O que as pessoas pensam de nós importa?




Liberdade: este é o lema adotado pela nossa sociedade atual. O ditado “ninguém tem nada a ver com a minha vida” criou uma espécie de cultura em que ninguém pode levantar críticas ao comportamento alheio. Dizer que alguém está errado – quando esse alguém, de fato, está – já não é visto como um ato de proteção e precaução, mas sim, de desrespeito à emancipação do outro. As pessoas simplesmente querem viver sem se preocupar com o que os outros pensam ou dizem a respeito delas. Vivemos um verdadeiro reaparecimento do negro período dos Juízes de Israel, em que “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos”, e qualquer censura é aclamada como intolerância (Jz 21.25).

Esse tipo de comportamento é melhor definido se o chamarmos de libertinagem. Sim, a ausência de compromisso implica em uma liberdade que não é verdadeira. Ser livre sem assumir responsabilidade é ser escravo da insensatez. O cristianismo não é uma religião frouxa, anarquista, que isenta o indivíduo da prestação de contas. O cristão tem responsabilidades com Deus, consigo e com os outros. Uma vida reta com Deus nos dá uma consciência tranquila no que diz respeito a nós e um comportamento correto quanto às pessoas. Não há espaço para um comportamento individualista na fé cristã. O cristão precisa pensar fora da caixa, entendendo que possui um caráter a zelar diante de Deus e de si mesmo, e uma reputação a preservar diante dos homens.

É por isso que levamos em consideração o que as pessoas pensam e dizem de nós. Somos chamados a ser a luz do mundo, e como tal, o nosso testemunho é o que define se, de fato, somos luz. Não se trata de estar amarrado ao cabresto da opinião dos outros – sendo movido para lá e pra cá simplesmente para agradar a massa; se trata de entender que somos representantes de Deus na terra, e por isso prezamos pela imagem dAquele a quem representamos. Nutrimos um engano fatal quando pensamos que podemos ter uma vida reta com Deus e, ao mesmo tempo, uma vida irregular com os homens. Esta assimetria não é possível.Não negamos a verdade de que as pessoas podem conceber ideias erradas sobre nós, tecendo uma reputação dissociada da realidade de quem verdadeiramente somos. Por isso, quando alguém diz bem ou mal ao nosso respeito, há duas alternativas possíveis: ou se trata de uma distorção da verdade – ou é a verdade. O preconceito pode, e faz, com que as pessoas emitam opiniões errôneas sobre as outras, pois partem de um ponto de vista particular já manipulado, e elas até podem mudar de ideia à medida que se sentam para “comer um quilo de sal”. Também há aqueles que mal-intencionados, apenas querem manchar a reputação dos outros, afirmando que eles são – o que, na verdade, não são-, ou negando aquilo que são, de fato.

Tendo em vista que nós, seres humanos, conseguimos facilmente detectar de forma límpida o defeito nos outros – sendo ao mesmo tempo generosos com os nossos –,há uma probabilidade do que as pessoas pensam das outras estar correta. A percepção de fora quanto aos nossos erros é mais aguçada do que a nossa percepção pessoal; e pode ser, em razão disso, que os outros estejam corretos naquilo que dizem de nós. Não é sábio ignorar as opiniões externas sob o pretexto de que “meu compromisso é com Deus e não com os homens”; Deus pode usar a habilidade humana de enxergar o defeito nos outros para mostrar a nós mesmos onde está a brecha em nossa armadura.

Certa feita, o sacerdote Eli reclamou aos seus filhos, dizendo: “ouço de todo este povo os vossos malefícios […], não é boa esta fama que ouço” (1Sm 2.23,24). Hofni e Finéias eram sacerdotes como seu pai, cabia a eles cumprir seu ofício de tal forma a ser um exemplo para o povo do Senhor. No entanto, aqueles jovens possuíam uma má reputação – e o pior de tudo: tal qual a fama era também o caráter deles. O pecado destes jovens era tão grande que o Senhor os queria matar (1Sm 2.25). Ao vermos o final da vida daqueles sacerdotes perversos, temos boas razões para crer que eles eram pessoas do tipo “ninguém tem nada a ver com a minha vida”. Eles simplesmente ignoraram todos os sinais de alerta – o testemunho do povo e a repreensão de Eli; nada disso consideraram.Todo o povo percebeu a mesma coisa: não se tratava de uma opinião particular – e sim, geral. Infelizmente e irrefletidamente, aqueles jovens taparam os ouvidos quando deviam ter se autoavaliado.

Na segunda viagem missionária de Paulo, um jovem chamado Timóteo ingressa com ele em sua jornada missionária. Todos nós sabemos a seriedade com que este apóstolo conduzia o seu ministério. Aconselhando a Tito, ele disse: “Em tudo, te dá por exemplo de boas obras; na doutrina, mostra incorrupção, gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de vós (Tt 2.7,8 – ênfase acrescentada). Sendo Paulo tão criterioso quanto ao comportamento de um obreiro, o que fez com que ele levasse consigo um jovem e não uma pessoa de mais idade – portanto, mais experimentada –  para uma tarefa tão exigente? A resposta é simples: REPUTAÇÃO! Sobre Timóteo, a Escritura nos diz: “E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma judia que era crente, mas de pai grego; do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listra e em Icônio” (At 16. 1,2 – ênfase acrescentada – perceba que a reputação deste jovem se expandiu para outros lugares). O respeito adquirido pelo comportamento irrepreensível de Timóteo fez com que Paulo o considerasse apto para ir ao campo missionário.

E o que dizer dos irmãos romanos? Pois, muito embora Paulo não os conhecesse pessoalmente, a boa fama daqueles crentes se espalhou como um bom perfume por todo império, pelo que ele escreveu: “em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (Rm 1.8). Ao escrever a Gaio, o apóstolo João também afirmou: “Porque muito me alegrei quando os irmãos vieram e testificaram da tua verdade, como tu andas na verdade. Não tenho maior gozo do que este: o de ouvir que os meus filhos andam na verdade” (3Jo 3,4 – ênfase acrescentada). Todos estes textos bíblicos – embora pudéssemos citar outros mais – nos dão um forte indício de que devemos sim nos preocupar com a opinião dos outros sobre nós. Nosso comportamento pode abrir ou fechar portas. A maneira como nos portamos pode influenciar a ação das pessoas para o bem ou para o mal; as atitudes dos filhos de Eli não ficaram limitadas a eles mesmos, o povo do Senhor passou a transgredir em razão da influência negativa daqueles rapazes (1Sm 2.24). Nossa reputação pode trazer as pessoas a Cristo ou envergonhar o Seu nome, fazendo com que elas se distanciem do caminho da salvação. Nosso testemunho deve ser uma ponte e não um abismo.

Examinar a si mesmo e ter uma visão correta de quem somos a partir da Palavra de Deus é fundamental; todavia, todo cristão deve fazer a pergunta que o nosso próprio Senhor Jesus já fez: “e vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15). Embora a opinião dos outros não nos defina, ela pode ser uma definição correta daquilo que demonstramos ser. Que ao observarem a nossa conduta, as pessoas ao nosso redor possam ter a mesma conclusão da sunamita em relação a Eliseu: “tenho observado que este que passa sempre por nós é um santo homem de Deus [ou uma santa mulher de Deus]” (2Rs 4.9). Embora a verdadeira espiritualidade não se trata de mera aparência, não se pode negar o seu efeito no exterior. Um homem que foi trabalhado por Deus interiormente provará isto exteriormente. Afinal, as pessoas não nos veem por dentro, senão por fora.  A fé verdadeira prova a si mesma pelo resultado que ela produz no comportamento externo do indivíduo. Deus te vê por dentro; mas, as pessoas, não, Deus conhece todo o seu ser, as pessoas, apenas o seu testemunho, por isso devemos zelar da nossa reputação como cristãos diante de todos. Devemos nos apropriar do que podemos chamar de “o padrão Samuel”. Em contraste aos filhos de Eli, a Bíblia diz que Samuel “fazia-se agradável, assim para com o SENHOR, como também para com os homens” (1Sm 2.26).

Agora, tomemos cuidado, pois somos tentados a ser uma pessoa diante das pessoas – e outra quando não estamos com elas, nutrindo assim uma personalidade hipócrita somente para surpreender os observadores com uma “falsa santidade”. Reputação sem caráter é um perigo ainda maior do que este que acabamos de elucidar. Mas por ora ficamos por aqui, este é um tema para outro capítulo.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. O que as pessoas pensam de nós importa? Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].