O Deus que ouve




O sofrimento nos torna filósofos. A cabeça de um homem em estado de padecimento é como um palco onde as perguntas dançam freneticamente. Por quê? Pra quê? Até quando? Estas são indagações comuns em dias angustiosos.

Uma breve porção do livro de Jó certifica esta verdade: “Por que não morri eu desde a madre? […] Por que me receberam os joelhos? E por que os peitos, para que mamasse? […] Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo? (Jó 3.11,12,20 – ênfase acrescentada). “Por quê”, “por quê” e “por quê”; estes são os “por quês” da vida! É natural que alguém deseje colocar para fora a sua dor através das palavras, isto parece trazer um pouco de alívio. Na maioria dos casos, pessoas que sofrem não carecem muito de alguém para lhes falar, e sim de alguém para lhes ouvir. Na situação que Jó se encontrava, ele deixou que suas palavras escoassem, não só diante dos seus amigos, mas diante de Deus: “Por isso não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito; queixar-me-ei na amargura da minha alma. […] A minha alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma. […] Mas eu falarei ao Todo-Poderoso (Jó 7.11; 10.1; 13.3 – ênfase acrescentada). Bildade, seu amigo, chegou a repreendê-lo dizendo: “Até quando falará tais coisas, e as palavras da tua boca serão como um vento impetuoso? ” (Jó 8.2).

Quem poderia mensurar a dor daquele pai que havia sepultado dez filhos de uma vez só, perdido todos os bens e sua própria saúde? Infelizmente os companheiros de Jó fizeram a sua dor aumentar disparando contra ele palavras ferinas. Ele chegou a nomeá-los de “médicos que não valem nada” (Jó 13.4), pois ao invés de passar o bálsamo da consolação, eles o atormentaram com o fel da acusação. Muitas pessoas preferem descrever o que sentem em um diário do que falar com alguém; a razão disso é simples, como afirmou Anne Frank: “Papéis são mais pacientes do que os homens[i] (FRANK, 2018); os amigos de Jó confirmam este fato. Aquele homem sofredor queria que alguém escutasse o pranto da sua alma. Jó chegou a ponto de dizer: “Quem dera que vos calásseis de todo, pois isso seria a vossa sabedoria. […] Calai-vos perante mim, e falarei eu, e venha sobre mim o que vier” (Jó 13.13). A única resposta que Jó queria era a de Deus, mas Deus parecia não escutá-lo.

Será que as nuvens haviam se tornado uma impenetrável barreira de ferro? O céu tinha se transformado em bronze? Por que Jó pensava que Deus não o ouvia? Vemos em toda a narrativa do livro que Deus ficou em silêncio em toda provação de Jó, aparecendo à ele apenas no final. O silêncio divino transmitia a sensação de que Deus não estava ouvindo, quando na verdade Deus só não estava falando. Orações não respondidas não significam que não foram ouvidas. “Aquele que fez o ouvido não ouvirá?” (Sl 94.9). Deus não é como os ídolos, que “têm ouvidos, mas não ouvem” (Sl 115.6), o Senhor está atento ao clamor do nosso coração ainda que não tenha nos respondido. Um dos fatores pelas quais Ele não nos responde é que ainda não chegou o tempo, isso nos machuca, mas é necessário para forjar em nós o caráter de um crente amadurecido.

Quando Elias estava com os profetas de Baal no Monte Carmelo, ordenou que eles invocassem primeiro o seu deus, “e tomaram o bezerro que lhes dera, e o preparam; e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém nem havia voz, nem quem respondesse; e saltavam sobre o altar que tinham feito. E sucedeu que ao meio-dia Elias zombava deles e dizia: Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará. E eles clamavam em altas vozes, e se retalhavam com facas e com lancetas, conforme ao seu costume, até derramarem sangue sobre si. E sucedeu que, passado o meio-dia, profetizaram eles, até a hora de se oferecer o sacrifício da tarde; porém não ouve voz, nem resposta, nem atenção alguma” (1Rs 18.26-29). Os profetas de Baal fizeram um verdadeiro espetáculo religioso, mas Baal não poderia responder ainda que seus profetas gritassem e se cortassem, pois não passava de um ídolo que nada é, apenas uma imagem criada por mãos humanas.

 Não é errado clamar a Deus em alta voz, o cego à beira do caminho gritava pela misericórdia de Jesus, e o próprio Senhor bradou quando redeu o Seu espírito na cruz. Entretanto, Deus não ouve alguém só pelo fato do grito, nem o impostar da voz o surpreende. A Escritura afirma claramente que Deus não ouve a gritos vazios (Jó 35.13). Ana só movia os lábios, som nenhum saia de sua boca, mas Deus ouviu o grito velado do coração daquela mulher. O Senhor pode ouvir gritos, mas também ouve sussurros, pensamentos e decifra lágrimas. O que mais importa não é a medida dos decibéis da nossa voz, e sim se as nossas palavras correspondem ao que está em nosso coração. Não é por muito falar (repetir a mesma coisa) – ou gritar – que seremos ouvidos (Mt 6.7).

Quando Agar foi despedida da casa de Abrão, foi errante pelo deserto de Berseba. Ao ver consumida toda a água do odre, colocou seu filho Ismael debaixo de uma árvore e se afastou para não ver a morte do próprio filho. Agar parecia estar desamparada, sua situação era de fato desesperadora. Mas a Bíblia diz: “E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está” (Gn 21.17 – ênfase acrescentada). Aquela mulher não tinha para onde ir, tudo que ela tinha era um pão e um odre de água que agora estava vazio, mas Deus ouviu o clamor do menino Ismael e preparou um poço de água no deserto! Tempos antes, quando ainda estava grávida e fugia de sua senhora Sarai, Agar teve uma experiência com o “Deus que vê” (Gn 16.13), agora, despedida da casa de sua senhora e privada dos recursos necessários para a vida, ela conheceu também o “Deus que ouve”.

Uma das piores sensações que existe é a de falar sem ser ouvido. Quando alguém faz pouco caso do que falamos isto nos constrange. Isto se torna ainda pior quando Deus – aparentemente – não demostra interesse pelo nosso clamor. Fazemos muitas perguntas, mas não há respostas, oramos e choramos, mas…  Será que Deus está usando protetor auditivo? Nada parece comovê-Lo, nada parece mexer o Seu coração petrificado… nada está mais errado a respeito de Deus que este pensamento. Nem todas as orações têm resposta imediata, e nunca aprenderíamos a esperar em Deus se todas as vezes Ele se curvasse a nossa pressa. Israel ficou 430 anos escravizado no Egito, alguém poderia pensar que Deus nem se lembrava mais do que Ele havia prometido a Abraão, mas foi depois deste longo tempo de espera que o Senhor apareceu a Moisés dizendo: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor” (Êx 3.7).

Nossa fé precisa ser como a do cego Bartimeu; ouvindo que Jesus passava no caminho onde ele estava, se pôs a clamar por socorro. “Muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava cada vez mais” (Mc 10.48), até o ponto em que Jesus parou (v.49)! Em momentos de súplica Satanás também quer nos fazer acreditar que Deus não nos ouve, ou que como Baal, Ele está ocupado demais – viajando ou cuidando da administração do Universo – para nos dá o mínimo de atenção, mas quando Jesus vê um coração aflito pedindo Sua misericórdia Ele para.

Você está esperando há muito tempo? O céu parece estar impenetrável quanto às suas orações? Continue clamando! O tempo é o agente de Deus para nos preparar para receber aquilo que Ele deseja nos dar. Precisamos trabalhar a nossa ansiedade para que o nosso coração não seja enfraquecido na espera. Como diz o teólogo Alcides Jucksch: “Sabemos que, depois de termos orado, a situação não é a mesma de antes. Foram ouvidas as súplicas. Quando e como se torna visível o que temos pedido, devemos deixar ao cuidado de Deus[i] (JUCKSCH, 2008). Quando tudo passar você dirá como o salmista: “Mas, na verdade, Deus me ouviu; atendeu à voz da minha oração. Bendito seja Deus, que não rejeitou a minha oração, nem desviou de mim a Sua misericórdia” (Sl 66.19,20). Amém.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[i] FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank. Jandira, SP: Principis, 2018. pg.7

[i] JUCKSCH, Alcides. Apocalipse: em breve deve acontecer. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2008. pg.65