Ninguém é de ferro!




As pessoas são frágeis, umas mais frágeis que outras, mas todas possuem essa característica comum. Dizer que “homem não chora” é um argumento ardiloso que não pode ser comprovado pelo empirismo humano. Até mesmo David Goggins, considerado um dos homens mais “casca grossa” do mundo na atualidade, chora. A “máquina humana” tem sentimentos, ela funciona à base de vontade, razão e emoção, e se não tiver este último componente, é qualquer coisa, menos uma pessoa. Há pessoas que são mais emotivas, e acabam em maus lençóis por não usarem tanto a “cabeça”. Outros, por sua vez, são mais racionais, suprimem as emoções e se tornam pessoas frias, alguns até glaciais; mas independente se você é um ou outro, ambos os tipos são vítimas do sofrimento. Eu sei que você não gostou dessa palavra; se pudéssemos excluiríamos este termo do nosso vernáculo, mas isso não teria nenhum efeito contra a realidade. O sofrimento é a lanterna que mostra a fragilidade que há em nós. Ele confunde a lógica das mentes mais brilhantes, e abana as nossas emoções mais vibrantes de um lado para outro, como um cão balançando um rato preso em seus dentes, ora nos deixando com vontade de viver, ora com vontade de morrer. Quem é suficientemente forte para estas coisas? A lógica mais rígida se encolhe de medo, e a emoção mais jubilosa chora diante do sofrimento.

Talvez você já tenha ouvido aquele ditado que diz: “ninguém é de ferro”. Isso é uma grande verdade, e não apenas isso, mas uma verdade tão antiga quanto a própria palavra de Deus. Quando Jó justificou as suas queixas diante do seu amigo Elifaz, ele lhe fez a seguinte pergunta: “É porventura a minha força a força da pedra? Ou é de cobre a minha carne? (Jó 6.12). A pedra é dura e robusta, assim como o cobre é um metal muito resistente, comumente usado para confeccionar fios elétricos dada a sua alta capacidade de subsistência. O que Jó está afirmando é que ele não é duro como uma pedra, inflexível, insensível; muito menos que ele tenha a mesma resistência do cobre, sendo capaz de suportar altas doses de aflição. Em outras palavras é como se ele estivesse se apropriando do nosso dito popular e afirmando: “eu não sou de ferro”.

Jó disse isso em um momento de dor extrema. Ele era um “homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal” (Jó 1.1). Ele era tão rico que a Bíblia chega a dizer que “este homem era maior do que todos os do oriente” (Jó 1.3). Possuía sete mil ovelhas, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas, e três mil camelos. Jesus afirmou certa vez que é “mais fácil um camelo entrar pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Lc 18.25), no entanto vemos que Jó apesar de ser muito rico, passaria tranquilamente pelo fundo de uma agulha com seus três mil camelos, tamanha era sua fidelidade ao Senhor. Sobretudo, a sua casa somava dez filhos e ele tinha muitos homens ao seu serviço. De repente, por causa de uma reunião que aconteceu – como diz um certo irmão – nos “bastidores espirituais”, Deus permitiu que o Diabo tocasse em tudo o que Jó possuía. “Tudo quanto ele tem está na tua mão”, disse o Senhor a Satanás (Jó 1.12 – ênfase adicionada). O inimigo de Deus e do Seu povo não pensou duas vezes, logo se pôs a destruir tudo o que Jó tinha: os seus dez filhos, muitos servos, até os seus animais. Ficamos mais atônitos ainda com a segunda parte da provação de Jó; depois de toda a perda que este homem sofreu, Deus permitiu o Diabo ir mais longe ainda. “Disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida” (Jó 2.6 – ênfase adicionada). Será que conseguimos captar toda a intensidade dessas palavras? Um dos homens mais santos que já pisaram nesta terra agora estava entregue por Deus nas mãos de Satanás! O rei Davi afirmou: “caia eu, nas mãos do SENHOR, porque são muitíssimas as suas misericórdias; mas que eu não caia nas mãos dos homens” (1Cr 21.13). Aquele rei de Israel conhecia muito bem a bondade do Senhor, mas por ser um homem de guerra, também conhecia a tamanha crueldade que reside no coração dos homens. Porém, acredite: não há nesse universo um ser mais bruto, selvagem, bárbaro e maligno do que Satanás. Você consegue imaginar um ser humano nas mãos desumanas desse ser sombrio? Se nas mãos dos homens não há compaixão, o que dirá das mãos do Diabo? Deus entregou tudo o que Jó tinha nas mãos do inimigo, depois, entregou o próprio Jó. Sem delongas, “Satanás saiu da presença do SENHOR, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça” (Jó 1.7).

A angústia de Jó era tanta que ele afirmou: “as flechas do Todo-poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim” (Jó 6.4). Embora se achasse em grande sofrimento, Jó não atribuiu ao Diabo o que estava lhe acontecendo; ele tira o inimigo de cena nos mostrando que Deus é soberano até sobre Satanás. Ele estava nas mãos do Diabo só porque Deus o entregou, de outra forma ele não poderia fazer nada contra o servo do Senhor; Deus retirou a cerca da proteção e deixou o inimigo invadir e pisotear o território de um homem fiel. Jó não tinha paz sequer para dormir (Jó 7.4), e em dado momento ele começou a oscilar em suas emoções por causa da grandeza de sua dor; naquele padecimento terrível Jó disse: “os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e acabam-se sem esperança, […] os meus olhos não tornarão a ver o bem”, mas ao mesmo tempo afirmou: “a minha alma escolheria antes a estrangulação; e antes a morte do que a vida. A minha vida abomino” (Jó 7.6,7,15,16). Percebe-se nestas palavras que ele sentia sua vida estar passando muito rápido, mas as suas emoções estão por demais abaladas; ele desejava viver ao mesmo tempo que desejava morrer. Jó não pensou em suicídio, mas expressou uma profunda vontade de não ter nascido, de ter sido um natimorto, e de morrer. O sofrimento é capaz de deixar o homem instável. A luta de Jó foi muito grande; é bem provável que se juntarmos toda a luta de muitos de nós, não pode se comparar ainda com a provação que esse único homem passou.

Há pessoas que estão lendo este artigo que estão passando por momentos muito difíceis em sua vida também. Você está angustiado, diz que não vai suportar e até pergunta a Deus “por que?” ou “pra quê?”, e Deus entende a dor do seu coração desesperado. Jó também fez muitas indagações ao Senhor, é natural queremos entender qual é a causa do nosso sofrer, mas muitas vezes não há causa nenhuma. Nem todo mal que nos sobrevém é consequência do pecado, nem sempre estamos colhendo o que plantamos, a prova disso é que Deus disse a Satanás que o sofrimento de Jó era sem causa (Jó 2.3). Porém, Deus conhece a nossa aflição e se compadece. Os amigos de Jó não entendiam, mas o Senhor sabia da integridade do Seu servo e testemunhou disso.

Qual é a sua dor? Qual o tamanho da sua aflição? Creia nesta palavra: o Senhor te entende. Ele sabe que sua força não é a da pedra, e que sua carne não é de cobre. Ele sabe que você não é de ferro e que tem sentimentos e emoções. “Ele conhece a nossa estrutura, lembra-se que somos pó” (Sl 103.14). Você pode chorar, se entristecer, e até mesmo questionar a Deus. Sim! O Senhor na Sua infinita compaixão não confunde a murmuração com as indagações aflitas e por vezes ousadas dos Seus filhos. Quando Davi disse: “Por que estás longe, SENHOR? Por que te escondes nos tempos de angústia?” (Sl 10.1), Deus sabia muito bem que aquela queixa era o clamor mais profundo de uma alma pedindo pelo alívio divino. O fato de ser um cristão não te torna imune à dor, o próprio apóstolo Paulo disse: “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” (2Co 11.29). Jesus chorou, o Filho eterno de Deus vestiu-se da humanidade frágil, e Mateus registrou: “Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” (Mt 26.36-38). No Getsêmani o Deus Forte profetizado por Isaías experimentou a fraqueza da humanidade em Si mesmo, não foi à toa que Jesus disse aos discípulos ainda naquela ocasião: “a carne é fraca” (Mt 26.41). Jesus, o Homem de Dores, não é indiferente à nossa dor.

O Senhor enviará o socorro no tempo certo. Talvez Ele não responda suas indagações como também não respondeu a Jó. Ele fez muitas perguntas para Deus, e Deus lhe respondeu com mais perguntas ainda, das quais ele não sabia responder a nenhuma. Não fique tentando encontrar respostas para tudo, pois às vezes a resposta de Deus mais pergunta do que responde. Você precisa confiar na sabedoria do Senhor. A provação não é para te destruir, e sim para te edificar; não é para matar a sua fé, e sim para fortalecê-la. O maná só cai do céu se estivermos no deserto, é lá que você vê sair água da rocha. O poder da ressurreição só pode ser experimentado depois de experimentar o poder da morte, a mais doce consolação só pode vir depois da mais amarga aflição; podemos ter grandes experiências com Deus no sofrimento.

Muitas vezes em nossa vida nos sentimos como um grão de areia sendo arrastado de um lado para o outro pelos grandes ventos das aflições, mas vamos sair desta prova mais fortes do que quando entramos. Depois do que Jó passou, ele se tornou melhor do que era e passou a conhecer a Deus de forma mais profunda. Você não está sozinho, parece que você está, e talvez até sinta isso, mas a sua fé não pode se basear em seus sentimentos. Nossas emoções são muitos instáveis para podermos depositar a nossa fé nelas. Baseie a sua fé na rocha inabalável da palavra de Deus que diz: “não te deixarei nem te desampararei” (Js 1.5). Deus vai te sustentar até o final dessa prova, não pare de lutar, como disse Eliú: “Pai meu! Meu desejo é que Jó seja provado até o fim” (Jó 34.36). No final, você vai experimentar uma comunhão mais íntima e uma consolação mais gloriosa. Você vai sair desse fogo mais puro, mais forte, mais crente, mais cheio de Deus, tendo a absoluta certeza que tudo cooperou para o seu bem, até o mal.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. Ninguém é de ferro! Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].