Membro de banco




Muitos crentes ao serem indagados sobre o que fazem na igreja respondem: “sou um membro de banco”. Basicamente, isso significa que tal pessoa vai ao culto, ouve a palavra, recebe as bênçãos de Deus, porém não há engajamento de sua parte em alguma atividade em prol da causa de Cristo. Talvez este crente não parou para pensar que ele está com sérios problemas.

A Bíblia afirma que quando estávamos sem Cristo éramos inúteis; sem dúvida, essa é uma palavra dura, no entanto é uma palavra verdadeira. Observe o que disse o apóstolo Paulo: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis” (Rm 3.12). O pecado fez um estrago muito grande em nós, por isso precisamos ser regenerados a fim de sermos úteis na causa de Deus. Filemom, um cristão abastado que residia em Colossos, tinha um escravo chamado Onésimo. Onésimo significa “útil”, todavia, segundo estudiosos, provavelmente ele roubou ao seu senhor ou havia sido preguiçoso. Em sua rebelião e fuga, Onésimo esbarrou-se com Paulo que lhe apresentou a Cristo. Após ter recebido Jesus como seu salvador, Paulo, fazendo um jogo de palavras, escreveu a Filemom a seu respeito dizendo: “Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões; o qual noutro tempo te foi inútil, mas agora a ti e a mim muito útil” (Fm 10,11). Quando Deus salva um homem é isto que Ele faz: o tira da inutilidade elevando-o a uma posição de serventia.

O que percebemos é que muitos crentes foram removidos de um estado de inutilidade, porém permanecem inúteis. Eles não trazem nenhuma rentabilidade para o Reino de Deus, vivendo muito mais como parasitas espirituais do que membros que operam em auxílio do Corpo. A escolha de não fazer nada no Reino de Deus é a escolha de desperdiçar os recursos providos pelo Senhor para nós. Ele nos salvou, nos deu o Seu Espírito, nos concedeu dons e ainda reveste com poder aqueles que O buscam intensamente. A questão não é a falta de recursos, e sim “o que iremos fazer com tudo isso?”.

É preciso ficar claro para nós que fazer alguma coisa para Deus não implica necessariamente exercer algum ministério público. Para alguns, só existem dois tipos de cristãos na igreja: aqueles que sobem ao púlpito e o resto. É como se o serviço cristão só pudesse ser realizado em uma plataforma onde se é visto por todos. Isso é um crasso engano. O apóstolo Pedro recomendou: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons mordomos da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Atente para a expressão “cada um”; ela significa exatamente o que ela quer dizer: cada crente tem um dom dado por Deus. Pode ser um dom espiritual, ministerial ou de serviço; mas cada um possui uma ferramenta. Agora atente para a expressão “multiforme graça”. Isto quer dizer que a graça de Deus se manifesta de múltiplas formas; uns são a boca de Deus a pregar, ensinar ou aconselhar, outros são o ouvido de Deus oferecendo atenção àqueles que precisam fazer um desabafo, outros, ainda, são as mãos de Deus a prestar socorro aos necessitados. Todo membro do Corpo de Cristo possui uma função.

De uma coisa nós temos certeza: ninguém será salvo por fazer boas obras. Só não podemos esquecer que fomos salvos para praticar boas obras (Ef 2.9,10). Salvação envolve serviço; Deus nos redime para a utilidade. Não queremos insinuar que quanto mais você trabalhar mais alcançará o favor de Deus. Se fosse assim, a salvação seria uma dívida e não uma dádiva de Deus para conosco. Entretanto, a graça que salva é a mesma que nos habilita para o trabalho, como afirmou Paulo: “Por que eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1Co 15. 9,10). Paulo mostra que a salvação pela graça não é um subterfúgio para o ócio; pelo contrário, ele alude à graça de Deus como a causa eficiente de todo o seu trabalho.

Encontramos na Bíblia Deus usando os seus servos a fim de despertar o seu povo para se envolver na causa de Deus no mundo. Quando Israel retornou do exílio, profetas alçaram suas vozes convocando o povo e animando suas mão a fim de edificar o Templo do Senhor que havia sido destruído. No Novo Testamento vemos Paulo dizer para Arquipo: “Atenta para o ministério que recebeste do Senhor, para que o cumpras” (Cl 4.17). Ele escreveu a Timóteo: “Não desprezes o dom que há em ti” (1Tm 4.14), e ainda: “Despertes o dom de Deus que existe em ti” (2Tm 1.6). Um cristão pode se tornar descuidado a ponto de menosprezar seu ministério e seus dons. Necessitamos voltar às Escrituras analisando os textos que nos falam sobre o Tribunal de Cristo. Fazendo isso, veremos claramente que um cristão salvo sofrerá dano pela sua negligência ou preguiça. Cada um tem um dom, e “cada um […] dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14.12). Deus vai requerer das nossas mãos todo o potencial desperdiçado que deveria ser aplicado no Reino de Cristo. O escritor cristão C. S. Lovett disse: “Os crentes lavados pelo sangue estarão imaculados à vista de Deus, mas nem todos terão o mesmo registro de serviço” (O Tribunal de Cristo; CPAD; pg.55. Rick C. Howard). Deus investiu em nós para que investíssemos em Seu Reino. O crente que não trabalha para Deus, dá trabalho para Deus e para o Corpo de Cristo, se tornando alguém que apenas recebe, mas nada dá.

Ademais, deve-se lembrar que nem tudo é uma questão de capacidade. Há muitos que possuem habilidades incríveis; porém, nenhum interesse de se colocar à disposição de Deus. Deus conta com o homem disponível. Neemias era copeiro, e por causa da sua disponibilidade Deus lhe fez um pedreiro. Quando nos tornamos disponíveis, podemos estar certos que Deus irá nos prover do que é necessário para realizar a Sua vontade. Do que adianta nossos talentos e aptidões se não estamos disponíveis? Para nada serve uma lâmpada acesa que é colocada debaixo da cama. Neemias convocou o povo para a obra, e a Escritura afirma que “o coração do povo se inclinava a trabalhar” (Ne 4.6). Deus espera mais que capacidade e intenção, Ele esperar disponibilidade e ação! Precisamos tirar o projeto do papel e agir por Cristo.

Se observarmos bem, veremos que o próprio Deus é uma Pessoa ocupada. Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também” (Jo 5.17). A Escritura registra por vezes os atos de Deus na eternidade passada. Deus “nos elegeu [em Cristo] antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). Isso significa que antes de criar o mundo Deus já estava trabalhando, desenhando o plano de salvação para a humanidade. Jesus afirmou que o “Pai trabalha até agora”. Saber que desde a eternidade Deus trabalha por nós, deveria ser uma motivação para todo crente trabalhar para Deus no presente. Deus não criou o Universo e abandonou a Sua criação às leis naturais como ensinam os deístas; Ele sustenta toda a criação pela palavra do Seu poder, Ele intervém na história, Ele suspende as leis naturais e opera a Suas maravilhas.

Quando Paulo escreveu aos crentes em Tessalônica, ele deu graças a Deus pela obra da fé, pelo trabalho e amor daqueles irmãos (1Ts 1.3). O apóstolo com ternura se lembrava do empenho daquela igreja. A cooperação daqueles irmãos foi tão grande que por eles “soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares” (1Ts 1.8). Eles se tornaram diligentes em fazer Cristo conhecido.

É certo que o Senhor repreendeu a igreja de Éfeso por deixar o primeiro amor, no entanto quanto ao serviço os efésios foram elogiados. O erro daquela igreja não foi trabalhar intensamente para o Senhor, e sim abandonar o primeiro amor. Sejamos balanceados: Deus não quer serviço sem amor, muito menos amor sem serviço. Deus quer que as duas coisas andem juntas. Na parábola dos trabalhadores da vinha, o pai de família delegou atividades à todos os que estavam ociosos (Mt 20.1,3,6). Assim também o Senhor delegou a todos os membros do Corpo de Cristo uma função a desempenhar, não importa se você lava o banheiro da igreja ou distribui folhetos, faça o que te vier às mãos com toda a sua força; por mais simples que seja o seu trabalho, ele é importante no Reino de Deus.

Trabalhe, e trabalhe muito para Deus; não ocupe a terra inutilmente, mas seja rentável no Reino. Em suas últimas recomendações da primeira epístola aos coríntios, Paulo disse: “Sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58)!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira