Um igreja em cada esquina




O número de igrejas cresce a cada dia, é dessa realidade que emerge o ditado: “uma igreja em cada esquina”, quando, em alguns casos, a realidade é bem pior. Há templos espalhados por todos os lados, às vezes um é vizinho de outro. Não é difícil encontrar ruas em que os dedos de uma mão só, não são suficientes para enumerar a quantidade de “igrejas” que ali existem. Nosso desejo é que o Evangelho se espalhe, o problema, e que um número esmagador dessas igrejas, não são igrejas sérias, e por isso, não tem muito compromisso com o Evangelho.  

Por que tantas igrejas diferentes se Deus é um só? Os cristãos não usam a mesma Bíblia? São perguntas, às vezes honestas, de pessoas que realmente querem entender este fenômeno.  Entretanto, faz-se necessário observar que essa divisão não é um problema vigente apenas entre protestantes. A história do judaísmo também foi marcada por muitas camadas, na Bíblia encontramos os fariseus, saduceus, zelotes, a história nos fala dos essênios e outros grupos; todos estes eram subgrupos dentro do judaísmo.

No catolicismo é possível observar que também há camadas distintas, como a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Ortodoxa e a Renovação Carismática Católica. Um análise mais profunda nos levaria a ver que muitas outras religiões possuem subgrupos distintos também. Pensar que apenas entre protestantes há divergências de opiniões quanto as questões de fé é, no mínimo, desconhecer sobre o assunto.

Qual era a denominação da Igreja Primitiva?

O Senhor Jesus não deixou nenhuma “placa” para Sua Igreja, e os Seus santos apóstolos fizeram o mesmo. Quando Jesus se refere a Igreja Ele a chama de “minha Igreja” apenas, ou como disse a João na ilha de Patmos: “O que vês, escreve-o num livro e envia às sete igrejas que estão na Ásia” (Ap 1.11a). Não havia um nome exclusivo para a igreja em cada localidade, mas todas eram chamadas de “igreja” mesmo sendo em locais distintos.

Porém, a igreja neotestamentária recebeu alguns nomes por parte daqueles que não faziam parte da comunidade de fé. Lucas registra em Atos as seguintes designações:

  • Os do caminho: em Atos 9.2 Saulo perseguia “alguns que eram do Caminho”. Os crentes receberam essa denominação “derivada da descrição que Jesus fazia de si mesmo (Jo 14.6), [e] aparece várias vezes em Atos[i] (MACARTHUR, 2010).
  • Cristãos: foi em Antioquia que os discípulos foram pela primeira vez chamados de cristãos; o termo traz a ideia de “seguidor de Cristo”. Esta expressão não tinha nenhum propósito de elogiar o comportamento dos crentes, mas tinha um tom depreciativo.  Por isso Pedro, escrevendo aos irmãos sob perseguição disse: “se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome” (1Pe 4.6 – ênfase acrescentada).
  • Seita dos Nazarenos: ao menos duas coisas podem ser ressaltadas aqui: (1) a palavra seita para se referir aos crentes em Atos 24.5, vem do grego hairesis, de onde se origina a palavra heresia. Nesse caso ela não tem uma conotação necessariamente ruim, a ideia no contexto é apenas de um “partido religioso”, pois hairesis também possui esse significado; – por ter raízes judaicas alguns pensavam que o cristianismo era apenas mais uma seita dentro do judaísmo – os fariseus também eram chamados de seita (At 15.5). (2) Já o termo Nazareno era ofensivo. Embora Jesus tenha sido chamado Nazareno (Jo 1.45), Nazaré era uma vila insignificantes da Galiléia, muito desprezada pelos judeus. Isso fica evidente na pergunta de Natanael a Filipe: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46).

Esses foram alguns nomes dados aos primeiros crentes, porém eles sempre vinham de fora do grupo dos discípulos, não sendo uma autonominação. A Igreja Primitiva se classificava apenas como Igreja (Rm 16.4,5).

Por que existem tantas denominações no mundo?

Há várias razões que podemos considerar como causa para tanta diversidade no meio cristão. Porém, é necessário esclarecer que nem todo grupo que se autodenomina cristão é de fato considerado cristão pela cristandade. Temos como exemplo os russelitas (Testemunhas de Jeová), como também a “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” (os Mórmons), que não são consideradas igrejas cristãs. Isto acontece porque estes grupos negam claramente as doutrinas fundamentais do cristianismo. Afinal, o que faz uma igreja ser Igreja, não é a sua placa, mas sim o seu compromisso com Deus e a Sua Palavra.

Entre as razões da existência de tantas denominações cristãs no mundo, vejamos alguns:

Os desvios da fé apostólica: no processo histórico da Igreja, os cristãos foram gradativamente se afastando da verdadeira doutrina ensinada por Jesus e posteriormente pelos apóstolos. Deus, em Sua Providência, despertou o coração de indivíduos para proclamarem ao Seu povo um retorno ao modelo bíblico de igreja, e com isso foram surgindo movimentos que receberam determinados títulos visando identificar as ideias pregadas por aqueles grupos. Martinho Lutero foi o protagonista do divisor de águas na História Eclesiástica: A Reforma Protestante. Através da Reforma foi possível recuperar importantes doutrinas bíblicas, e a igreja teve um retorno às Escrituras, mas como disse alguém: “todo movimento se torna monumento”. A igreja, agora reformada, teve que continuar passando por constantes reformas, pois a medida que os crentes se tornavam apáticos quanto aos fundamentos da fé, homens de Deus se levantavam para resgatar a pureza doutrinária pregada pelos reformadores, surgindo assim mais novos grupos, – fenômeno que ainda ocorre em nossos dias – daí o ditado: “igreja reformada sempre sendo reformada”. Ademais, o propósito da Reforma não era romper definitivamente com o catolicismo criando uma nova denominação, como diz o próprio nome, o propósito era reformar e não revolucionar. Mas com o passar do tempo, homens de Deus viram a necessidade de romper qualquer tipo de laço com a Igreja Romana, dando origem assim as denominação chamadas “históricas”.

Conflitos teológicos: um outra razão que contribuiu para o surgimento de tantas denominações é o fator teológico. É patente para nós que as igrejas não têm uma concordância doutrinária plena. As interpretações quanto à mecânica da salvação, a Escatologia, a Santa Ceia, o batismo e outras doutrinas, sempre estiveram no palco de divergências entre os cristãos no decorrer da história. Esse foi um dos efeitos colaterais da Reforma – se é que podemos assim dizer.

Com todas essas divergências, fica demasiadamente difícil manter a saúde doutrinária na igreja local mantendo dois grupos teologicamente opostos, por isso novas denominações surgem a fim de evitar tais conflitos. É importante ressaltar que, essas diferentes opiniões devem se limitar apenas as questões marginais da Fé Cristã, e não as centrais. Por exemplo, calvinistas e arminianos discordam entre si quanto ao mecanismo da salvação, mas isso não é fundamental para a salvação; porém, ambos os grupos creem que somente Jesus salva, e isto é fundamental. Ninguém pode ser salvo fora de Cristo, e esta verdade básica é mantida pelos dois grupos.

Administração da igreja e liturgia: toda igreja precisa de uma estrutura organizacional que visa o bom funcionamento da obra de Deus, porém até os modelos administrativos são motivo de divergência entre os cristãos. Há modelos diferentes de governo por exemplo entre batistas e presbiterianos, e este é um fator que também faz surgir novas denominações. Sendo assim, como afirma o pastor pentecostal Geremias Couto: “As igrejas que estão sob a mesma bandeira e buscam viver o mesmo modelo administrativo se organizam com um nome peculiar para que assim sejam identificadas diante da sociedade”[i] (COUTO, 1998).

Além disto, as denominações têm formas distintas de culto. Os anglicanos por exemplo, herdaram muito do catolicismo em termos de liturgia, rituais e outras coisas, tornado a igreja Anglicana bem parecida com a Católica em vários aspectos. Igrejas reformadas, em sua maioria, possuem um estilo de culto pianíssimo (com fraca intensidade de som), enquanto pentecostais e carismáticos são mais abertos a espontaneidade, por valorizar a emoção e não somente a razão, cultos pentecostais são mais alegres. O fato é que, as igrejas não possuem um mesmo modelo litúrgico, por isso têm placas diferentes.

Egocentrismo: além dos fatores antes mencionados, somamos a eles egocentrismo. A vaidade pessoal tem sido a causa de vários problemas no mundo, e a igreja também sofre com isso. Há muitos que por apego ao cargo que exercem são capazes de fundar uma nova denominação no afã de não serem substituídos. Outros movidos pela insubordinação não querem ficar sob tutela de seus líderes, preferindo assim criar seu próprio monopólio. A briga pelo poder tem dividido impérios ao longo da história, causado muitos cismas e guerras, e o povo de Deus também sofre com essa erva daninha. Aqui no Brasil esse tipo de comportamento tem se tornado cada vez mais corriqueiro, produzindo assim um acelerado número de denominações, mas esse tipo de crescimento não é nem um pouco saudável, e é visto com reprovação pelos cristãos sérios.

A permissão divina: acima de tudo é preciso dizer que nada acontece fora da permissão de Deus, nem mesmo o denominacionalismo. Há muitas pessoas que alegam não ter encontrado um lugar onde se sintam bem para servir a Cristo, usando isto como uma justificativa para não aceitar a fé ou abandoná-la. Porém, o denominacionalismo oferece várias formas de governo e liturgia onde é possível servir a Deus sem danos aos pontos centrais do Evangelho. Essa diversidade retira do homem a sua possibilidade de desculpa no Dia do Juízo, mostrando assim que Deus deu a todos a oportunidade. Por isso compreendemos que esta diversidade está submetida à vontade permissiva do Senhor.

Devemos ainda observar que há igrejas com nomes distintos, mas que seguem um mesmo padrão doutrinário, litúrgico e administrativo. Ter um nome diferente não significa que uma igreja é necessariamente diferente da outra em alguns casos. Assim temos nomes distintos para um mesmo tipo de igreja.

Mantendo a unidade da fé

Não podemos permitir que a diversidade de denominações acabe com a nossa comunhão cristã. Ainda que haja divergências nas questões periféricas, estamos unidos naquilo que é central, e acima de tudo devemos, como discípulos que somos de Cristo, amar uns aos outros. Há princípios claros nas Escrituras que de forma alguma podemos negociar, mas naquilo que não está claro para nós, – pois há doutrinas difíceis de entender – devemos manter um relacionamento de respeito mútuo, pois a unidade fraternal deve ser buscada por todos os santos independente da sua denominação. No Céu não haverá placas nem fronteiras denominacionais, muito menos entraves teológicos. Lá não será possível alguém dizer: “Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo” (1Co 3.4), pois todos seremos de Cristo, Aquele que é tudo em todos (Cl 3.11). Amém.

Em Cristo,

Gabriel Olivera


[i] MACARTHUR, John. Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil,pg. 1541

[ii] COUTO, Geremias de. Lições Bíblicas: Igreja, projeto de Deus. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 1998, pg. 50.