O padrão de Esdras




O púlpito é um lugar que atrai muitos olhares. Não pela seriedade que ele representa, mas pelo status que ele promove. Em grande parte dos casos daqueles que desejam o ministério da pregação, a questão não é a responsabilidade, e sim a visibilidade. Muitos querem expor seus talentos e não a Palavra, querem pregar a si mesmos e não a Cristo.

Quando o assunto é pregar/ensinar a Palavra, Esdras é uma personagem bíblica de destaque. Ao retornar do exílio, este escriba dedicou-se a ensinar aos repatriados de Israel a lei de Deus, e a Bíblia dá o seguinte testemunho ao seu respeito: “Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a Lei do SENHOR e para cumpri-la e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos” (Ed 7.10 – ênfase acrescentada). Aqui encontramos um modelo que podemos denominar como “O Padrão de Esdras”: ele buscou, cumpriu e ensinou a lei. Com base nisso, podemos resumir este padrão em três palavras: aprender, obedecer e ensinar. Consideremos um pouco mais esta questão.

Esdras buscou a lei do Senhor

O primeiro elemento do “Padrão de Esdras” é o aprendizado. A Escritura afirma que ele preparou o seu coração para buscar – isto é, aprender – a lei do Senhor. Aquele que ensina a Palavra, se quiser ser bem-sucedido, deverá primeiro aprendê-la. Há muita superficialidade nos púlpitos porque há muitos que ensinam sem nada aprender – e dão à igreja do vazio que eles têm em si mesmos; não estão aptos para ensinar. Uma pregação nutritiva é antecedida de bastante preparo.

Erros teológicos gravíssimos – e até mesmo heresias – podem ser ditos no púlpito por falta de preparo. A pregação deve ser irmã da diligência, e aquele que ministra a Palavra deve ser zeloso na busca pelo conhecimento da mesma. Embora ninguém sabe – e nem saberá – tudo, aquele que ministra deve conhecer e estar seguro ao menos do básico – e procurar dia após dia se aprofundar mais na Palavra. O autor da epístola aos Hebreus admoestou aqueles irmãos por não poder escrevê-los a respeito de coisas mais profundas sobre Deus. Apesar do tempo decorrido, eles ainda estavam presos aos rudimentos da doutrina cristã, ao ABC da fé (Hb 5.12). O nosso tempo revela uma tragédia ainda maior: o que se exigia da igreja naquela época não é exigido dos ministros da igreja de hoje! O povo do Senhor tem passado fome por causa dos sermões fast-food preparados de última hora. Deus pode dar uma mensagem pouco antes de subirmos ao púlpito? É claro que sim! Deus pode mudar o curso do esboço do pregador? Ele é Deus! Pregadores podem pregar sem esboço? Com toda certeza, desde que gozem de boa memória e estejam a tal ponto saturados com a Palavra que nem precisem anotá-la!

Timóteo conhecia as Escrituras desde a sua meninice, mas Paulo ordenou que ele persistisse em ler (2Tm 3.15; 1Tm 3.13). O próprio Paulo, homem de grande erudição e profundidade espiritual, recebeu revelações poderosas de Deus, foi o maior escritor do Novo Testamento e, no final da sua vida, quando já tinha combatido o bom combate e completado a carreira, disse a Timóteo: “Quando vieres, traze […] os livros, principalmente os pergaminhos” (2Tm 4.13). Paulo estava preso e não estava pensando em conforto, mas sim em como aprender mais de Deus por meio do estudo da Sua Palavra. Quanto zelo, quanta dedicação, quanto compromisso! Mas isto levanta um questionamento: se Paulo havia terminado sua carreira, por qual razão deveria permanecer estudando as Escrituras? A resposta é simples: nunca conheceremos Deus em Sua plenitude, e um ministro de verdade é um eterno aprendiz. Se Paulo assim fazia mesmo terminada sua tarefa, como muitos ousam encarar tamanha responsabilidade de pregar sem ao menos pegar na Bíblia para ler?

Esdras cumpriu a lei do Senhor

O segundo elemento do “Padrão de Esdras” é a obediência. Ele não somente aprendeu a lei, mas a praticou. Há ministros cheios de conhecimento, mas sua teologia é apenas mental e não prática. Aqui corremos um grande perigo, do qual Watchman Nee abordou de forma cirúrgica: “quanto mais profunda a verdade, mais facilmente ela se transforma em teoria[i] (NEE, 2001). Deus não deseja nos dar apenas mentes brilhantes, Ele quer que tenhamos vidas que irradiem a luz da Sua Palavra. Mentes grandiosas devem nos levar a ter vidas grandiosas. Assim como a água parada reúne sujeira, teologia que não escorre para a vida prática acumula pecados em nossas vidas.

Hoje muito do que se vê no púlpito não pode ser chamado de pregação, como disse E. M. Bounds: “a pregação não é algo que se faz durante uma hora. É o que naturalmente flui de uma vida […] O sermão verdadeiro é uma coisa da vida. O sermão desenvolve-se porque o homem se desenvolve. O sermão é vigoroso porque o homem é vigoroso. O sermão é santo porque o homem é santo. O sermão tem unção plena porque o homem está pleno da unção divina”[i] (BOUNDS, 2010). Considerando esta citação deste importante ministro metodista, é plausível estabelecer um fato: há muitos paroleiros e poucos pregadores nos púlpitos hoje.

A palavra “paroleiro” – ou tagarela (“spermologos” no grego) – tem o sentido de “apanhador de sementes”, como alguém que apanha uma ideia aqui e acolá e constrói uma opinião rasa e carente de solidez. Essa palavra foi usada pelos filósofos epicureus e estóicos para se referir a Paulo quando este anunciou em Cristo a ressurreição dos mortos no Areópago (At 17.18) – pois os gregos não criam em ressurreição. Embora esta palavra não poderia ser aplicada a um homem da envergadura do apóstolo, ela se encaixa perfeitamente no perfil de muitos “pregadores” modernos. Escrevendo a respeito de sua própria conduta a Timóteo, disse Paulo: “Tu, porém, tens seguido de perto a minha doutrina, modo de viver [e] intenção” (2Tm 3.10). Havia neste homem uma convergência entre ortodoxia, ortopraxia e motivação, isto é: Paulo pregava o que era certo e vivia de acordo com o que pregava, fazendo isso com a pura intenção de agradar a Deus. Ele era doutor dos gentios na fé – conjunto de crenças cristãs – e na verdade – prática das crenças cristãs (1Tm 2.7). Paulo era um verdadeiro pregador e não um mero falador (paroleiro).

Precisamos refrescar a memória para o fato de que Deus julgará cada um conforme o conhecimento que possui. Isto equivale a dizer que, quanto mais você conhece e não obedece, mais grave será a sua sentença no juízo divino. Do que adianta ensinar aos outros e não ensinar a nós mesmos? “Assim falai, e assim procedei” diz a Escritura (Tg 2.12). Antes de ensinar alguém, devemos ser professores da nossa própria alma. Paulo disse a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1Tm 4.16). Aquele que prega a Palavra mas não vive, pode até ganhar o mundo, mas perderá a sua própria alma. Falar é fácil, viver o que se fala é difícil; e se a Bíblia condena o que ouve a Palavra e não a pratica, qual será o fim daquele que prega mas não vive o que diz?

Esdras ensinou a lei do Senhor

O terceiro e último elemento do “Padrão de Esdras” é o ensino. Uma vez que aprendemos e exercitamos a nós mesmos na piedade, poderemos ensinar a Palavra. Não devemos guardar esta imensa benção para nós mesmos, mas devemos compartilhar para que outros também sejam abençoados. A Igreja Primitiva permanecia na doutrina ensinada pelos apóstolos (At 2.42), os apóstolos se dedicaram ao ministério da oração e da Palavra (At 6.4), o livro de Atos ainda registra que eles estavam “todos os dias, no templo e nas casas, [e] não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo”. O nosso próprio Senhor e salvador Jesus “percorria […] todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 9.35). Note que ensino e pregação são citados antes das curas, seria isto mera coincidência? É bem provável que não, pois nada adiantará curar o nosso povo e privá-lo da maior benção: a Palavra, a única que pode curar a doença da alma – o pecado. Somos melhores do que Jesus para não nos dedicarmos ao ensino da Bíblia ao nosso povo? Se o nosso Senhor deu grande ênfase ao ensino em Seu ministério, quem somos nós para pensar que este é um assunto de segunda ordem?

Que o Espírito Santo nos desperte para um aprofundamento nas Santas Escrituras, até que sinceramente digamos como o salmista: “Para mim vale mais a lei que procede da tua boca do que milhares de ouro ou de prata” (Sl 119.72). Contudo não nos esqueçamos que antes de ensinarmos é necessário primeiro nos apropriarmos das verdades bíblicas para nós mesmos: “Deus concede a verdade para nos libertar, e não para apontarmos os erros de outros”[i] (NEE). Aprendendo e obedecendo, estaremos aptos para ensinar a outros. Se seguirmos este padrão estabelecido pelo próprio Deus em Sua Palavra, colheremos as bênçãos prometidas em Sua Palavra. Amém.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[i] NEE, Watchman. O Homem Espiritual. Belo Horizonte, MG: Editora Betânia, 2001. pg.21


[ii] BOUNDS, E.M. Poder pela Oração. São Paulo, SP: Editora Vida, 2010. pg.9.


[iii] NEE, Watchman. O Homem Espiritual. Belo Horizonte, MG: Editora Betânia, 2001. pg.21.