O fardo do privilégio




No Reino de Deus, toda prerrogativa está acompanhada de um fardo. Guarde em sua mente esta verdade básica: quanto maior for o privilégio, maior deverá será a responsabilidade. Estar em uma posição elevada não nos dá a permissão de levar as coisas do nosso jeito. Esse padrão foi estabelecido pelo próprio Deus, e não há nada mais justo. O Senhor Jesus disse: “a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá” (Lc 12.48).

Israel se constitui para nós como uma prova inequívoca a respeito deste tema. Não há nação no mundo que tenha recebido mais vantagens do que a judaica. O propósito do Senhor para Israel, desde o início, era que fosse uma nação-testemunha para todos os outros povos da Terra, a fim de trazer a revelação do único Deus verdadeiro ao mundo. Quando estavam no Egito, Deus disse: “Israel é meu filho, o meu primogênito” (Êx 4.22). A primogenitura naquele tempo implicava em vários direitos. O filho que abria a madre da sua mãe recebia a porção dobrada da herança (Dt 21.17) e o direito de ser o chefe da família. Jacó quando abençoou os seus filhos já no fim de sua vida, e abençoou primeiro a Rúben por ser o primogênito. A ele, Jacó disse: “Rúben, tu és o meu primogênito, minha força e o princípio de meu vigor, o mais excelente em alteza e o mais excelente em poder” (Gn 49.3). Ao lermos estas palavras, vemos como a primogenitura era algo de imenso valor na cultura daquele tempo. Rúben estava em uma posição privilegiada; no entanto, Jacó complementou: “não serás o mais excelente” (Gn 49.4). Por que Jacó disse isto? Rúben havia se deitado com Bila, uma das concubinas de seu pai. Essa atitude resultou em tragédias para ele no final, pois a consequência da sua desobediência foi a perda dos seus privilégios. Deus o havia dado o direito de ser chefe de toda a casa de Jacó, mas toda sua dignidade se foi por causa do seu pecado. A história de Rúben, assim como a de Esaú, nos mostra que não basta ser o primogênito: deve-se viver de acordo com o que a primogenitura demanda para se herdar a bênção. Portanto, quando Deus chama Israel de “meu primogênito”, eles sabiam muito bem o que isto significava à luz da própria história dos seus antepassados: privilégio e responsabilidade.

Porém, as prerrogativas da nação judaica não param por aí. O apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, pontuou alguns desses privilégios. O registro bíblico diz: “[…] são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais […]” (Rm 9.4,5). Vamos analisar cada um destes privilégios de forma pormenorizada:

  • São israelitas: este é o nome religioso dos judeus, que sela sua identidade como o povo que recebeu a revelação divina;
  • Adoção: isto não significa que todo judeu é automaticamente salvo por ser descendente de Abraão, e sim que Deus adotou o povo judeu como seu filho primogênito (Êx 4.22);
  • A glória: aqui se refere à “Shekhinah”, a glória presente e manifesta de Deus. Esta glória foi claramente visível no deserto, no tabernáculo e no templo;
  • As alianças: Deus fez aliança com Abraão, pai do povo judeu; com Moisés, que também era judeu, e até a Nova Aliança visava o povo judeu, embora esta última se estendesse para muito além dos termos da comunidade israelita, alcançando a nós gentios;
  • A Lei: no monte Sinai, Deus desceu e escreveu com Seu próprio dedo a Lei nas tábuas de pedra que o próprio Senhor havia esculpido (Êx 32.15,16);
  • O culto: esta expressão se refere ao culto no templo. Deus colocou o Seu nome no Templo que Salomão havia edificado. Os judeus no tempo de Jeremias até pensavam que este local de adoração pudesse livrá-los do juízo divino através dos babilônios, tal era o apego deles quanto àquele local (Jr 7.1-4).
  • As promessas: seria difícil enumerar aqui as tantas promessas de Deus a Israel. Mas, dentre elas, estão: promessas de redenção, restauração espiritual e política. O Messias ainda reinará neste mundo com o povo judeu – por um período de mil anos literais.
  • Os pais: aqui Paulo se refere aos patriarcas que fundaram a nação judaica: Abraão, Isaque e Jacó. Estes três grandes nomes da história estão entrelaçados ao povo judeu. O próprio nome Israel deriva do encontro de Deus com Jacó (Gn 32.22-28).

Como se tudo isso ainda fosse pouco, os privilégios dos judeus chegam ao ápice na Pessoa de Cristo, pois Paulo diz: “ dos quais é Cristo segundo a carne” (Rm 9.5). As meticulosas genealogias que encontramos nas Escrituras não estão ali apenas para preencher páginas e fazer volume, elas nos mostram de forma clara que Jesus, o Filho de Deus, é de ascendência judaica no tocante a Sua humanidade. Não importa o quanto o mundo odeie a Israel, isto não altera o fato: “a salvação vem dos judeus” (Jo 4.22). Mas quando olhamos para a História de Israel, vemos uma história de sangue, dor e sofrimento (apesar de todas as bênçãos). Este povo tão privilegiado sofreu inúmeras atrocidades dos impérios assírio, babilônico, medo-persa, grego e romano ao longo dos tempos. Foram levados para o cativeiro, dispersados da sua terra por todo o mundo, e mortos aos milhões pelo Holocausto. E por que isso aconteceu? O Senhor responde: “o meu povo não quis ouvir a minha voz, e Israel não me quis” (Sl 81.11). Israel queria os privilégios, mas não queria o Senhor que concede os privilégios; queriam as prerrogativas sem obedecer ao que elas exigiam. Todo o mal que sobreveio a este povo se resume neste epítome: “Israel não me quis”.

Infelizmente, muitas pessoas confundem privilégio com a possibilidade de fazer as coisas do seu jeito, quando, na verdade, é o inverso. Quanto mais Deus dá ao homem, tanto mais exigirá dele. A Bíblia afirma que o Evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego [gentio]” (Rm 1.16); mas também diz que Deus trará juízo, tribulação e angústia sobre a vida do homem que faz o mal, “primeiramente do judeu e também do grego” (Rm 2.9). O judeu é o primeiro a receber, e também será o primeiro a ser cobrado; o primeiro a ser salvo e o primeiro a ser condenado.

Deus não irá julgar um membro da mesma forma que julgará um pastor. Embora um não seja maior que o outro, o pastor é alguém que recebeu mais; ele foi duplamente separado por Deus, para a salvação e o santo ministério. Deus o julgará de forma compatível com a sua posição. Paulo disse que aquele que almeja o episcopado, excelente obra deseja (1 Tm 3.1-7). A seguir, ele enumera uma série de obrigações que o aspirante necessita responsabilizar. Tiago, o irmão do Senhor, advertiu: “Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo” (Tg 3.1 – ênfase acrescentada). Quanto mais alto você estiver, melhor e mais bela será a sua visão; porém, a sua queda pode ser maior. Uma grande posição pode ser uma grande oportunidade ou uma grande tragédia: o que definirá é a nossa atitude – se vamos ou não ser responsáveis. Nada disto é para nos deixar com medo, mas sim, para nos conscientizar. Deus deseja nos dar mais e mais. Ele quer nos levar o mais longe que pudermos ir ainda nesta vida; mas isso não é fácil. O dever pavimenta o caminho do privilégio.

Isso não se confina apenas aos limites das questões eclesiásticas: esta lição é aplicável a outras facetas da vida. Tomemos como exemplo um homem casado: ele tem mais obrigações que um solteiro. Embora o solteiro possua o dever de honrar os seus pais, ele não tem ninguém sob os seus comandos; já um pai de família não é assim. Se o casado viver como um solteiro, logo verá o seu casamento se tornar cinzas. Um homem não pode conduzir uma família mantendo apenas os deveres de um inupto; eles não conseguem satisfazer a demanda que o seu estado requer. É maravilhoso ter uma esposa e filhos; porém, Deus deu ao cabeça do lar um privilégio que pode lhe custar a própria vida! Ele deve amar a sua esposa como Cristo amou a Igreja, sacrificando a Si próprio, dando o Seu próprio sangue por ela. Casamento custa caro, filhos custam caro. Não é apenas colocar uma aliança no dedo, não se trata meramente de colocar outras pessoas no mundo. Você terá mais, e ao mesmo tempo, terá menos. Menos tempo para você, menos dinheiro para gastar com você, menos “liberdade” e tantas outras coisas. O privilégio é grandioso, mas a responsabilidade é imensurável. A prestação de contas acompanha as prerrogativas. As responsabilidades aumentam à medida que as vantagens aumentam também; o crescimento de ambos é proporcional.

Entretanto, não podemos nos esquecer de que Deus não é injusto. Ele aumenta a carga, mas nos concede mais graça e mais força para carregá-la. O Senhor nos dá tudo o que é necessário para executarmos aquilo que por Ele foi estabelecido. Antes dos reis de Israel subirem ao trono, recebiam a unção; antes dos apóstolos irem evangelizar, receberam poder. Não fique com medo: no Reino de Deus, a responsabilidade acompanha o privilégio, e a graça acompanha a responsabilidade.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. O fardo do privilégio. Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].