvação “é a luta (lucta) do Espírito contra a carne […]. O fato de alguém lutar contra as tentações mundanas, e não é completamente vencido sem luta, é um sinal da graça santificadora de Deus. Esta batalha contra o pecado, que poderia possivelmente levar uma pessoa ao desencorajamento, deveria ser interpretado, em vez disso, como uma indicação de uma vida espiritual saudável que está buscando a justiça” (STANGLIN, 2016)[i]. A primeira estranheza que percebemos nesta guerra é que sua ausência é um péssimo sinal. Nós julgamos que quando as coisas estão em paz tudo está bem, porém, não podemos dizer o mesmo em relação ao pecado. Muitos cristãos pensam que ao serem assaltados por tentações carnais e batalharem contra isso constantemente, é uma evidência de que eles não estão salvos, quando na verdade isto deveria ser visto de outra forma. A sensação estranha de que algo está errado, indica, na verdade, que estamos no caminho certo. Se está havendo guerra, e você está contra os seus próprios desejos pecaminosos, isto é um indício da obra do Espírito em seu coração. Se pecamos e usamos o famoso jargão: “eu não me sinto acusado por isso”, aí está a morte. Apenas soldados vivos podem lutar.

Uma inimizade estranha

Uma segunda coisa a observar nesta guerra, é que ela consiste em uma inimizade estranha. Parece loucura isto, mas pense por um momento: o diabo e o mundo são inimigos fora de nós, enquanto o pecado é um inimigo dentro de nós. Ele é inerente à nossa própria natureza caída, e está tão impregnado a ela que é impossível punir o pecado e não punir o pecador. Sendo assim, onde está a estranheza? A estranheza repousa no fato de que você está lutando contra você mesmo, isto é, contra o pecado que habita em você. Em uma guerra comum o opositor é o outro, nesta guerra, a luta é de si contra si.

 Ao se referir a este combate Jesus disse: “Portanto, se sua mão ou seu pé o faz pecar, corte-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida eterna com apenas uma das mãos ou apenas um dos pés que ser lançado no fogo eterno com as duas mãos e os dois pés. E, se o seu olho o faz pecar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida eterna com apenas um dos olhos que ser lançado no inferno de fogo com os dois olhos” (Mt 18.8,9 – NVT). Não é para arrancar as mãos, os pés ou os olhos de outras pessoas, e sim, os nossos próprios membros. Além disso, somos nós quem devemos combater, e não os outros por nós. Jesus não diz: “peça que o seu irmão faça esse favor para você”, antes a ordem é: “corte-o e jogue fora”; nós mesmos devemos tomar esta atitude. Nossa guerra não é contra carne e sangue, não estamos lutando contra as pessoas, isto é Islamismo e não Cristianismo; estamos lutando contra o nosso próprio EU! “Esmurro o meu corpo”, disse Paulo (1Co 9.27 – ARA). O apóstolo não saía por aí desferindo socos contra pessoas. Antes, subjugava a si próprio.

Quando olhamos para o Antigo Testamento, vemos que nenhum inimigo externo poderia vencer a Israel quando Deus estava com ele. No entanto, quando havia pecado no arraial, o povo perdia a guerra. A derrota vinha de dentro e não de fora. Israel não precisava se preocupar tanto com os inimigos externos, e sim com o seu próprio pecado. Uma vez que o pecado era extirpado do meio do povo, o Senhor lhes assegurava a vitória. O maior inimigo de Israel era Israel. Era o pecado da nação que a conduzia a derrota, e é assim que acontece conosco hoje.

Armas estranhas
Entretanto, não devemos tomar as palavras de Jesus e de Paulo como literais. Se você tomar uma espada e arrancar suas mãos, pés e olhos, ainda poderá nutrir pensamentos pecaminosos em sua mente; se levarmos estas palavras ao pé da letra teríamos de arrancar o nosso cérebro também. Ao dizer “esmurro o meu corpo”, Paulo não ensina nenhum cristão a socar sua própria face. Não devemos nos comportar como cachorros tentando morder o próprio rabo, estas palavras apontam para uma realidade espiritual.

Nossos recursos de guerra são outros, “as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas” (2Co 10.4 – ACF). Jesus e Paulo não ensinam automutilação ou autoflagelo, ambos estão usando um recurso linguístico para mostrar a seriedade da vida cristã. A hipérbole proferida por Jesus nos mostra que devemos tratar o pecado com violência e não com carícias.

Deus nos deu o Seu Espírito, o Evangelho e as Santas Escrituras, Sua graça nos confere o poder para lutar e estas são as nossas armas. Os países trabalham cada vez mais para aumentarem o seu potencial bélico, mas o pecado não se vence com espada, canhão ou bombas atômicas: “se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8.13 – ênfase acrescentada). Essa estranha guerra não faz uso de armas forjadas por homens, as metodologias humanas são insuficientes para assassinar a rebeldia do nosso coração. Embora lutemos contra nós mesmos, não fazemos isto com as nossas próprias armas, e sim com aquelas que Deus nos concedeu, e por mais estranhas que pareçam, elas são “poderosas em Deus”.

A estratégia estranha

Devemos ainda considerar a forma como lutamos contra o pecado. Quando a Bíblia se refere a guerra entre o cristão e Satanás, a ordem é sujeitar-se a Deus, resistir o diabo, e ele fugirá (Tg 4.7). Mas quanto à guerra entre o cristão e o pecado a estratégia é diferente. Nos sujeitamos a Deus, mas desta feita quem foge somos nós, e não o pecado. A ordem não é “partir para cima”, mas fugir. “Fugi da prostituição… fugi da idolatria… foge dos desejos da mocidade” (1Co 6.18, 10.4; 2Tm 2.22), esta é a estratégia. José venceu a tentação sexual perpetrada pela mulher de Potifar porque fugiu; suas roupas ficaram nas mãos daquela sedutora perversa, mas a sua alma escapou.

Há ambientes saturados de gatilhos tentadores, por isso se faz necessário em alguns casos nos afastarmos de determinadas coisas, ambientes e até mesmo pessoas a fim de mantermos a pureza. Nossas tentações não seguem um padrão; nem todos sofrem de tentação sexual. Uns são tentados a roubar, outros a mentir e outros à ira pecaminosa, e a lista é interminável. Precisamos examinar o nosso coração e saber qual é o nosso “calcanhar de Aquiles”, a fim de golpear o pecado com toda força fugindo dele. Tudo aquilo que coopera para que o pecado seja concebido deve ser evitado. Por mais estranho que isto pareça, vencemos o pecado quando fugimos dele.

Fugir, nesse caso, não é um ato de covardia, e sim de coragem. Negar a si mesmo não é tarefa fácil, na verdade é impossível fazer isto sem o auxílio da graça santificadora de Deus. É Deus quem nos energiza para lutar colocando a Sua força em nós. É verdade que fugir não é a única estratégia contra o pecado, porém, é uma atitude básica para a vitória. “Escapa-te por tua vida”: esta é a ordem. Não podemos ficar parados pensando que venceremos o pecado nutrindo proximidade com ele. A voz do profeta Jeremias ainda nos fala hoje: “Fugi para salvação vossa” (Jr 6.1).

Uma conclusão estranha

O Senhor nos disse para tomar a cruz a cada dia (lc 9.23), e o que faremos nós? Ficaremos acariciando nossos pecados de estimação? Ainda guardaremos conosco a nossa lista de pecados respeitáveis? Quando não matamos o pecado em nós matamos a nós mesmos, mas a promessa que acompanha a mortificação é a vida eterna. Como disse Sam Storms: “O conselho um tanto paradoxal do Senhor é que a melhor coisa que você pode fazer por seu ‘eu’ é negá-lo!” (STORMS et al. (2013)[i]. Esta conclusão é um tanto estranha, mas é verdadeira, e sobretudo, gloriosa.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.


[i] STANGLIN, Keith. A perseverança dos santos. Tradução: Welington Mariano, São Paulo: Editora Reflexão, 2016. pg.48

[iI] STORMS, Sam et al. John Piper: ensaios em sua homenagem. Tradução: Iara Piza Vasconcellos, Regina Aranha, São Paulo: Hagnos, 2013. pg.64