Seja fiel!




“Põe agora a tua mão debaixo da minha coxa, para que eu te faça jurar”. Estas são palavras do patriarca Abraão quando ordenou ao seu servo Eliezer buscar uma esposa para Isaque (Gn 24.2,3). Este estranho gesto cultural indicava a fidelidade do servo em relação à incumbência dada. Não se tratava apenas de buscar uma esposa: o Messias viria daquela descendência e, portanto, a mulher de Isaque deveria ser a pessoa certa. Abraão escolheu o servo mais velho de sua casa, alguém da sua mais alta confiança para desempenhar tão grande tarefa. Em uma época sem cartório, contrato, assinatura e papelada, a palavra de um homem tinha que ser suficiente. Isto nos mostra que, desde os tempos mais remotos, honrar os compromissos assumidos é uma qualidade admirável. Nós damos a isso o nome de fidelidade. Embora esta palavra tenha muitos significados, basicamente, o fiel é alguém que faz aquilo que propôs a fazer. O cristão, por ser quem ele é, deve ser fiel. Servimos a um Deus que é fiel e não podemos agir de forma contrária. A fidelidade é bem-vinda em todo o lugar: no trabalho, no casamento, nos pequenos e grandes compromissos e, sobretudo, no nosso compromisso com Deus. A Bíblia nos dá muitos exemplos de homens que foram leais ao Senhor, mas vamos analisar o caso de Daniel.

Um dos homens mais santos que já viveram neste mundo foi o profeta Daniel. O próprio Deus, nas Escrituras, testificou a respeito de sua piedade, colocando-o ao lado de ninguém menos que Noé e Jó (Ez 14.14). O período em que este profeta viveu foi um tempo difícil. Seu povo estava sendo levado para a Babilônia, e estudiosos acreditam que Daniel tinha por volta de 14 anos quando foi para o exílio. Desde o início de sua estadia longe da terra de Judá ele mostrou inteira fidelidade ao Senhor, apesar da sua tenra idade. Não bastasse estar em terra estranha – Daniel e seus amigos foram submetidos a um intenso processo de aculturamento. Um plano sedutor foi desenvolvido para apanhá-los: a mesa do rei. Daniel era dos nobres do seu povo, e embora estivesse acostumado com as regalias, não se deixou levar por aquela isca atrativa.

Não foi por falta de oportunidade que Daniel não pecou. O ambiente em que ele estava lhe proporcionava tentações suficientes para que ele se entregasse de espírito, alma e corpo ao pecado; a atmosfera não era nada compatível com sua crença. Até o seu nome foi mudado, mas o seu caráter e a sua forte determinação em obedecer à Lei de Deus não foi alterada. No reinado de Nabucodonosor, ele foi exposto a muitos perigos – mas se distinguiu como um dos homens mais sábios, intérprete de sonhos, governador de toda a província de Babilônia, como também o principal governador de todos os sábios daquele lugar (Dn 1.19,20; 2.26-30). Essa promoção se deu como recompensa de sua fidelidade ao Senhor, mas…. Nem tudo foi um mar de rosas. No período de Dario, o medo, este Daniel foi cercado de todos os lados. A posição que ele tinha alcançado despertou o ciúme político das autoridades do império medo-persa. Nos é dito que “todos os príncipes do reino, os prefeitos e presidentes, capitães e governadores tomaram conselho” contra Daniel (Dn 6.7). Eles procuraram de todas as formas alguma falha naquele homem para colocar sua vida em risco, “mas não podiam achar ocasião ou culpa alguma; por que ele era fiel” (Dn 6.4). Que postura! Que candura! Que testemunho! Embora os inimigos não tivessem do que o acusar, eles montaram uma estratégia eficaz: culpa-lo por sua fidelidade a Deus. Sim, o profeta de Deus foi lançado na cova dos leões, não porque estava fazendo coisas erradas, mas porque estava fazendo a coisa certa. Foi a fidelidade a Deus que havia colocado Daniel em um alto posto no reinado, e foi a mesma fidelidade que o colocou na cova dos leões; e em ambos os casos permaneceu firme. Ele experimentou o esplendor das glórias do império, como também a escuridão de uma cova cheia de feras, porém, nenhuma circunstância o pode abalar. 

Há algo nesta história que nos chama a atenção: Daniel não se contaminou, atravessou dois impérios e chegou a velhice sendo o mesmo. Já falamos de como ele se destacou nos dias de Nabucodonosor; e nos dias de Belsazar, seu filho, “se achou neste Daniel um espírito excelente” (Dn 5.12). Por causa da rebelião de Belsazar contra o Senhor, o seu reino “foi pesado e achado em falta”; então, o Deus do céu deu o império babilônico nas mãos dos medos e dos persas. No tempo de Dario, “o mesmo Daniel se distinguiu”. O rei era outro, o império também, mas Daniel era o mesmo, e nele permanecia um “espírito excelente” (Dn 6.3) – nesse tempo ele já estava com mais de 80 anos – . O segredo de tamanha vitória espiritual estava no fato de que, Daniel orava três vezes ao dia, e isso não era esporádico, mas um bom costume que havia desenvolvido; ademais, ele servia ao Senhor continuamente, e isto foi percebido até pelo rei (Dn 6.10,16). A fidelidade deste homem atravessou impérios, circunstâncias e o tempo, indo com ele para o túmulo (Dn 12.13).

Muitos ao receberem as honras que este homem recebeu, facilmente teriam se desviado. O sucesso, a “vitória” e a promoção podem se tornar em laços para nós mesmos. A.W. Tozer (2014, p. 132) escreveu: “É sempre uma tentação permitir que suas vitórias assumam proporções exageradas e lhe deem uma ideia errônea de quem você realmente é. Cuide-se quando sua reputação for celebrada”. Porém, o profeta também experimentou o outro extremo. Sua vida foi colocada em risco, e isto é uma prova de fogo à fidelidade de qualquer homem. Quando Satanás se apresentou perante Deus após ter tirado tudo o que Jó possuía, ele disse para Deus: “É só tocar na pele dele para ver o que acontece. As pessoas não se importam de perder tudo desde que conservem a própria vida” (Jó 2.4 – NTLH). Não é à toa que Daniel é colocado ao lado de Jó, ambos tiveram sucesso, ambos tiveram a vida por um fio, mas nenhum negou ao Senhor. Aqui está a prova final: o homem que renuncia a própria vida por amor ao Deus único e verdadeiro demonstra a maior prova de fidelidade. Daniel nos ensina que, pela graça de Deus, o cristão pode trafegar do sucesso ao desastre sendo leal.

Entenda isto: se você é um cristão, sua fidelidade a Deus será testada. O Senhor não permitirá que vivamos um cristianismo que não vale nada. Quanto mais somos pressionados, mais é revelado a medida da fidelidade que há em nós. Não podemos nos queixar das provações ou das tentações – elas são um terreno fértil para se desenvolver um caráter sólido. Deus irá permitir que sejamos pressionados por circunstâncias diversas e adversas, pelo pecado e pelo Diabo – e até mesmo pela Sua obra. Demas acompanhou Paulo na obra, mas chegou um tempo em que ele não suportou a pressão e “caiu fora” (2Tm 4.10). Paulo, no entanto, disse: “Dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus, Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério” (1Tm 1.12). Ao ser colocado em certas situações, o homem deve decidir se vai ou não permanecer leal, e é nessa hora que devemos manter uma postura cristã inflexível. Quando descemos ás águas do batismo prometemos honrar ao Senhor por toda a nossa vida, e não podemos voltar atrás; você se lembra? Davi disse que são poucos os fiéis (Sl 12.1) e, por isso os olhos de Deus estão à procura deles. Será que estamos entre os tais?

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.

Referências:

TOZER, A. W. Os perigos de uma fé superficial: desperte da letargia espiritual. Tradução de Elizabeth Dias. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2014. p. 132.

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. Seja Fiel! Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].