Seja Crente, Mas Nem Tanto!




Ao contrário do que muitos pensam, o crente em Jesus não é alguém que acredita em tudo. É bem verdade que o cristão creia no que Cristo diz em Sua palavra, entretanto, é incrédulo a tudo que a contradiz. Não devemos – precipitadamente – abraçar aquilo que vem em nome de Deus. A própria Escritura nos ensina que a dúvida, quando aplicada de forma correta, é benéfica para a fé.


O apóstolo João escreveu: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1Jo 4.1). Nós, cristãos, não duvidamos de Deus – mas sim de muitos que usam o nome de Deus no afã de enganar aos que são desprovidos de cautela. Muitos se decepcionaram – e até se desviaram da verdade – por acreditar nos picaretas da fé: homens que falam em nome do Senhor, mas não são enviados por Ele (Jr 29.9). João, inspirado pelo Espírito Santo, nos ordena a não crer em todo espírito – e ainda nos confere o direito de coloca-los à prova. Duvidar e provar são duas ferramentas essenciais para discernir as ações malignas daqueles que querem se divertir com a ingenuidade de muitos. Sabemos que Deus é um Deus de manifestações sobrenaturais; porém, nem toda manifestação sobrenatural procede de Deus.


O nosso Senhor Jesus elogiou a prudência da igreja de Éfeso: “puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achastes mentirosos” (Ap 2.2). Se aqueles irmãos não tivessem colocado tais homens sob prova com base na palavra de Deus, facilmente teriam sido enganados. Certamente colocaram em prática o conselho que o apóstolo Paulo lhes havia dado: “não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano de homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4.14). Quando esse mesmo apóstolo escreveu aos coríntios, afirmou: “Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2Co 11.13, 14). Diante de tais afirmações, podemos concluir que a Bíblia dá aos crentes muitas razões para não crer em qualquer coisa, por mais aparentemente divino que seja. Ainda escrevendo ao gálatas, Paulo advertiu-os, dizendo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl 1.8). Isso é impressionante! Paulo não diz: “ainda que um falso profeta…”, mas “ainda que nós mesmos”! Os crentes da Galácia tinham total liberdade cristã para rejeitar outro evangelho, ainda que fosse pregado pelo próprio Paulo ou qualquer outro dos apóstolos! Ainda é salientado que nem mesmo um anjo do céu deve ser ouvido se não pregar o verdadeiro evangelho de Cristo. Ele não disse “anjo das trevas” ou um “anjo do inferno”, mas um “anjo do céu”! Por mais mística que seja uma experiência, ou mais convincente um ensino, se estiver em dissonância das Escrituras, independente de quem seja, homem ou anjo, o cristão pode e deve rejeitar de boa mente. É fato que, algumas vezes, o Senhor Jesus repreendeu a falta de fé dos discípulos; porém, ter uma grande fé não é acreditar em tudo e todos – mas confiar plenamente no que o próprio Deus diz em Sua palavra.


Da vez que Paulo e Silas estiveram na cidade de Beréia para pregar o Evangelho, o registro de Lucas em Atos afirma que os bereianos “foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (At 17.11). Houve aceitação, mas também houve exame. Paulo era um verdadeiro apóstolo, porém os bereianos não aceitaram a sua mensagem sem antes conferir se era compatível com as demais Escrituras. Há muitos pregadores que sentem incômodo quando durante a sua ministração as pessoas conferem as suas palavras com a Bíblia, todavia, ninguém é obrigado a aceitar qualquer ensino sem antes passa-lo pela “peneira” da Escritura. Até homens de Deus que são sinceros servos do Senhor podem cometer equívocos. Onde o homem estiver, ali o erro também estará; por isso a necessidade de se examinar tudo à luz da palavra é constante.


Quando o rei Jeroboão se rebelou contra o Senhor e estava a queimar incenso em Betel, veio “de Judá a Betel, um homem de Deus” (1Rs 13.1). Deus havia dito àquele homem que após profetizar contra a loucura do rei não deveria beber água nem comer pão ali, e que ainda deveria voltar para sua casa por um caminho diferente (1Rs 13.7-9). Havia, porém, em Betel um velho profeta que lhe disse uma palavra contrária à palavra do Senhor, “e ele lhe disse: Também, eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do SENHOR, dizendo: Faze-o voltar contigo à tua casa, para que coma pão e beba água (porém mentiu-lhe)” (1Rs 13.18). Todos nós já sabemos qual foi o fim daquele homem de Deus; um leão o encontrou no caminho e o matou (1Rs 13.24). Que tragédia! Tudo isso ocorreu porque aquele profeta foi imprudente ao aceitar sem refletir. Da mesma forma, o nosso adversário, o Diabo, “anda em derredor, como leão bramando, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). Quando o crente acredita mais do que convém, se torna uma presa fácil. Vale lembrar que aquele profeta foi chamado de homem de Deus, mas caiu na mentira do profeta velho. Ser homem de Deus não nos dá o direito de desconsiderar a palavra do Senhor.
“Acautelai-vos, que ninguém vos engane”, afirmou o Senhor no sermão escatológico (Mt 24.4). Tomemos cuidado com os falsos cristos e falsos profetas (Mt 24.24), com “falsos doutores, que [introduzem] encobertamente heresias de perdição” (2Pe 2.1), com teólogos do YouTube que dizem: “Deixe o seu like antes de ir para o vídeo”, pois assim estaríamos aprovando e contribuindo para um conteúdo que nem sequer conhecemos, muito menos julgamos para saber se está de acordo com a verdade. Antes da aceitação ou rejeição, o crente deve, de forma rigorosa, comparar qualquer ensino, pregação ou experiência à Escritura, pois ela é o nosso princípio autoritativo que define o certo e o errado. Por fim, fiquemos com o conselho de Deus: “não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.19-21).


Em Cristo,
Gabriel Victor C. de Oliveira