Por que Jesus falava por parábolas?




A maior ênfase do ministério terreno de Jesus foi o ensino, e quando lemos os discursos do Mestre registrados pelos quatro evangelistas, é fácil notar que as parábolas ocupam um lugar todo especial. Além de ser um ótimo recurso didático, ao ensinar por meio de parábolas Jesus cumpriu ao seu respeito a profecia vaticinada pelo salmista que disse: “Abrirei a boca numa parábola; proporei enigmas da antiguidade” (Sl 78.2; Mt 13.35).

O teólogo pentecostal Elienai Cabral afirma que uma parábola é “uma espécie de ilustração da vida. Podia ser um relato de coisas terrenas, às vezes, histórico – geralmente fiel à experiência humana – narrado de modo a comunicar uma verdade moral ou algum ensino espiritual”[i]. Esta forma de ensino era comumente usada no judaísmo, já no Antigo Testamento encontramos o uso desse método (Ez 17.2 – ARC). Isto nos mostra que não foi Jesus quem inventou este recurso embora fosse amplamente utilizado em Seus ensinos. 

Mas por que Jesus falava tanto por parábolas? Se havia outros métodos de ensino, por que Ele, sendo um exímio Mestre, utilizou tanto deste meio para falar as multidões? A Bíblia dá duas respostas básicas para isso.

Para facilitar

Por uma lado, Jesus falava por parábolas a fim de facilitar a comunicação com seus ouvintes. Ele desejava tornar as verdades do Reino de Deus acessíveis a eles; usando elementos da vida comum das pessoas e estabelecendo comparações e conexões com as realidades espirituais. Como diz a Escritura: “Jesus usou muitas histórias e ilustrações […] para ensinar o povo, conforme tinham condições de entender” (Mc 4.33 – NVT).

Campos e sementes, pastor e ovelhas, donas de casa e dracmas, redes e peixes, eram coisas que faziam parte do dia-a-dia dos ouvintes de Jesus, e para trazer à luz as coisas profundas da sabedoria de Deus, nosso salvador falava de forma simples, “conforme tinham condições de entender”. É triste ver como alguns pregadores fazem uso do seu conhecimento não para expor o Evangelho, mas para tornar evidente a sua capacidade intelectual. Falam muito difícil de forma que as pessoas não entendem, e ao invés de aproxima-las da fé, cria-se uma barreira através de um “discurso de distanciamento”, onde a verdade muitas vezes é dita mas não é compreendida por aquele que ouve, ficando assim sem nenhum fruto espiritual. Em um de seus livros, Leonard Ravenhill protestou contra isso dizendo: “Os pregadores, que deviam estar ‘pescando homens’, parece estar pescando mais é o elogio deles. Os que costumavam espalhar a semente, agora estão colecionando pérolas intelectuais. (Imagine só, semear pérolas num campo!)[i]. Se a exposição da nossa mensagem não estiver de acordo com a capacidade de compreensão do nosso público, estamos apenas perdendo tempo.

Além disso, o uso de imagens pode apelar para a imaginação, tornando o entendimento não apenas mais claro, como mais agradável. Aqueles que falam do Evangelho, devem, como Jesus, fazer o uso sábio de histórias que possam incutir na mente das pessoas as verdades bíblicas: “A carne da verdade chega […] mais saborosa por ter sido mergulhada em uma história[i].

Para dificultar

Se por um lado Jesus queria facilitar a compreensão e trazer a luz os mistérios do Reino de Deus, por outro, Ele usava as parábolas para produzir um efeito totalmente oposto. O evangelista Mateus registra as seguintes palavras do Senhor: “Por isso, lhes falo por parábolas, porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mt 13.13,14). Marcos também registra que Jesus explicava as parábolas em particular aos seus discípulos (Mc 4.34). Estas palavras de Jesus levantam um problema: se Jesus veio para salvar o mundo, e os homens só podem ser salvos por meio da verdade; por que Ele usava parábolas para lhes encobrir a verdade?

O que precisamos entender é que, a dificuldade de compreensão era uma linha divisória entre os que realmente queriam seguir a Jesus e aqueles que eram meros espectadores. Nem todos da multidão tinham um desejo verdadeiro de aprender, alguns estavam interessados apenas nos milagres, no pão que Jesus multiplicava e eles comiam até se fartar, mas não em Jesus e Sua Palavra. Neste caso, as parábolas não tinham o propósito de facilitar, e sim de dificultar a compreensão de alguns ouvintes, fazendo com que os interesseiros desistissem mesmo antes de começar o discipulado.

Vemos ainda que, após Jesus proferir Suas parábolas, os discípulos estavam interessados em compreender as verdades que elas transmitiam (Mt 13.36). Aquele que deseja ser um verdadeiro discípulo de Cristo não recua quando não entende, mas se aproxima mais do Seu Mestre a fim de aprender os Seus preciosos ensinos. Os meros espectadores vão embora, sem entendimento, e consequentemente sem fé e sem salvação.

Este aspecto obscuro das parábolas de Jesus, além de ser visto como um ato de juízo, é também um ato da misericórdia de Deus. Era juízo pois impediam alguns de ter acesso a verdade que os podia salvar; era misericórdia porque, se Jesus adicionasse mais revelação espiritual ao que eles já sabiam, isso lhes traria mais infortúnio e condenação eterna, pois “o servo que conhece a vontade do seu senhor e não se prepara nem segue as instruções dele será duramente castigado. […] A quem muito foi dado, muito será pedido; e a quem muito foi confiado mais será exigido” (Lc 12. 47,48 – NVT).

Devemos ainda considerar que Jesus desejava revelar aos homens a verdade. Não era o Senhor que não estava disposto a dar o dom da graça, mas os homens que estavam indispostos a receber. Isso fica claro quando Jesus diz no mesmo contexto: “Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviu de mau grado com seus ouvidos e fechou os olhos, para que não veja com os olhos, e ouça com os ouvidos, e compreenda com o coração, e se converta, e eu os cure” (Mt 13.15). Alguns ouviam de mau grado, e a consequência disso é que Deus lhes vetou o entendimento do Evangelho. O homem vai ao inferno não porque Deus deixou de falar, mas porque ele mesmo não deu ouvidos; e por se endurecer contra Deus, Deus acaba por endurecer ainda mais aquele que já estava endurecido como castigo de sua impenitência.

As parábolas de Jesus são como dois lados da mesma moeda, ou como um espada de dois gumes. É salvação e também é juízo, tudo depende da forma como ouvimos. Amém.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.


Referências:

[i] CABRAL, Elienai. Parábolas de Jesus: Advertências para os dias de hoje. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. pg. 8.

[ii] RAVENHILL, Leonard. “Por que tarda o pleno avivamento?”. Venda Nova, MG: Editora Betânia, 1989. pgs. 17,18.

[iii] LEWIS, C.S. Como cultivar uma vida de leitura. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020. pg. 107.