Três tipos de doutrina




A Bíblia Sagrada fala muito em doutrina. O fato de encontrarmos esta palavra repetidas vezes nas Escrituras destacam a sua importância, e por isso não podemos passar desapercebidos pelo assunto. Mas, o que significa doutrina? De forma genérica, o termo exprime a ideia de ensino de qualquer tipo. Também é comumente usado para se referir a algum ensino específico, como por exemplo: Doutrina das últimas coisas (Escatologia); Doutrina de Cristo (Cristologia). O termo ainda carrega a ideia de regra, normas que definem certas atitudes de indivíduos de determinado grupo, ou um conjunto de preceitos que formam um sistema, seja religioso ou não. Tendo definido o conceito, é possível verificar nas Escrituras pelo menos três principais formas de doutrina. São elas: Doutrina de Homens, Doutrina de Demônios e Sã Doutrina. Vamos analisar cada uma mais especificadamente.

Doutrina de Homens

Em certa ocasião, os escribas e fariseus perguntaram a Jesus o porquê seus discípulos violavam a tradição dos anciãos, não lavando as mãos antes de comer pão. Ao finalizar a Sua réplica Jesus denominou tal ensino de “doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.9). Segundo o estudioso John MacArthur, a tradição dos anciãos “era um conjunto de leis extrabíblicas que existiam apenas em forma oral desde a época do cativeiro babilônico. Mais tarde, foram compiladas em forma escrita na Mishná, perto do fim do século 2°”(MACARTHUR, John. Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri:SBB, 2015. pg. 1235) . Embora seja para nós um princípio higiênico, não há nenhum mandamento bíblico que ordene tal coisa; e ainda que os discípulos estivessem infringindo aquela tradição, não estavam transgredindo uma lei divina, pois a regra de lavar as mãos antes das refeições não estava fundamentada em uma ordem expressa da Palavra de Deus. Somente aos sacerdotes era dada a prescrição de se banharem antes de comer das coisas santas, caso entrassem em contato com qualquer coisa que fosse considerada imunda pela lei de Deus dada a Moisés (Lv 22.6,7).

Há muitos costumes que não são ordenados nem proibidos nas Escrituras, mas são adotados por muitas denominações com o intuito de promover a boa ordem. Isso não é ruim em si, porém não se trata de doutrina bíblica, e sim de doutrina de homens. Aqui devemos ter muito cuidado, pois apesar de Jesus não condenar o ato de lavar as mãos antes de comer, Ele reprovou severamente o ato de invalidar a Palavra de Deus por causa de uma tradição. Nenhum hábito, por melhor que seja, está acima da Escritura, e por isso não devemos julgar as pessoas segundo os nossos próprios preceitos. O padrão autoritativo do cristão é a Bíblia Sagrada, e não os comportamentos extrabíblicos adotados por um grupo, pois ao fazermos isso, nos tornamos culpados do mesmo pecado dos escribas e fariseus. Devemos ter em nossa mente que todo costume, regra ou tradição deve concordar em não se opor ou sobrepor-se à Palavra de Deus.

Doutrina de Demônios

Advertindo ao jovem pastor Timóteo, o experiente apóstolo Paulo lhe escreveu: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” (1Tm 4.1). Isso não se trata de um ensino a respeito dos demônios, e sim de uma doutrina de origem diabólica. Há muitos que afirmam ser a Bíblia a mãe de todas as heresias, mas isso não é verdade. O pai de todas as heresias é Satanás, o mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44), e o coração rebelde é o útero onde toda forma de falsificação da Palavra de Deus é concebido. A doutrina dos homens pode ser praticada, desde que esteja sujeita à Bíblia, no entanto a doutrina de demônios deve ser rejeitada. A primeira é extrabíblica, e não está necessariamente contra a verdadeira fé, mas a segunda é antibíblica, pois se trata da perversão da Palavra da Verdade, e, portanto, está em oposição a ela.

Quanto mais nos aproximamos do Retorno de Cristo, vemos um aumento da atividade satânica por meio de falsos mestres que propagam falsos ensinos. Devemos ser cautelosos; o apóstolo Pedro afirmou que tais homens “introduzirão encobertamente heresias de perdição” (2Pe 2.1 – ênfase acrescentada). As doutrinas de demônios nem sempre são propagadas de forma clara, e Satanás faz isso para facilitar que muitos sejam enganados. Tais ensinos mantêm alguns aspectos da fé, mas negam aquilo que é fundamental, sem o qual o cristão cai. O uniforme da milícia de Satã é camuflado com a estampa da verdade, mas é só a estampa. O coração do soldado que a veste está cheio de peçonha mortal, e ele está aparelhado para matar; por isso a ordem constante do capitão da nossa salvação é VIGIAI!

Falar em nome de Deus não é suficiente, e aceitar sem questionar não é sábio. Qualquer ensino só deve ser aceito após a verificação de sua concordância com a Escritura. Sem o selo de qualidade da verdade, não deve ser consumido. Há muitos crentes tornando-se discípulos do Diabo porque deixaram de beber na Fonte, e estão ouvindo apenas o que os outros dizem a respeito da Bíblia. O fato de alguém citar um texto bíblico não torna verdadeira a sua ideia. O texto usado fora de contexto pode ser uma perversão do texto. No deserto Satanás usou a Palavra, mas as suas citações não estavam em sintonia com o contexto ao qual pertenciam. Muitos grupos religiosos também usam a Bíblia, mas como afirmou C.S. Lewis, “todas as religiões são uma prévia ou uma perversão do cristianismo” (GRAHAM, Billy. Paz com Deus. CPAD, 2015, pg. 93). O arqui-inimigo de Deus usa métodos sofisticados para enganar, ele opera sinais e prodígios, se transfigura em anjo de luz, mas também difunde o falso ensino, e com isso ele tem arrebatado multidões.

Sã Doutrina

Apesar de tudo isso, temos uma opção que não falha: a sã doutrina. A doutrina dos homens é extrabíblica, a dos demônios antibíblica, a sã doutrina é bíblica. Paulo orientou Timóteo a ser “bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina” (1Tm 4.6 – ARA). A sã doutrina não se trata de um mero catecismo ou credo, como sabiamente afirmou R.N. Champlin: “As doutrinas formalizadas na forma de credos tendem a estagnar a viva energia dos ensinamentos de Cristo. […] Quando Jesus convidou: ‘aprendei de mim…’ […], certamente Ele não estava pensando em alguma sistematização de ideias ao seu respeito, e, sim, na capacidade transformadora de Sua doutrina e Espírito, capaz de transformar Seus discípulos” (CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Hagnos, 2004, pg.229). As instruções contidas na Palavra são seguras, não necessitando ser provadas ou aprovadas, tão somente recebidas e vividas. De Gênesis 1 a Apocalipse 22, o crente deve estudar exaustivamente, pois “tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4). As páginas sagradas dão uma ênfase extraordinária ao verdadeiro ensino bíblico. Aqueles que Deus escolheu na igreja para a área do ensino não devem ser preguiçosos, e sim diligentes. Devem exercer seu ministério com intensa dedicação (Rm 12.7).

Vejamos o exemplo do nosso Mestre que tinha o ensino como prioridade em Seu ministério: “percorria Jesus toda a Galileia, ensinado nas suas sinagogas […]. E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles” (Mt 4.23; 9.35 – ênfase acrescentada). Quando foi preso nos Getsêmani, o Senhor disse: “Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo” (Mt 26.55 – ênfase acrescentada); e quando ascendeu ao Céu ordenou aos Seus discípulos: “ide, fazei discípulos […]. Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado” (Mt 28.19,20 – ênfase acrescentada). Se Jesus, que é o próprio Deus, colocou o ensino em primeiro lugar no Seu ministério, não devemos permitir que a Palavra de Deus perca a primazia. Nossa sociedade frenética não consegue ouvir um sermão de 1 hora; isso é assustador, pois além de não ouvir, Paulo profetizou que não suportariam a sã doutrina (2Tm 4.3). Os homens não querem tolerar os ensinos do Santo Evangelho. Temos muitos pregadores, mas pregadores da Palavra são poucos. Há muito “blá blá blá” e conversa fiada nos púlpitos, apenas para agradar ouvidos carnais. Precisamos de homens do tipo Noé: pregoeiros da justiça (2Pe 2.5). A sã doutrina deve ser cuidada, ensinada e, sobretudo, praticada.

Pare para refletir: qual é a doutrina que você tem seguido? De quem você tem aprendido? Mais do que nunca estejamos firmes na imutável, inerrante e infalível Palavra de Deus, “para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina” (Ef 4.14). Amém!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira