O céu é aqui?




Abra o YouTube e rapidamente você será assediado por propagandas que prometem riqueza. As receitas são do tipo “como conquistei o meu primeiro milhão antes dos 30 anos”, ou “destrave a mentalidade milionária”, e coisas do gênero. Todo esse marketing digital apela para a ganância das pessoas induzindo-as a pensar que a melhor coisa que pode acontecer a um ser humano é ficar rico. Não são poucos os que têm comprado essa ideia do dinheiro rápido; afinal, quem não quer se aposentar cedo, se tornar patrão e viver “o sonho americano”?

O pior de tudo é que muitas igrejas evangélicas trocaram o Evangelho por esse tipo de propaganda, e ao invés das pessoas virem ao cultos para conhecer a Cristo, elas estão à procura de realização pessoal aqui e agora. O “Evangelho da Prosperidade” e o “Evangelho do Coaching” são os grandes responsáveis em nosso tempo para promover esse tipo de ensino; muito embora eles tenham a sua ênfase particular, o pano de fundo é o mesmo: uma vida melhor aqui neste mundo. Em termos mais populares podemos dizer que “o cão é o mesmo, só muda a coleira”. As pessoas “compram” literalmente estas ideias, e quem fica milionário na verdade é quem vende e não quem compra. Pouquíssimos casos “dão certo”, e na atual realidade do nosso país, o número de desempregados está na casa dos milhões, e nem todo mudo pode pagar por esse tão “maravilhoso investimento”.

Ter uma vida melhor é pecado? Não. Ter muito dinheiro é pecado? Também não. Abraão e Jó eram riquíssimos, Lucas fala de muitas mulheres que serviram a Jesus com os seus bens. O grande problema é que tanto a Teologia da Prosperidade como a do Coaching não tem Deus como finalidade; Deus é “usado” apenas como meio para satisfazer os objetivos carnais das pessoas. 

Os comerciantes da fé prometem um “céu na terra”. Uma vida isenta de dificuldades, provações e privações, em que as coisas nunca vão de mal a pior, senão de bem a melhor. Embora Deus nos abençoe muito, e a vida com Cristo pode ser melhor, essa não é a regra. Há pessoas que são abandonadas pela família quando vem para Cristo, que perdem o emprego; e o que diremos do incalculável número de mártires que morreram por causa da sua fé? Quando olhamos tudo isso pelos óculos da perspectiva terrestre parece que ser cristão não é uma escolha muito inteligente.

No entanto esta visão não pesa o fato de que Deus está conosco em todas as circunstâncias e não considera a sabedoria divina em usar o sofrimento para o nosso bem. Além disso, ela falha terrivelmente em perceber que estamos só de passagem aqui neste mundo, e que a vida póstuma é mais importante. Em sua apologia a doutrina da ressurreição, o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Por que estamos nós também a toda hora em perigo? Eu protesto eu cada dia morro, gloriando-me em vós, por Cristo Jesus nosso Senhor. Se, como homem, combati em Éfeso contra as feras, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1Co 15.30-32). O que Paulo nos mostra é que, se o céu é aqui e agora, porque se arriscar em prol da causa de Cristo? Se a nossa finalidade é este mundo a ressurreição dos mortos não serve para nada! E para que esperar pelo Arrebatamento da Igreja se tudo que eu quero já tenho aqui? Se o cristianismo que estamos vivendo não oferece nada melhor que as outras religiões e as propagandas do YouTube, então não precisamos dele!

Diante desta reflexão devemos sinceramente perguntar a nós mesmos: eu tenho pensando no céu? Eu desejo realmente a vida com Cristo além das portas da morte? Será que não estou muito satisfeito com este mundo? Que tal se Jesus demorasse muito para eu viver a vida dos meus sonhos? Essas perguntas sinceras merecem respostas francas, pois elas mostrarão a qualidade do nosso cristianismo. Veja a música cristã moderna, grande parte, aliás, a maior parte do que temos produzido possui um sabor terrenal. São poucos os cânticos que dizem “Da linda pátria estou bem longe”, “Eu avisto uma terra feliz”, e por quê isto? Porque estamos encantados com este mundo, estamos sendo enfeitiçados com a “teologia” dos youtubers milionários. Pegue a sua Bíblia e leia o Sermão da Montanha; marque todas as vezes que Jesus usou a palavra “céu” e você verá o quanto sua Bíblia ficará rabiscada.

As Escrituras dizem que “a nossa cidade está nos céus” (Fp 3.20). O nosso Salvador nos prometeu: “Na casa de meu Pai há muitas moradas […], virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14.2,3). Trabalhe, estude, lute por um futuro melhor, mas não tome isso como seu objetivo final e maior. Você se prepara para viver bem, mas você morrerá bem? Pois será isto que no final das contas irá determinar como será a sua eternidade.

O conselho de Deus para todos nós hoje, é o mesmo dado os crentes de Colossos: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3.1,2 – grifo acrescentado). O texto diz que devemos buscar e pensar nas coisas celestiais. Não limite a sua visão a este mundo apenas, olhe para além do aqui e agora e veja o “ainda-não”, esteja seguro de garantir em Cristo uma verdadeira vida de qualidade que nunca se acabará. Pense no Cristianismo a longo prazo e você verá quem está com a vantagem!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. O céu é aqui? Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].