O Deus que vê




Facilmente podemos nutrir um sentimento de desamparo divino em meio a dor. “Por que estás ao longe, SENHOR? Por que te escondes no dia da angústia? (Sl 10.1). Estas são palavras de um salmista, e retratam muito bem o que sentimos quando nos vemos em aperto. Alguns se sentem esquecidos, abandonados, há até quem chegue a pensar não ser amado por Deus, pois se fosse, não estaria passando por tanto sofrimento. Porém, o nosso sofrimento não é a medida do amor de Deus por nós, e sim o sofrimento de Cristo na Cruz.

Nossos sentimentos não definem a realidade dos fatos. A Bíblia nos mostra que Deus está bem perto apesar de nem sempre sentirmos Sua presença. Assim como as nuvens tapam o sol quando o tempo se fecha, o sofrimento encobre de nós o rosto de Deus. O sol está lá no mesmo lugar trazendo luz e calor, mas nós não o vemos; Deus também está no mesmo lugar, ao nosso lado, sustentando-nos com a Sua graça, mas as “nuvens do sofrer” ofuscam a nossa visão espiritual.

Embora não estejamos “vendo” Deus, não se pode dizer o mesmo dEle; o Senhor contempla atentamente as nossas aflições. Quando Deus levantou Moisés como libertador do povo hebreu do jugo egípcio, disse à ele: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo que está no Egito” (Êx 3.7). A expressão “atentamente” ressalta o zelo de Deus por Israel. Nada do que os egípcios estavam fazendo escapava ao olhar divino, e todo o sofrimento do povo era observado minunciosamente.

O irmão Valter Pedro dos Santos, em seu livro O Tempo de Deus, conta que enquanto estava no hospital, lembrou-se de uma experiência com Deus contada por um irmão a ele alguns meses antes do seu internamento, ele relata:

 “Esse irmão contou-me que há cerca de 12 anos passou por um momento muito grave em sua vida. Com uma família numerosa e ganhando um salário muito pequeno, acabou acumulando dívidas que lhe tiravam o sono e toda a tranquilidade.

Um dia, ao amanhecer, ele ficou um pouco mais na cama, desanimado completamente de levantar-se e enfrentar os seus problemas. Começou então a pensar em acabar com a vida.

Havia muito tempo ele encontrava-se afastado da igreja e do convívio com os irmãos, fraco espiritualmente, ficou imaginando naquela manhã, qual meio mais fácil de cometer o suicídio. Algo que lhe proporcionasse a morte rápida e sem muito sofrimento. Depois de um certo tempo com esses pensamentos, foi tomado de angústia e desespero.

Então algo novo aconteceu. Bem perto da janela de seu quarto havia uma grande árvore e um dos galhos chegava a tocar a vidraça. Nesse galho pousou um bem-te-vi, que ficou cantando insistentemente para dentro do quarto.

Ao ouvir aquele canto, ele emocionou-se profundamente e começou a chorar. Sentiu que no canto do pássaro havia um recado de Deus dizendo-lhe ‘bem-te-vi’. Então Deus o estava vendo! O Senhor que criou os pássaros e a natureza inteira!

Animado pelo canto do bem-te-vi, levantou-se depressa e orou, agradecendo a Deus pela mensagem tão diferente que ouvira. A partir daquele momento, sentiu-se com mais coragem para encarar de frente a situação. Dias depois conseguiu um trabalho extra que lhe facilitou saldar boa parte das dívidas”[i] (SANTOS, 1999).

Que vibrante testemunho! Aquele irmão pensava que Deus o havia abandonado, mas o Senhor enviou em sua janela um bem-te-vi para dizer: “Eu estou te vendo”! Deus não é visível aos nossos olhos, mas toda a nossa situação presente está nua perante Ele. Não há ponto-cego para Deus, nada do que enfrentamos foge do campo visual dAquele que contempla atentamente nossas dores.  

Quando Agar fugiu da face de Sarai – sua senhora – para o deserto, o SENHOR a encontrou junto a uma fonte de água e falou com ela. Depois de receber promessas de Deus quanto ao filho que nasceria do seu vente, Agar disse: “Tu és o Deus que me vê” (Gn 16.13). Ela fugiu da face de Sarai, mas não poderia fugir da face do Senhor.

Ao tratar do problema de Agar com Abrão, Sarai disse: “Meu agravo seja sobre ti; minha serva pus em teu regaço; vendo ela agora que concebeu, sou menosprezada aos seus olhos; o SENHOR julgue entre mim e ti” (Gn 16.5 – ênfase acrescentada). Vemos aqui que a escrava havia desprezado a sua senhora por ser estéril, o que deixou Sarai sobremaneira indignada. É interessante atentar para a expressão “sou menosprezada aos seus olhos”, pois a resposta de Abrão a Sarai a respeito de Agar foi: “Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos” (Gn 16.6 – ênfase acrescentada). O relato bíblico mostra-nos que Sarai “deu o troco”, pois afligiu sua serva a ponto de fazê-la fugir. Agar olhou com desprezo para Sarai, que por sua vez olhou com desprezo para Agar; e é nesta história de olhares sem compaixão que a Bíblia nos mostra o olhar misericordioso de Deus para com uma escrava fugitiva, sobretudo, grávida em um deserto: lugar de solidão e escassez.

Deus viu Israel no Egito e viu a fugitiva Agar. Ambos eram escravos, mas embora fossem desprezados pelos homens, os olhos do Senhor estavam fitos neles para conceder Sua bênção. Não pense que Deus não está vendo sua aflição ou que você é pequeno demais para que Ele se importe com você. Na verdade somos pequenos sim, e diante dEle não somos nada; mas o amor de Deus é grande, e nem mesmo um escravo escapa do Seu olhar de compaixão. Para Ele não há diferença entre escravo e livre, todos são objetos do Seu favor imerecido.

Anima o seu coração, você não está vendo, mas Deus te vê. Ele não está longe, pelo contrário, “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade (Sl 145.18). Israel estava sendo afligido, Agar também, o irmão relatado por Valter estava endividado e pensando em tirar sua própria vida, e você? Qual é o seu problema? Independente da sua situação creia: esta mensagem é um recado de bem-te-vi que Deus mandou para você!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.


[i] SANTOS, Valter Pedro dos. O tempo de Deus: Pode alguém exercer um ministério num leito hospitalar? Rio de Janeiro: CPAD, 1999. págs. 92,93