O que é e o que não é vocação?




Parte 2

Um dos presentes mais belos que Deus deu ao ser humano foi a capacidade de questionar. Somos seres filosóficos, fazemos perguntas e mais perguntas; algumas banais, outras de extrema importância, outras irrespondíveis. Há três perguntas que geralmente são inquietantes para todos nós humanos: De onde vim? Por que estou aqui? Para onde vou? Estas são indagações realmente importantes, pois lidam com nossa própria existência, nossa origem, nosso propósito e nosso destino. A ciência tem procurado dar respostas para a primeira pergunta e muitas especulações têm surgido disso; alguns argumentos oferecidos a respeito da nossa origem são tão desprovidos de lógica que ficamos admirados como mentes tão capazes chegam a conclusões tão estúpidas. O mesmo se pode dizer a respeito da última pergunta; para muitos, nós não iremos à lugar nenhum – “comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1 Co 15.32) e fim; não há nada mais após a morte. Mas, se assim é, por que tanto desassossego, apreensão, medo e tristeza quando se pensa na “dama da foice”? Se nosso destino é nenhum destino, senão a putrefação, por que tanto medo de nada? A ciência dos céticos e ateus não podem oferecer respostas à altura do clamor desesperado da alma humana. No entanto, o cristão tem a Bíblia, e temos inúmeras provas de que a verdade não é relativa e sim absoluta. O livro que Deus escreveu provou ser a única verdade, pois está se cumprindo cabalmente dia-após-dia. Isto significa que se você crê na palavra de Deus já tem as respostas quanto à origem e o destino do ser humano. A Bíblia fala com firmeza de onde viemos e para onde vamos, com ou sem Cristo. Contudo, muitas pessoas, que tem a Bíblia como sua regra de fé, não encontraram a resposta, ou têm muitas dúvidas quanto à segunda pergunta: “Por que estou aqui? ”. Ao respondermos esta questão teremos achado a nossa vocação, e assim poderemos melhor pôr em prática nossa incumbência. Acredite: este tema é importante! Hernandes Dias Lopes afirma que: “Não podemos subestimar esse tema. Ele deve ser discutido no lar, na igreja, na academia e nas mais nobres instituições humanas. O sentido da vocação é um dos sentidos superiores do homem. É o sentido que o leva a realizar com desinteresse e denodo as maiores empresas. Nos momentos sombrios, proporciona-lhe luz; nos transes difíceis, incute-lhe novo ânimo”[1]. Que tragédia seria chegar ao fim da jornada, e só diante do Tribunal de Cristo descobrir que grande parte da nossa vida foi fútil, fazendo o que não era para ser feito. Posto isto, vamos à pergunta: o que é vocação?


O que é vocação?

Esta palavra é comumente usada nas Escrituras para se referir ao chamado de Deus para a salvação em Cristo (1Co 1.26; Ef 4.1; 2Tm 1.9; Hb 3.1). Isso por que o termo “vocação” significa “chamar, convocar, convidar” e, de fato, Deus tem convidado aos homens para o Reino do Filho do Seu amor através dos Seus servos. Mas também encontramos na Bíblia Deus chamando pessoas para exercer funções específicas, como no caso de Paulo e Barnabé que foram chamados para a obra missionária (At 13.2); no Antigo Testamento, Deus chamou Bezalel para trabalhar com obras artísticas (Êx 35.30-33). Portanto, vocação, no sentido em que falaremos aqui, refere-se ao chamado de Deus a cada um de nós para exercermos alguma tarefa para Ele neste mundo.

Além disso, vocação é também a convicção de estar onde se deveria estar, fazendo o que deveria fazer; um senso profundo de estar cumprindo o seu propósito. É algo que nos completa, pois não seríamos nós mesmos se não fizéssemos aquilo. A vocação é uma espécie de “habitat natural”; é trabalhar e, ao mesmo tempo, nos “sentir em casa”, e não a colocar em prática é sentir-se um peixe fora d’água. O ministro metodista E. M. Bounds (2010, p.9), fala de Paulo e sua vocação evangelística com as seguintes palavras: “Paulo chamou-o de ‘meu evangelho’. Não que ele tenha degenerado o evangelho com suas excentricidades pessoais, ou que tenha feito digressões egoístas, mas o evangelho foi posto no coração e na corrente sanguínea do homem Paulo, como tarefa pessoal que lhe foi confiada para ser executada por meio de suas características paulinas”[2]. Sim, a vocação é algo que está posto na fibra do nosso ser, e isto é valioso demais, pois se trata de uma semente que o próprio Deus plantou em nós.


Isso é tão belo que, em alguns casos, a vocação se funde com o vocacionado e se torna uma identidade objetiva de quem nós somos. Em Mateus 13.55, está escrito a respeito de Jesus: “Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? ”. O texto não cita o nome de José, o pai de Jesus, apenas se refere a ele como “carpinteiro”; certamente as pessoas que estavam naquela ocasião sabiam muito bem que se tratava de José, pois Jesus estava em sua própria pátria (v.54). As pessoas o identificavam por sua própria vocação.

O que não é vocação?

Prestígio

Certas pessoas foram chamadas para ocupar posições de destaque. Naturalmente, este tipo de vocação já traz consigo o renome. Um político é mais conhecido que seu guarda-costas, um pastor é mais visível que o irmão que lava os banheiros da igreja com amor e empenho, assim como um apresentador é mais notável que o câmera-man. Mas o fato de não ser afamado não significa que você não é vocacionado. Vocação não tem a ver com prestígio, e sim, com propósito. Não devemos entristecer ou desanimar porque os holofotes não estão sobre nós; quando ninguém nos vê, Deus permanece nos vendo. O glamour não é algo com que devemos nos preocupar, em tudo o que fazemos Cristo deve ser exaltado. Status pode ser uma consequência, mas nunca uma busca.

Riqueza

Todos nós precisamos de dinheiro, isto é uma verdade básica. O sábio Salomão reconhecia esta verdade quando escreveu: “sem dinheiro não se pode ter nenhuma coisa nem outra” (Ec 10.19b – NTLH). Temos necessidades e necessidades têm custo. Comer, beber, vestir e se divertir tem seu preço, e é preciso dinheiro para financiar todas essas coisas. Entretanto, algumas vocações não trazem lucro financeiro, e muitos as deixam por isso. Grande parte das propagandas do YouTube pregam a ideia do “meu 1º milhão antes dos 30”, e não são poucos que tem se enveredado por este caminho. Embora não seja errado investir bem e se enriquecer, isto não é tudo e não é para todos. Na verdade, as Escrituras nunca nos orientam a buscar as riquezas; elas facilmente nos tornam em laço (1Tm 6.9). Mas, sendo assim, o que fazer quando sua vocação não lhe traz o lucro que você deseja?

  1. Você deve perguntar a si mesmo: eu quero cumprir o meu propósito ou ficar rico? A. W. Tozer (2014, p.182) registrou o seguinte sobre John Wesley: “A riqueza da Inglaterra poderia ter sido colocada aos seus pés – pelo menos as pessoas mais comuns teriam colocado o seu dinheiro ali –, mas, quando ele morre, possuía apenas 28 libras, o equivalente a, aproximadamente, 130 dólares. Ele viveu 83 anos e morreu com 130 dólares, por isso, nem precisou fazer um testamento. Apenas com seu sepultamento, gastou-se mais do que isso”[3]. John Wesley morreu pobre, mas a história nos mostra que esse homem deixou-se queimar para Deus a fim de cumprir a sua vocação. Ser obediente ao chamado de Deus é melhor do que ter muito dinheiro.
  2. Contente-se com o necessário: Foi isso que o Senhor Jesus nos ensinou na oração-modelo: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11). Deus tem provisão diária para os seus filhos. Ele nem sempre irá realizar as nossas vontades, mas se preocupa profundamente com as nossas necessidades; e se ainda padecermos necessidade, a presença do Senhor não nos faltará. “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1Tm 6.8). Talvez a sua vocação não lhe proporciona tudo o que você deseja, mas você tem o que muitos não têm. Quando Anne Frank teve de se esconder com sua família no Anexo Secreto por causa dos “alemães hitlerianos”, ela escreveu em seu diário: “Nós aqui estamos bem, melhor do que milhares de outras pessoas… Nós, em comparação com os judeus que não conseguiram esconder-se, ainda estamos no paraíso”[4]. Olhe ao redor, e você verá o quão abençoado é.
  3. Adeque seu estilo de vida com aquilo que você ganha. Talvez você não precise ganhar mais, e sim gastar menos. Para quê ostentar algo que não somos? Isto não é sábio, aprenda a ser simples. Quanto ao lazer e outras coisas, há muitas opções baratas, outras até grátis. Você não precisa viajar até Copacabana para se divertir; passeie no parque, na praça, acorde cedo, veja o sol e ouça os pássaros, molhe-se na chuva… É tudo de graça! A vida é bela!
  4. Desde que você não seja escravo do trabalho, nem do dinheiro, é possível optar por uma renda extra. A esposa e os filhos podem ajudar na despesa da casa também… “Tudo é conversado”. Há muitas formas lícitas de ganhar dinheiro sem sacrificar a fé, a família, o descanso e a vocação.
  5. E por último, porém, mais importante: confie no Senhor. Deus pode abrir portas e nos dar condições melhores. Ele é o Dono do ouro e da prata (Ag 2.8). Deus tem muito dinheiro, quem sabe Ele não te dê um pouco mais? Ore e confie.

Uma obra acabada

Esse ponto pode ser um pouco confuso, mas vamos tentar entendê-lo. A vocação não é algo pronto, é como uma escada com muitos degraus, e não devemos pensar que, porque não chegamos ao patamar, não estamos cumprindo o nosso chamado. Considere um médico; ele não pensa em ser um cirurgião em um dia, vestir o jaleco no outro e, em seguida, abrir a cabeça de um paciente com o bisturi! São necessários anos a fio de estudo intenso e, nesse interim, muitos precisam trabalhar para manter a vida e custear o próprio curso de medicina. Esse período em que a pessoa não está exercendo a profissão propriamente dita, não significa que ela está fora do propósito de Deus, pois todos esses estágios fazem parte da vocação. Enquanto não chegamos ao alvo desejado, devemos cumprir aquilo que está em nossas mãos com todo esmero: tudo isso faz parte da consolidação do nosso chamado. Aparentemente, o processo está desconectado da vocação, mas não é verdade.  Cada degrau é parte da escada, cada processo é parte da vocação. Cumprir o nosso chamado não é tarefa de um dia.

Uma tarefa única

Algumas pessoas possuem mais de uma vocação. Temos, por exemplo, o evangelista Lucas que era médico, exímio historiador e missionário. Pessoas assim precisam da sabedoria do Senhor. Geralmente Deus usa as circunstâncias para nos pender mais para uma coisa do que outra, como também há casos em que devemos aproveitar o nosso tempo. Lucas viajava com Paulo na obra missionária, enquanto isso, ele aproveitava para escrever o Evangelho e o livro de Atos. Paulo e outros irmãos eram como uma espécie de fonte histórica para ele, e é bem provável que neste meio tempo ele cuidava dos doentes e feridos, e principalmente de Paulo.

Facilidade e sucesso

Ter um chamado não nos isenta das dificuldades no caminho. Há momentos que Deus nos prova, que o diabo nos tenta e que as pessoas se levantam contra nós. Devemos ser firmes quando as tempestades vierem, pois muitos acabam entrando em confusão quando se deparam com elas. Uma igreja que não cresce não significa – necessariamente – que seu líder não tenha um chamado; há muitas circunstâncias envolvidas nisso. Aquela congregação pode ter se acostumado ao estilo do pastor anterior, ou ter um histórico de escândalo que dificulta a entrada de novos membros, ou ainda não estar localizada em num ponto estratégico, entre tantas coisas. Alguém pode estar trabalhando em um escritório onde seu chefe é uma pessoa desgastante, seus colegas de trabalho não são amigáveis e todas estas circunstâncias podem levar muitos a pensar que estar ali não é o seu chamado, e que não nasceu para isso. Nesse caso, o problema não é a falta de vocação, e sim um momento de crise. Talvez seja melhor mudar o local de trabalho se for possível, ou a localidade da igreja. Se não houver esta possibilidade, lembre-se que Deus está com você e Ele deseja te ajudar nesta tarefa. Não se demova do seu posto. Ashbel Green Simonton disse acertadamente: “O lugar mais seguro para um homem estar, mesmo que cercado de ameaças e perigos, é no centro da vontade de Deus”[5].

Não espere facilidade, toda vocação é acompanhada de suas intempéries. Nem tudo o que nós fizermos terá “sucesso”, pelo menos não do ponto de vista humano. Noé pregou e ninguém – fora a sua família – se arrependeu; alguém pode até pensar que ele teve um chamado fracassado – mas a Bíblia o considera como um dos homens mais fiéis de todos os tempos e o pregoeiro da justiça (Ez 14.14; 2Pe 2.5). Deus enviava profetas ao seu povo e, às vezes, o próprio Deus avisava: eles não irão te ouvir (Ez 3.7)! Era como se Deus dissesse: cumpre a sua vocação e fracasse! Parece-nos estranho isto. A questão é que não temos controle da maioria das coisas. Você planta, outro rega, e é Deus quem faz crescer (1Co 3.6). Um médico cuida do paciente e realiza todos os procedimentos necessários, mas isto não significa que o paciente permanecerá vivo. Se por acaso ele vier a morrer, ainda assim, o médico cumpriu a sua vocação. A nós cabe obedecer a Deus; o resultado final não está em nossas mãos. Ser vocacionado não é sinônimo de “sombra e água fresca”.

Cargo eclesiástico

Quando se fala em vocação ou chamado, alguns já pensam em “gola clerical”. Para muitos, vocação é coisa de missionário, pastor ou evangelista; sim, estes são chamados, mas não são para todos. Não é da vontade de Deus que todos os Seus filhos desempenhem estas tarefas. O que seria da Igreja e do mundo se todo mundo fosse pastor? E os zeladores, chaveiros, sapateiros, pedreiros, médicos, advogados, garis, carpinteiros, dentistas, músicos e outros, não precisamos de todos eles? O mundo não funciona à base de pastorado. Acredite, há pessoas que se sentem inúteis só por não desempenharem uma tarefa no âmbito eclesiástico. Precisamos entender que ser útil para Deus não se restringe ao ambiente religioso. Embora todos devemos estar envolvidos de alguma forma nos trabalhos de nossa igreja local, Deus não está agindo apenas dentro dela. “Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam…  Toda a terra está cheia da sua glória” (Sl 24.1; Is 6.3). Por isso você pode honrar a Deus como motoboy, pintor, e qualquer outro trabalho lícito. Você não precisa de um microfone e um púlpito para ser vocacionado; pois, para cada pessoa específica Deus tem um propósito específico. Você não é insignificante para o Senhor. O apóstolo Paulo escreveu: “os membros do corpo que parecem ser mais fracos são muito mais necessários” (1Co 12.22 – ênfase adicionada).

Fostes chamado para ser pastor? Exerça seu ministério com afinco. Fostes chamado para ser uma cozinheira? Faça bons pratos para a glória de Deus e assim você estará honrando ao Senhor na sua cozinha. “Cada um fique na vocação em que foi chamado” (1Co 7.20).

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Referências

[1] LOPES, Hernandes Dias. De pastor a pastor: princípios para ser um pastor segundo o coração de Deus.São Paulo: Hagnos, 2008. p.14.

[2] BOUNDS, E.M. Poder pela oração. São Paulo: Editora Vida, 2010. p.9.

[3] TOZER, A.W. Os perigos de uma fé superficial: desperte da letargia espiritual.Tradução: Elizabeth Dias, Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2014. p.182

[4] FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Tradução: Georgia Mariano. Jandira, SP: Principis, 2018. p. 50-60.

[5] SIMONTON, Ashbel Green apud LOPES, Hernandes Dias. Op., Cit.,pg.4