No passo do gado




Começar bem é bom; terminar bem é melhor ainda. Se você começar bem e terminar mal, terá perdido todo o seu empreendimento; se você começar mal e terminar bem, a caminhada terá valido a pena. Isto é verdadeiro para a vida cristã. A Bíblia nos dá o registro de muitas pessoas que tiveram um começo promissor, mas o seu fim foi uma tragédia. Devemos refletir em cada passo que damos na vida “a longo prazo”. Evangelho não é coisa do momento apenas, mas é para toda vida – na verdade, para toda a Eternidade.

Temos muitas provas empíricas que nos mostram que o início das coisas é fácil; a dificuldade está em concluí-las. É fácil iniciar um relacionamento, difícil é ter um casamento duradouro e sólido; é fácil começar uma faculdade, difícil é estudar com diligência até o fim do percurso e chegar à formatura; é fácil ler a primeira página de um livro, difícil é chegar à última quando a leitura exige de nós maior esforço mental para compreender os argumentos do autor. Assim, também é fácil dar o primeiro passo de fé na jornada com Cristo, difícil é combater o bom combate, completar a carreira e guardar a fé!

A condição espiritual de muitos cristãos é bastante parecida com o ajuntamento dos coríntios para a ceia. Acerca disso, Paulo lhes escreveu: “vos ajuntais, não para melhor; senão para pior” (1Co 11.17). Há pessoas que no início de sua fé crescem de uma forma meteórica; buscam a Deus, passam um bom tempo na oração e na meditação das Escrituras, mas com o passar do tempo passam a experimentar um retrocesso espiritual, e ao invés de melhorar, acabam piorando. Um fenômeno parecido aconteceu com os crentes da Galácia. Paulo reconhecia que eles haviam começado no Espírito (Gl 3.3), no entanto o recuo espiritual daqueles irmãos foi tão rápido quanto o avanço deles, a ponto de deixá-lo em estado de choque. Vejamos nas suas próprias palavras: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho […], estou perplexo a vosso respeito” (Gl 1.6; 4.20). Paulo estava maravilhado, perplexo, de fato, pasmado com aquela situação! Não há como ficar de outra forma quando um crente espiritual se torna carnal.

Ao que nos parece, aqueles irmãos começaram a trajetória cristã a “mil por hora”; podemos dizer que iniciaram “com tudo”, mas por causa do Cristianismo Judaizante que proliferou naquelas igrejas, os crentes estavam estagnados. Paulo chegou a dizer: “corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? ” (Gl 5.7). Não são poucos os que começam correndo, mas logo se “detém no caminho dos pecadores”, e por fim “se assentam na roda dos escarnecedores”. Contudo, Paulo não desiste daqueles irmãos; pelo contrário, como uma mãe ele sente dores de parto pelos seus “filhinhos”, até que Cristo seja formado neles (Gl 4.19). E o seu conselho não é “levantem-se, e voltem a correr”, e sim “andai”, sobretudo, no Espírito (Gl 5.16). Há uma diferença de velocidade entre correr e andar, e partindo desse princípio devemos fazer algumas ponderações. Não adianta correr, acabar se cansando e parar no meio do caminho; é melhor andar em ritmo menos acelerado, mas pisando no chão com firmeza e indo na direção certa. Direção é mais importante que velocidade. Jacó quando encontrou o seu irmão Esaú, estava com um grande grupo onde havia crianças pequenas e muitos animais. Esaú queria que seu irmão o seguisse até a região de Seir, mas a viagem era muito longa, pelo que Jacó disse a Esaú: “Ora, passe o meu senhor diante da face de seu servo; e eu irei como guia pouco a pouco, conforme o passo do gado que está diante da minha face e conforme o passo dos meninos” (Gn 33.14 – ênfase acrescentada). A nossa caminhada também é muito longa e por isso se faz necessário caminhar pouco a pouco, no passo do gado, porém de forma perseverante, como diz o velho ditado “de grão em grão a galinha enche o papo”. Jacó ainda disse: “estes filhos são tenros e […] tenho comigo ovelhas e vacas de leite; se as afadigarem somente um dia, todo o rebanho morrerá” (Gn 33.13). Se Jacó atendesse ao pedido de Esaú, ele teria colocado todas as bênçãos de Deus que havia recebido a perder. A sua atitude sábia nos ensina algo: de que adianta orar uma semana a fio e ficar o resto do ano sem orar? Para que serve ler uma grande porção da Bíblia hoje e não ler nada durante os dias seguintes? Porventura você irá absorver tudo em um só dia? Não é possível viver toda a experiência de uma vida cristã em apenas um dia; é melhor dar um passo de cada vez, como disse Jacó “até que chegue” (Gn 33.14).

Muitos neófitos (novos convertidos), admirados com a solidez espiritual de irmãos maduros, querem ser como eles da noite para o dia e acabam frustrados por não atingirem os mesmos resultados. É necessário cuidado: se você se “estica” além do limite que pode suportar, acabará rompendo e perdendo aquilo que já alcançou em Cristo. Lembre-se: se Jacó percorresse o caminho até Seir em um só dia, todo o rebanho morreria.

Não há nenhuma vantagem em atropelar os processos espirituais. Assim como uma criança que está engatinhando necessita da ajuda do pai e da mãe, devemos reconhecer que no início de nossa fé também precisamos do apoio de cristãos mais experientes, que já trilharam aquele caminho antes de nós e estão em um nível mais avançado. Não seja apressado: pouco a pouco vamos crescendo espiritualmente. Logo mais já não estaremos engatinhando, e sim andando com as nossas próprias pernas – e à medida que nossa estatura espiritual se desenvolve, os passos se tornarão maiores, até nos tornarmos verdadeiros corredores. Todo atleta foi um bebê um dia, e se você quer correr a maratona espiritual, não pode ignorar esta realidade.

Não é sábio correr sem firmeza, talvez está na hora de reduzir o ponteiro do seu “velocímetro espiritual” e começar a andar na mesma cadência do Espírito com os pés firmes no chão. É melhor manter o ritmo – acelerando aos poucos – do que perdê-lo. Que o nosso final não seja como o ajuntamento dos coríntios, e sim como a vida de Jó, pois “abençoou o SENHOR o último estado de Jó, mais do que o primeiro” (Jó 42.12). Amém!

Em Cristo,
Gabriel Oliveira