O pecado de não ler a Bíblia




Não foi nada fácil o caminho percorrido até aqui para que tivéssemos a Bíblia em nossas mãos. Grandes esforços foram empreendidos, batalhas foram travadas – e até vidas foram ceifadas para termos tamanho privilégio. Ao ver a indiferença como muitos cristãos tratam a Bíblia, só podemos chegar à conclusão de que tal atitude é uma terrível afronta a Deus. Alguém que tenha capacidade e possibilidade de ler as Escrituras, e não o faz, peca por omissão, como diz o princípio esclarecido por Tiago: “aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4.17). Além disso, trata-se de uma total desconsideração com a nossa história e um ato inconsequente de rejeição.

Em primeiro lugar, não ler a Bíblia é uma falta de respeito a Deus que, sendo a Autoridade Suprema no Universo, se revelou através do LIVRO. Imagine por um instante um marido distante do seu lar em outro país, então, com muitas saudades da sua amada, escreve a ela uma carta falando do seu coração partido por sentir sua falta. Mas a sua esposa, ao receber o envio, guarda-o na gaveta relegando ao esquecimento. Ou o que você pensaria se um rei escrevesse a um de seus súditos – e este, ao invés de receber a missiva com uma atitude honrosa de prontidão, simplesmente ignorasse o comunicado do seu senhor? Em ambos os casos, tanto da esposa como do súdito, classificaríamos tais atitudes como desafeto e desdém. Mas será que não percebemos que a Bíblia é uma carta de amor enviada a nós por Aquele que é o mais Belo entre milhares? Sim, ela é a Missiva, a Carta Magna, trazida da Pátria Celestial ao mando do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores; no entanto, muitos de nós a temos desprezado.

Em segundo lugar, não dar as Escrituras um lugar de primazia em nossa vida é um ato de total desconsideração aos homens que deram a sua vida para nos dar a Bíblia. A história de como este Livro Sagrado chegou até nós é sanguinolenta e incandescente. O que dizer de John Wiclyffe? Este precursor da Reforma Protestante fez um árduo trabalho de tradução da Bíblia para a língua inglesa, porém, “as cópias dessa Bíblia fora objeto de grandes queimas públicas nos anos de 1410 e 1414, mas pelo menos 170 delas ainda existem até hoje” (ALMEIDA, 2017)[1]. Mais tarde, Martinho Lutero, sendo chamado para se retratar na Dieta de Worms em 1521, disse de forma ousada perante o imperador Carlos V e os demais presentes na ocasião: “Se Sua Majestade Imperial deseja uma resposta franca, eu a darei, e é esta: É impossível para mim retratar-me, a não ser que me convençam pela Escritura ou por meio de argumentos evidentes. Eu acredito em coisas contrárias ao papa e aos concílios, porque é claro como a luz do dia que eles têm errado e dito coisas incoerentes com eles próprios. Estou firmado nas Escrituras que tenho citado; minha consciência tem que submeter-se à Palavra de Deus. Portanto eu não posso e não me retratarei, porque proceder contra a consciência é ímpio e perigoso. Assim Deus me ajude. Amém[2]. Após isso, Lutero se escondeu em um castelo de propriedade do seu amigo Frederico III, Príncipe-Eleitor da Saxônia, foi ali que ele passou alguns meses em labuta constante para traduzir a Bíblia para a língua popular dos alemães. Até o fim da vida, o reformador alemão prezou com seu coração a Santa Palavra de Deus. Já próximo da sua morte, ele disse: “Vós, gerações vindouras! Orai e ocupai-vos aplicadamente com a Palavra de Deus. Guardai a escassa luz de Deus exposta ao vento; estai prevenidos e preparados a cada hora contra o diabo que aspira apagar a luz”[3]. É inconcebível pensar em todo esforço desses homens e os perigos em que incorreram para dar ao povo a Bíblia, e não darmos a ela o seu devido valor. A maneira como muitos crentes tratam a Bíblia seria uma ofensa para estes homens – o que dirá diante de Deus.

Por fim, não ler as Escrituras é um ato inconsequente de rejeitar tão grande privilégio dado por Deus. Embora grande parte do mundo já ouviu a mensagem da salvação, muitos ainda não tiveram esta oportunidade. Ainda há pessoas que não tem acesso a um único exemplar da Bíblia, há lugares em que sua entrada é proibida, enquanto estamos “pisando em favo de mel”. O pastor e escritor Abraão de Almeida narra a seguinte história da menina Mary Jones, que foi uma importante figura para o surgimento das sociedades bíblicas: “Filha de modestos operários, Mary teve como berço natal a aldeia de Bala, país de Gales, Inglaterra, pacato vilarejo que nem escolas possuía. Sem esperança de poder um dia ler a Palavra de Deus por falta de instrução, Mary foi surpreendida por uma iniciativa do governo, que resolveu criar uma escola naquela localidade. Com muita alegria ela se matriculou e aprendeu a ler rapidamente. ‘Se eu tivesse um exemplar da Palavra de Deus poderia lê-lo diariamente e instruir-me’, disse Mary muitas vezes. Mas as Bíblias, naquele tempo, além de raras, eram caríssimas[1]. Para encurtar a história, Deus moveu o coração de uma senhora que soube do caso de Mary, e colocou seu exemplar a disposição da garota que todos os dias ia à casa dela para ler as Escrituras após a escola. Porém, no afã de possuir um exemplar todo seu, “Mary resolveu economizar tudo que ganhava a fim de poder comprar uma Bíblia. Ao fim de seis longos anos, abriu o cofre e viu que já possuía dinheiro suficiente para adquirir uma. Obteve permissão e se dirigiu à cidade, distante vinte e cinco quilômetros, mas quando chegou à única casa que as vendia, ouviu a triste notícia: ‘As duas únicas que tenho já estão vendidas e não as posso ceder’. Um soluço ressoou pela sala. Mary Jones chorava sentidamente. Economizara durante seis anos, privando-se de brinquedos que outras crianças usavam, e, após tão longa caminhada, não conseguira o que tanto desejava! O comerciante, entretanto, ficou de tal maneira comovido que resolveu vender uma Bíblia à menina, embora deixasse de atender a outro cliente. Mary enxugou as lágrimas, entregou as moedas e recebeu o Livro que tanto amava, abraçando-o fortemente e sorrindo de alegria”[2]. Foi a partir desta comovente história que Deus moveu o coração de líderes cristãos que, em 1804, organizaram a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, iniciativa que foi imitada em muitos outros lugares ao redor do mundo, distribuindo bilhões de exemplares da Bíblia ao redor do globo.

Ó quanto perdemos por não ler a Escritura da Verdade! Quão atrofiada, estéril e árida fica a nossa vida espiritual e o nosso entendimento por não nos debruçarmos sobre ela. Sejamos homens e mulheres do Livro; Paulo disse a Timóteo: “Persiste em ler” (1Tm 4.13) e este é o nosso dever. Quando lemos um livro qualquer, passamos a ver o mundo pelas lentes do autor, quando lemos a Bíblia enxergamos as coisas pela ótica de Deus. Até quando, cristão, irás passar fome diante da mesa do banquete? Até quando permanecerás infrutífero e sem vigor? “Dá de comer ao teu ventre, e enche as tuas entranhas deste rolo” (Ez 3.3)! Agora mesmo, pegue a sua Bíblia e ore como o salmista: “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18). Ao ler as Escrituras, serás transportado para outro mundo – não o mundo encantado das histórias fantasiosas, mas a Realidade Absoluta do Deus que se revela pela Palavra. Amém!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[1] ALMEIDA, Abraão de. A Reforma Protestante. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2015. pg. 21

[2] Op. Cit., p. 43,44

[3] Op. Cit., p. 48.

[4] Op. Cit., p. 134

[5] Op. Cit., p. 135