“Uma desgraça não vem só”




Se por um lado as coisas podem se tornar melhores, o inverso também é verdade. A história, a nossa própria experiência e sobretudo as Escrituras, nos demonstram claramente que aquilo que está ruim pode ficar pior. Queremos fugir das coisas ruins, mas elas são parte integrante da nossa vida, e na maioria das vezes elas vem acompanhadas. Estar sob uma grande pressão, não significa que você não será mais pressionado ainda.

Nossa vida está sempre oscilando entre a tristeza e a alegria, o problema e a solução, o vento norte e o vento sul. Depois da calmaria os problemas começam a surgir, e até parece que eles combinaram em “pipocar” todos ao mesmo tempo. Como afirma Harriet Lerner: “a saúde da sua mãe piora, o seu cachorro morre, o seu filho desiste do tratamento contra as drogas e o seu marido perde o emprego – tudo no mesmo ano”[i] (LERNER, 2015).


Há uma história parecida com isso na Bíblia, se você pensou em Jó, acertou! Veja só o que diz o relato bíblico: “[…] veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles; e deram sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova. Estando este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei para trazer-te a nova. Estando este ainda falando, veio outro, e disse: ordenando os caldeus três tropas, deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova. Estando este ainda falando, veio outro, e disse: estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito, eis que veio um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova” (Jó 1. 14-19). Observe a expressão “estando este ainda falando”; ela se repete três vezes nesta curta passagem bíblica. Podemos dizer que Jó mal teve tempo de processar em sua cabeça o que estava acontecendo e já era assaltado com uma nova calamidade, nem tinha acabado de ouvir uma notícia ruim e chegava outra pior. Isto é uma provação de “tirar o fôlego”, pois não houve nenhum intervalo para respirar entre uma circunstância e outra; não é à toa que ele disse: “Não me permite respirar, antes me farta de amarguras” (Jó 9.18).

Diferente do que Harriet Lerner disse, as lutas de Jó não foram num mesmo ano, mas em um mesmo momento, e de proporções gigantescas. Ele não perdeu só um cachorro, e sim “sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas” (Jó 1.3), e o pior de tudo: seus servos e seus dez filhos morreram, escapando apenas um serviçal de cada situação para comunicar o ocorrido. Como se não bastasse, Jó ficou doente, sua mulher perdeu as estribeiras e seus amigos o acusaram de ter pecado contra Deus!

Não somos melhores que Jó. Na verdade, estamos muito aquém da integridade moral daquele homem, e não estamos menos livre do que ele de situações complicadas. Há momentos em nossa história de vida que tudo dá errado ao mesmo tempo, e as coisas se tornam uma verdadeira bola de neve. Se olharmos para a presente situação do nosso país, esta realidade é atestada. Um vírus surge na China, prolifera em toda parte respingando até no Brasil. Toda situação causada pela pandemia paralisou o comércio de um país que já estava “quebrado”, e como consequência disto o número de desempregados está em alta. Muitos, por perderem seus empregos estão entrando em pânico, as expectativas quanto ao futuro não são as melhores; o isolamento causa depressão em muitos e o número de denúncia de violência doméstica contra mulheres aumenta nesta presente crise. Além das coisas que acontecem em nosso país, temos nossos próprios problemas pessoais. Há irmãos enfrentando muitas tribulações simultaneamente. Bem disse Anne Frank em seu diário: “Uma desgraça não vem só” (FRANK, 2018)[i]. Isto foi real para Jó, e é para nós também. Às vezes é como um efeito dominó, um problema causa outro e ficamos profundamente abatidos, a ponto de dizer como Paulo: “fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos” (At 27.20).

Uma desgraça acompanha outra, isto é um fato. Porém, paradoxalmente, a graça de Deus também acompanha as nossas desgraças. São os problemas difíceis que abrem espaço para as soluções extraordinárias de Deus. É em nossa angústia que Deus se revela como o nosso socorro bem presente (Sl 46.1). Foi quando fugiu de Paulo a esperança de se salvar daquele naufrágio que o anjo de Deus lhe apareceu dizendo: “Paulo, não temas” (At 27.24). A fornalha aquecida sete vezes mais para destruir os três jovens judeus, se constituiu em uma oportunidade para o Quarto Homem trazer o livramento (Dn 3.23-25). É na fome que vemos a provisão de Deus, é na doença que contemplamos a Sua cura; é na guerra que experimentamos a Sua paz, é na desgraça que experimentamos a Sua mais doce Graça. “Uma desgraça não vem só, não mesmo: a graça de Deus vem junto.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[i] LERNER, Harriet. As regras do casamento feliz: manual para quem leva uma vida a dois. Tradução: Fernanda Bincoletto, São Paulo: LeYa, 2015. pg.13

[ii] FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Tradução: Georgia Mariano, Jaindira, SP: Principis, 2018.pg 58.