O passado que persegue




Não há nada mais inquietante e perturbador do que uma consciência sem paz! Muitos cristãos têm sido vítimas dessa amarga experiência; pessoas que tiveram um encontro real com Jesus, confessaram e deixaram os seus pecados, mas constantemente são torturadas por lembranças selvagens que lhes tiram o sossego. É impossível experimentar a vida abundante do Evangelho enquanto estamos presos a esse sentimento de culpa. Quantos que sofrem e desejariam ter uma tecla de “delete” para apagar do computador da sua memória os erros do passado. Não tem paz para dormir, comer ou beber, ir e vir. Não importa onde estejam, estão a todo tempo sendo perseguidos por memórias cruéis que lhes sugam o ânimo. Sob tais condições a alma fica cansada, e os poderes tenebrosos deste mundo atacam com toda força para levar o crente à desistência.

Se você passa por isso, saiba que não é o único. A Bíblia fala de pessoas que padeceram as mesmas dores. A viúva de Sarepta, mesmo após ter priorizado o homem de Deus e confiado na palavra profética, disse a Elias quando o seu filho morreu: “Vieste tu a mim para trazeres à memória a minha iniquidade?” (1Rs 17.18). Embora José tivesse perdoado, beijado e abraçado seus irmãos, o pavor veio sobre eles depois da morte de Jacó, e disseram: “Porventura nos odiará José e certamente nos retribuirá todo o mal que lhe fizemos” (Gn 50.15). Não podemos nos esquecer de Davi: o homem segundo o coração de Deus também carregou esse fardo pesado de culpa. Ele escreveu: “meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51.3), e suplicou: “Não te lembres dos pecados da minha mocidade” (Sl 25.7). Davi não era mais moço, mas a triste lembrança dos pecados da sua juventude o perseguia com fúria. Acredito que muitos de nós podemos nos identificar com situações semelhantes.

Devemos entender que nós, cristãos, por vezes podemos sofrer momentos de dúvidas: seja quanto ao amor e ao perdão de Deus – e consequentemente, quanto à certeza da salvação – ou outros tipos de incertezas; embora muitas pessoas não falem, isso é muito mais comum do que se pensa. Isso ocorre em parte, porque o nosso estado de espírito pode sofrer alterações. Quando estamos alegres, tendemos a confiar mais firmemente na Palavra; já quando estamos abatidos, o nosso coração parece se tornar um solo fértil para nascer todo o tipo de dúvidas. Sabemos por experiência que a alegria dos primeiros dias aos poucos vai se acabando e passamos por conflitos internos que provam a qualidade da nossa fé. Boa parte da nossa maturidade espiritual depende desse tipo de processo e, à medida que o tempo passa, vamos aprendendo a submeter os nossos estados inconstantes de humor à inalterável Palavra de Deus. No entanto, há muitos irmãos que, mesmo com o passar do tempo, ainda não conseguiram desenvolver uma certeza mais sólida – e acabam sofrendo muito.

Além das mudanças de humores, a Bíblia afirma que temos um acusador que não descansa – dia e noite está realçando as nossas falhas diante de Deus. Além disso, o nosso inimigo lança dardos inflamados contra a nossa mente para tentar nos fazer acreditar em suas palavras. É certo que o diabo nem sempre está mentindo ao nosso respeito. Quando ele afirma que somos grandes pecadores está dizendo a mais pura verdade, embora seja o pai da mentira. Mas quando ele diz que Deus não nos ama por causa do que fizemos, ou que não há mais esperança para nós, devemos questionar: “já que não há mais esperança para minha alma, por que o diabo está se incomodando com a minha pessoa?”. As próprias tentativas de satanás nos mostram que nem tudo está perdido. Afinal de contas, ninguém fica por aí tentando matar um defunto.

Em alguns casos, também somos acusados por pessoas que estão a nossa volta. Muitos irmãos sofrem acusações de parentes, amigos ou vizinhos que, muitas vezes, dizem: “depois que aprontou, agora está se escondendo atrás da Bíblia”. Bem, essa afirmação não está completamente destituída de verdade. A própria Bíblia afirma que a nossa vida “está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3.3). De fato, estamos nos escondendo em Jesus – e não há outra maneira de escaparmos da eterna perdição a não ser que nos abriguemos debaixo das Suas asas. Quando Deus colocou o Seu povo na Terra Prometida, ordenou que algumas cidades fossem indicadas como cidades de refúgio para abrigar aqueles que cometiam homicídio por engano (Js 20). Estando naquelas cidades, o homicida estava seguro e o vingador não poderia mata-lo. Assim também Cristo é a nossa Cidade de Refúgio – e quando o pecador corre para Ele está em plena segurança. Nem mesmo o próprio Deus pode destruir o pecador que se refugia em Jesus. “Quem crê nele não é condenado […], aquele que crê no Filho tem a vida eterna (Jo 3.18,36)”. Estávamos perdidos, e debaixo da Ira, mas “agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). O maior problema do pecador é com Deus. Pecamos contra Deus, violamos a Lei de Deus e estávamos debaixo da Ira de Deus. Porém, escondidos em Jesus, a ira de Deus não tem mais efeito contra nós: o Alto Preço foi pago e toda a nossa culpa foi removida, não estamos mais em dívidas com Deus! Sendo assim, concordamos com o fato de que estamos nos escondendo atrás do que a Bíblia diz: Só há salvação em Jesus.

A única maneira de termos descanso em nosso coração é crendo na suficiência do Sangue de Jesus. Enquanto estivermos tentando alcançar a paz por meio de nossa performance estaremos em apuros. Nunca seremos crentes o suficiente, sempre estaremos aquém do padrão exigido por Deus. Mas o Sangue de Jesus é suficiente! Quando confessamos os nossos pecados, Ele não só perdoa, mas também nos purifica (1Jo 1.9). Nunca teremos um estado constante de espírito; o diabo nunca vai parar de nos acusar e as pessoas sempre irão apontar os nossos erros, mas devemos lembrar que o nosso passado de trevas não possui mais nenhum poder contra nós. E ainda que você tenha falhado grandemente mesmo após a sua conversão, o Senhor é um Deus de renovo. Levante a cabeça, cristão! O seu Redentor é forte! Você está coberto pelo manto de Sangue. “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e o que também intercede por nós” (Rm 8.33,34)! No Antigo Pacto, o sumo sacerdote oferecia dons e sacrifícios que não podiam aperfeiçoá-lo quanto à consciência, mas o sangue de Cristo tem o poder de purificar a nossa consciência das obras mortas para que sirvamos ao Senhor com alegria (Hb 9.7-14). Devemos ainda nos lembrar que vivemos em uma congregação de santos – e é remédio para a alma confessar as nossas culpas uns aos outros. Fazendo isto, nós podemos ouvir de crentes maduros e sinceros palavras que fortaleçam o nosso coração e que nos ajudam a ter a paz de espírito restaurada. Como escreveu Tiago: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados” (Tg 5.16). Descanse no amor eterno de Jesus, a redenção conquistada no Calvário é a nossa garantia perfeita e completa. Por que carregar esse fardo pesado se o seu Salvador já fez isso por você?

Em Cristo,
Gabriel Oliveira