O Deus que age




A indiferença tem se tornado algo comum em nossos dias. Poucos anos atrás quando se falava em um assassinato brutal as pessoas ficavam chocadas, alarmadas, mas hoje não é bem assim. Com a explosão das mídias sociais criou-se o péssimo hábito de registrar tudo. É mais fácil filmar alguém em uma situação que carece de ajuda do que ajudar; é muito mais cômodo registrar uma cena perigosa do que, de alguma maneira, tentar livrar aqueles que estão em risco. Os “heróis” foram substituídos por “filmakers”, e nossas mãos ultimamente só servem para segurar câmeras. O pior de tudo é que não contentamos em ver a dor alheia, nós a registramos e postamos para ganhar “likes”, e assim, transformamos a desgraça do próximo em diversão e entretenimento. Estamos acostumados a ouvir tragédias, a assistir infortúnios e a compartilhar notícias ruins. A tecnologia avançou, os conhecimentos da ciência se multiplicaram, mas a humanidade não fez progresso. Nossa geração se encaixa perfeitamente nas palavras do Senhor Jesus que disse: “Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes” (Mt 11.16,17).

Porém, ao voltar os nossos olhos para a Bíblia, vemos um Deus sensível ao sofrimento humano. A palavra misericórdia significa basicamente que Deus coloca o coração em nossas misérias. Deus não é gélido. Ele não se comporta como alguém que contempla friamente o sofrimento e simplesmente não faz nada. O deísmo ensina que Deus, ou uma força superior criou tudo, mas abandonou o mundo a sua própria sorte, sendo regido apenas pelas leis naturais. O “deus deísta” é distante, e não interfere em nosso mundo, mas isto não é o que a Bíblia ensina.

Os milagres nos mostram que Deus pode, em Sua soberana intervenção, alterar o curso das leis naturais quando quiser. Ele abriu o Mar Vermelho, o Rio Jordão em tempo de cheia se tornou uma estrada para Israel passar. Deus fez a sombra do sol retroceder e ainda parou a rotação da Terra nos dias de Josué. Tudo isso nos mostra que Deus intervém em nosso mundo, na humanidade, e até em nossos próprios registros biográficos contém algo de Sua mão. Ele é Deus nos céus e na Terra.

Quando Israel ficou sob o jugo de escravidão egípcio, Deus falou a Moisés que estava vendo a aflição do povo e que tinha ouvido o seu clamor. Entretanto, Deus não era um mero espectador ou ouvinte. Diante daquela situação o Senhor disse a Moisés: “desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra que mana leite e mel” (Êx 3.8). Deus viu, ouviu, mas também desceu. Isto nos ensina que o Todo-Poderoso não está 24 horas sentado em uma sofá de nuvens assistindo as manchetes do nosso mundo em uma TV celestial de 80 polegadas com qualidade 4K de forma despreocupada; NÃO! Deus desce em favor do Seu povo.

Após sair do Egito Israel peregrinou quarenta anos no deserto, e Deus permaneceu cuidando do Seu povo durante todo aquele período. O profeta Isaias faz uma das declarações mais impressionantes a respeito da bondade de Deus quando diz: “Em toda a angústia deles Ele foi angustiado, e o anjo da Sua presença os salvou; pelo seu amor, e pela Sua compaixão Ele os remiu; e os tomou, e os conduziu todos os dias da antiguidade” (Is 63.9). Deus não é hitleriano, Ele toma as nossas dores para Si e se compadece de nós. A angústia de Israel produziu angústia no coração de Deus, assim também hoje, o “Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). O Senhor não retém a Sua bondade. O amor divino não é algo que existe apenas na categoria das ideias; é uma amor real, um amor que age e que é demonstrado diariamente a nós pelo cuidado de Deus. Paulo afirma que “Deus prova o Seu amor para conosco” (Rm 5.8). Ele fez isso na cruz de Cristo, e também o faz em nosso viver diário, sobretudo nas nossas aflições.

Deus se envolve pessoalmente em nossas lutas, embora os anjos ministrem em favor dos que hão de herdar a salvação (Hb 1.14), a Bíblia mostra claramente que o próprio Deus age em prol do Seu povo “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nEle espera” (Is 64.4). Deus pode enviar anjos para nos livrar, mas no caso do êxodo da nação de Israel o Senhor disse: “desci”. Não era um anjo, era o Senhor dos anjos, o próprio Deus participando de forma benevolente na causa de Israel.

Ainda podemos considerar duas coisas importantes. Primeiro que, tudo o que Deus fez, não tinha nenhuma relação com o mérito de Israel. Não é porque merecemos que Deus desce para nos socorrer, é por Seu amor e misericórdia. Quem é o homem para que Deus se lembre dele (Sl 8.4)? Entretanto, o amor divino é tão grande que Deus não nos esquece. Não porque somos grandes, mas porque o amor de Deus é grande, e por isso Ele deve ser glorificado.

A segunda coisa que devemos considerar é que Deus não começou a agir quando Ele disse: “desci”. Uma breve retrospectiva no texto bíblico nos mostrará que quanto mais os egípcios afligiam a Israel, tanto mais o povo se multiplicava (Êx 1.12). Antes de Deus descer, Ele já estava agindo, fazendo com que a nação de Israel se tornasse um grande povo como Ele mesmo havia prometido a Abraão. O ponto aqui é que o povo não via, mas Deus estava trabalhando. Muitas vezes o agir de Deus é invisível. Não conseguimos perceber com os olhos naturais aquilo que Ele está fazendo, mas isto não quer dizer que Ele não esteja fazendo nada. Precisamos compreender que ainda que algumas coisas não vieram à tona no palco da nossa vida, os bastidores de Deus seguem em franco andamento. Na Eternidade Deus planejou a nossa história, e agora, no tempo e no espaço, Deus está levando a cabo o Seu plano eterno à medida que obedecemos à Sua vontade. Estejamos certos de que Deus nos vê, Deus nos ouve, e sobretudo: Ele age por nós. Pois “a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar” (Is 59.1). Podemos dizer, em certo sentido que, Deus não se importa de sujar as mãos conosco, Ele “põe a mão na massa” e realiza coisas maravilhosas.

Diante de todos estes textos bíblicos só nos resta crer. Quando o centurião de Cafarnaum foi até Jesus rogando pelo seu criado, o Mestre não hesitou em dizer: “Eu irei, e lhe darei saúde” (Mt 8.7). O centurião reconheceu a sua indignidade e pediu ao Senhor apenas uma palavra, e esta foi suficiente. Mas não se pode negar que, a disposição de Jesus em se deslocar e ir até ao rapaz para curá-lo, é algo que nos deixa boquiabertos. Por isso não duvidemos, vamos ao Senhor em oração com inteira certeza de fé, Deus está disposto a “descer”; pela fé, ainda podemos ouvir a voz do Meigo Nazareno dizendo: “Eu irei”.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira