Medicamentos para o Tratamento da COVID-19




Desde que o surto de COVID-19 atingiu o mundo, a comunidade científica, incansavelmente, tem tentado encontrar tratamentos viáveis e medicamentos que sejam eficazes para tratar a doença causado pelo coronavírus. Diante desse cenário, também tem surgido inúmeras “alternativas não formais” de pessoas recomendando determinados medicamentos para o tratamento da doença, os quais são principalmente a cloroquina e a ivermectina.

A grande questão que gira em torno de tudo isso é: esses remédios são ou não eficazes para tratar ou prevenir a COVID-19? O que a comunidade científica já documentou sobre o assunto? Para compreender melhor isso, analisaremos cada um desses medicamentos separadamente.

Cloroquina

A cloroquina é um medicamento empregado há bastante tempo, e é usado para tratar doenças como malária, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, lúpus discoide e doenças de fotossensibilidade (sensibilidade à luz).


Especialmente nos últimos meses, essa droga tem sido o centro das atenções devido aos estudos sobre seus efeitos no tratamento da COVID-19. Para que haja um distanciamento de questões políticas nesse sentido, é preciso deixar o “achismo” e recorrer às evidências científicas sérias, que devem reger qualquer tratamento medicamentoso para qualquer doença que seja.
Desde que a discussão acerca desse medicamento em relação ao coronavírus começou, estudos clínicos têm sido feitos para verificar a possível eficácia da cloroquina para a nova doença pandêmica. Diante disso, alguns estudos relataram que pacientes submetidos a um tratamento com hidroxicloroquina (análogo viável da cloroquina) em associação ou não à azitromicina (um antibiótico) teriam demonstrado melhora do quadro sintomático da doença. Entretanto, esses estudos apresentaram falhas metodológicas, como uma amostragem muito pequena (cerca de 36 pacientes) e ausência de um grupo-controle, que tem a sugestiva função de dar os parâmetros para a comprovação da eficácia clínica do medicamento. Nessa mesma linha de pesquisa, inúmeros estudos têm sido desenvolvidos, porém como se trata de uma doença nova, essas evidências são frágeis, seja pelo pouco tempo de acompanhamento, seja pela amostragem pequena ou mesmo por vícios na metodologia.


O fato é que mesmo que ocasionalmente alguns pacientes tenham apresentado algum tipo de melhora, ainda não há evidências suficientes para indicar que seja uma ação da cloroquina. Ainda, estudos clínicos observaram que em pacientes que foram tratados com hidroxicloroquina associada ou não à azitromicina, houve um aumento significativo de falência cardíaca. Isso acontece porquê assim como todas as drogas, a cloroquina não é inócua, e por isso efeitos colaterais graves são observados, os quais são principalmente retinopatias (condições que comprometem a visão), queda da pressão arterial, alterações no funcionamento do coração e hipoglicemia (diminuição da taxa de glicose no sangue) – em pacientes diabéticos isso representa grande perigo, uma vez que a cloroquina exacerba os efeitos dos medicamentos hipoglicemiantes. Para esse grupo, essa droga pode levar a uma queda brusca a acentuada dos níveis de glicose no sangue, podendo levar à perda de consciência e até mesmo ao coma.
É importante salientar que em pacientes com comorbidades, ou seja, com doenças preexistentes, o que agrava o quadro da COVID-19, um mal funcionamento do coração ou uma hipoglicemia grave podem levar desde uma perda de consciência até mesmo ao óbito em alguns casos. Por isso é fundamental que haja a conscientização que ainda não há tratamento medicamentoso para a COVID-19, pois ainda nenhum medicamento foi comprovado como eficaz para a tratar a doença.

Ivermectina

Outra droga que tem recebido atenção é a ivermectina, um antiparasitário empregado para combater doenças como oncocercose, filariose, ascaridíase entre outras.
Em relação à COVID-19, foi observado que esse medicamento teria uma eficácia em inibir a replicação viral, o que, em tese, impediria a progressão da doença pelo coronavírus. O grande problema desse estudo, porém, é que ele foi realizado in vitro, ou seja, fora de um organismo vivo. Além disso, a dose em que essa ação foi verificada era extremamente elevada, uma dose que jamais poderia ser usada em humanos, pois seria letal. Acrescenta-se ainda o parecer de que é biologicamente impossível a ivermectina atingir a concentração ideal para inibir a replicação viral nos pulmões de um ser humano sem causar uma overdose. É preciso lembrar que esse medicamento também apresenta efeitos colaterais, os quais podem ser diarreia, vômito, fraqueza, febre, dor abdominal, dor nas articulações, dor de cabeça, tremor, vertigem e etc. Por essa razão, a automedicação e o uso indiscriminado é desencorajado.
Assim, é preciso considerar que os estudos envolvendo a ivermectina não são comprobatórias, pois tanto o estudo quanto os efeitos não foram observados em humanos.

Conclusão

Com tudo isso em mente, fica-nos a lição de que ainda o melhor remédio é a prevenção: manter o distanciamento social e praticar uma boa higiene das mãos, além do uso de máscaras.
Os estudos para se encontrar um medicamento eficaz para o tratamento da COVID-19 ainda estão em fase de testes. A automedicação indiscriminada de drogas que ainda carecem de evidência científica pode causar sérios problemas à saúde. Ainda, vale ressaltar que a experiência pessoal ou pequenas observações clínicas não são suficientes para embasar ou justificar qualquer tipo de tratamento. Para que um medicamento possa ser empregado com segurança, é preciso recorrer às evidências científicas, as quais infelizmente podem levar algum tempo para serem encontradas. Recorrer às aventuras de um tratamento “alternativo” e sem embasamento científico pode agravar o quadro da doença e levar a outros problemas sérios de saúde – todo e qualquer tratamento com medicamentos deve ser feito sob a supervisão de um profissional médico e sempre sob o rigor do conhecimento verdadeiramente científico.