Paz que excede a todo entendimento




O mundo está doente: esta é uma realidade que não demanda nenhum esforço para ser percebida. Práticas meditativas têm sido cada vez mais buscadas, as pessoas estão a todo modo tentando entrar em um “estado de paz”. Porém, se retirar para um lugar de silêncio, ficar assentado em determinada posição corporal – dentre outras coisas que compõem certos rituais de religiões orientais, não passam de paliativos para uma grande ferida aberta na alma dos homens. Existe uma guerra interna que não pode ser acalmada por artifícios humanos. Nem mesmo uma vida inteira “meditando” resolveria o nosso mal, e ainda que todas as armas fossem destruídas, ainda assim a maldade do coração totalmente depravado do homem seria suficientemente engenhosa para criar uma guerra. O homem precisa primeiro acertar a sua vida com Deus, como afirma a Escritura: “os ímpios não têm paz, diz o SENHOR” (Is 48.22).

Em suas cartas o apóstolo Paulo sempre desejava a “graça e paz […] da parte de Deus” aos irmãos (1.2); uma saudação habitual nas cartas paulinas. Em nossos dias, evangélicos de confissão pentecostal incorporaram em seu dialeto o clássico “A paz do Senhor”, reportando-se às Escrituras até no ato de cumprimentar-se. No Antigo Testamento, a palavra “paz” também era empregada em saudações (Dn 10.19), despedidas (1Sm 1.17) e outras ocasiões. No hebraico, a palavra para “paz” é “shalom”, e no grego “eirene”; ambos os casos significam repouso, quietude, segurança, dentre outras coisas. Geralmente, quando analisamos o pano de fundo histórico daqueles a quem Paulo escrevia suas cartas, saudações dessa natureza ganham mais força, visto que se tratavam de irmãos que estavam sob perseguições e aflições. Sem dúvidas, tais palavras eram consolo e encorajamento para os crentes.

Deus de guerra ou de paz?

Um problema vem a nossa mente quando pensamos no tema da paz. A Bíblia por muitas vezes apresenta Deus como um “Deus de guerras”, como conciliar isto? Embora as Escrituras afirmem que Deus é o “SENHOR dos Exércitos” (Sl 24.10) e “Varão de guerra” (Êx 15.3); Deus é constantemente apresentado como Aquele que concede paz ao Seu povo. Não há nenhuma contradição nisto, apenas uma demonstração de que Deus é pleno. Como bem afirmou A.W Tozer: “Entre Seus atributos não pode haver contradição. Não é necessário que Ele suspenda um para exercer outro, pois todos os atributos são um nEle”[i] (TOZER, 2018). Tomemos como exemplos dois textos do Antigo Testamento. No livro de Josué, em uma cristofania, Jesus aparece como o “Príncipe do exército do SENHOR”, e Ele trazia uma espada desembainhada em Sua mão (Js 5.13-15); no entanto, olhando para o futuro, o profeta Isaias referiu-se à Jesus como o “Príncipe da Paz” (Is 9.6). Alguém pode interpelar: “Mas quem Ele é de fato? Um ou outro?”; a questão é que nós não temos esta opção de escolha. Deus é um e o outro, e os Seus atributos trabalham em uma harmonia perfeita, a reação de Deus para com o homem será conforme a sua resposta à graça que Deus oferece. Deus se mostra benigno com o benigno, afirmou o salmista, porém com o perverso se mostra indomável (Sl 18.26). Deus é o Senhor da paz, Jesus Cristo Seu Filho o Príncipe da paz, e o fruto do Espirito Santo é paz em nossos corações (Gl 5.22). O Deus Trino e verdadeiro, é o Senhor da paz.

Paz em todas as circunstâncias

Quando Paulo escreveu a 2ª epístola aos crentes em Tessalônica, ele registrou as seguintes palavras: “Que o próprio Senhor da paz lhes dê paz em todos os momentos e situações” (3.16 – NVT). Isso soa contrário à lógica humana, e de fato o é, pois, do ponto de vista natural não é possível. A nossa própria correria desenfreada do dia a dia é capaz de nos deixar em profundo estado de perturbação interior. A segurança pública é incapaz de conter a criminalidade, cada vez mais as pessoas procuram recursos que possam mantê-las seguras ao menos dentro de casa. Mas e quando o problema está dentro da própria casa? Morar em um condomínio de luxo monitorado por câmeras 24 horas, com muros altos, cerca elétrica e guardas fazendo ronda, não é capaz de resolver os conflitos quando eles se dão no seio da família. Entretanto, o apóstolo fala de uma paz em todas as circunstâncias, e para entendermos a que tipo de paz ele se refere, precisamos cavar um pouco mais fundo sobre este assunto na Palavra de Deus.

A Bíblia nos apresenta a paz em três aspectos, vejamos:

Ausência de conflito: acordos políticos são feitos entre países no afã de promover a paz mundial. Quando os tanques de guerras, mísseis e bombas descansam, gerando assim uma ausência de conflitos, dizemos que os povos estão em paz.

A Bíblia afirma que o rei Davi foi um poderoso guerreiro, suas mãos derramaram muito sangue, o que também o impediu de edificar uma casa ao Senhor. Porém, o seu filho Salomão foi um homem pacífico, e antes mesmo que ele nascesse o Senhor já havia dito que ele não se engajaria na guerra como Davi, seu pai. O reino unificado sob o domínio de Salomão se estendeu grandemente, e toda a dimensão liderada por ele “tinha paz por todo o derredor”; enquanto nos dias dos Juízes os midianitas saqueavam todo o alimento do povo de Israel, nos dias salomônicos o povo habitava seguro, “cada um debaixo da sua videira, e debaixo da sua figueira” (1Rs 4.24,25); isto é, a paz possibilitava que as famílias também estivessem seguras financeiramente. Porém, esse cenário dos dias de Salomão era favorável a paz, sendo assim, não é a este tipo de paz a qual Paulo se referiu quando escreveu aos tessalonicenses (ver 2Ts 3.16). Por ser uma paz que resiste a “todas as situações”, ela deve significar muito mais do que ausência de conflitos.

É importante ainda entender que conflitos não acontecem apenas entre nações. Há conflitos conjugais e familiares, entre tantos outros. O próprio Senhor Jesus afirmou que não veio trazer paz, e sim a espada (Mt 10.34), e isto com certeza surpreendeu os discípulos que ouviram essas palavras! No entanto, Jesus estava apenas dizendo que, em uma mesma família haveria dois grupos: aqueles que criam nEle e aqueles que não criam nEle. Como consequência dessa divisão, muitos crentes sofreriam perseguição dentro da própria casa, e seus próprios familiares seriam seus inimigos. A fé em Jesus pode abalar muitos dos nossos relacionamentos. Há pessoas que sofrem na empresa onde trabalham por serem crentes, outros sofrem na vizinhança, outros em casa e assim por diante. Mas afinal de contas, Jesus nos dá ou não a paz? Aqui precisamos entender que Jesus não está usando o termo no mesmo sentido que Paulo está, os textos se complementam e não se contradizem, como veremos um pouco mais adiante.

Paz com Deus: um outro sentido em que a Bíblia nos fala de paz diz respeito a nossa relação com Deus. O homem à parte da obra da graça divina está em apuros. Em sua vida de pecado ele declara guerra contra Deus, mas o pior de tudo, na verdade, é que Deus está contra ele. As pessoas usam textos bíblicos como clichês muitas vezes para dizer: “se Deus é por nós…”, e a igreja responde: “quem será contra nós”. Bem, esta é uma realidade maravilhosa; mas e se Deus for contra nós? Esta é uma realidade aterrorizadora! O salmista declarou abertamente que Deus está armado, e que Suas armas são mortais (Sl 7.12,13)! As Escrituras falam de Deus apontando flechas contra o rosto do ímpio (Sl 21.12). Estas são imagens vívidas de uma guerra, e muito embora sejam palavras figuradas, elas representam a pior de todas as verdades. Mas Deus, em Sua graça, decidiu nos salvar e providenciou um meio de fazermos as pazes com Ele. Precisávamos de alguém que estivesse entre nós e Deus e nos religasse a Ele. Isto se cumpriu na pessoa bendita do Senhor Jesus, o Deus-Homem. Sendo Deus, Ele repousa Sua mão sobre o ombro do Pai; sendo Homem, Ele repousa Sua mão sobre a humanidade, e assim nos reconcilia ao Criador. Se Jesus não fosse o Deus-Homem isto não seria possível; era necessário alguém tão grande quanto Deus, e ao mesmo tão rebaixado quanto a humanidade para assim mediar entre ambos. Através da fé em Jesus não estamos mais em guerra contra Deus, e o melhor, Deus não está contra nós. Por isso Paulo escreveu: “justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1 – ênfase acrescentada). Entretanto, não é a esta paz a qual Paulo se refere ainda, mas com toda certeza resulta desta.

Paz de Deus: por último, a Bíblia nos oferece mais um conceito de paz. Não é ausência de conflito, e nem a paz com Deus, e sim a paz de Deus. A paz com Deus diz respeito a nossa relação com Ele, a paz de Deus diz respeito a nossa relação com as situações em nossa volta. Para explicarmos melhor este ponto, vejamos dois casos nas Escrituras. O primeiro trata-se de Davi sendo perseguido pelo seu filho Absalão; foi debaixo dessa pressão que ele escreveu o imortal Salmo 3. A situação era perigosa, Davi afirmou que seus inimigos eram muitos (Sl 3.1,2), mas algo nos surpreende quando ele diz: “Eu me deitei e dormi; acordei, porque o SENHOR me sustentou”. (Sl 3.5). É bem verdade que muitas pessoas não iriam sequer fechar os olhos sabendo que estavam sob perigo; Davi, porém, deitou dormiu e acordou sem sofrer nenhum dano! Como é possível alguém fugir dos seus inimigos e ter paz para dormir? Isto não pode ser entendido de forma humana, é por isso que Paulo disse que “a paz de Deus… excede todo o entendimento” (Fp 4.7 – ênfase acrescentada).

Outro exemplo de como esta paz se manifesta está na história de Pedro, o apóstolo do Senhor. Após Herodes matar Tiago, irmão de João, à espada, Pedro ficou encerrado na prisão aguardando o seu martírio. O fato surpreendente é que, na mesma noite em que ele estava para comparecer perante Herodes e o povo por ocasião da Páscoa, Pedro estava dormindo entre os soldados (At 12.6). Um anjo de Deus veio livrá-lo, mas Pedro estava tão tranquilo que ele pensava ser uma visão. O texto bíblico chega a dizer: “então, Pedro, caindo em si” (At 12.11 – ARA), indicando que ele não percebia a realidade daquele fantástico livramento. Oh, que paz gloriosa! Esta é a paz de Deus. Davi estava em uma situação hostil, Pedro entre soldados, e ambos descansando à sombra do Onipotente!

A paz de Deus não é a garantia de ausência de problemas, mas é tranquilidade e segurança em meio a eles; é experimentar paz onde não há paz; ela não impede o caos fora de nós, mas impede dentro de nós. Ter a paz de Deus é estar cercado de inimigos e dizer como Davi: “Não temerei dez milhares de pessoas que se puseram contra mim e me cercam. […] A salvação vem do SENHOR” (Sl 3.6,8). Esta paz não depende de circunstâncias favoráveis, pois muito embora o mundo ao nosso redor se agite ou desmorone, em nosso interior sabemos que estamos enraizados em Cristo, a Rocha Inabalável da nossa salvação. Esta é a paz de Deus, a paz que Paulo desejou aos crentes em Tessalônica, e que Deus deseja que todos os Seus filhos experimentem.

A paz de Deus não é algo que pode ser experimentado fora dEle, Paulo deixa claro que ela resulta de uma obra do Espírito Divino em nós (Gl 5.22). É o Senhor da paz quem nos dá a paz, e sem Ele, não é possível. Não se trata de uma experiência meditativa budista ou algo do gênero, em que você se assenta em silêncio absoluto para mergulhar-se em si mesmo; é uma experiência do mergulhar em Deus apesar de todo o barulho frenético a nossa volta, e descansar nos braços de amor do Pai. Amém!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[i]TOZER, A.W. O conhecimento do Santo. Tradução: Osler Gustavo Manzini.  São Paulo: Impacto Publicações, 2018. p.36.