Lembra-te!




Agendas, aplicativos de celular e outras formas de lembrete servem para nos manter antenados quanto aquilo que não pode ser relegado em nossa vida. Temos uma tendência natural ao esquecimento e todo esse aparato nos ajuda a assegurar que os nossos compromissos estarão em dia. Por um lado, isto é positivo, por outro, nos torna preguiçosos para treinar a nossa memória. É mais confortável para alguns colocar seu GPS pela décima quinta vez para fazer o mesmo trajeto do que se dar ao trabalho de memorizá-lo. Anos atrás as coisas não eram assim; ou aprendia-se o caminho ou você iria parar em um beco sem saída. Os anos vão passando, as facilidades vão aumentando e também a nossa mente vai se tornando cada vez mais indolente.

Porém, o nosso esquecimento não se aplica apenas à esfera das coisas deste mundo; com relação às questões espirituais o problema é o mesmo. Sabendo disso, o próprio Deus lançou mão de recursos mnemônicos para fortalecer a nossa memória. Em Deuteronômio encontramos a ordem aos pais de inculcarem a Lei do Senhor em seus filhos pelo método da repetição (Dt 6.6-9). Já no fim deste mesmo livro, o Senhor ordena Moisés escrever um hino para o povo de Israel, pois como afirma o texto bíblico, ainda que se passassem as gerações aquele cântico não seria “esquecido da boca de sua descendência” (Dt 31.21). No Brasil, por exemplo, o fenômeno da “caneta azul” é uma grande prova de que a música é capaz de impregnar as coisas em nossa cabeça (como a música citada anteriormente – ainda que involuntariamente). Se avançarmos um pouco mais, veremos na literatura de sabedoria do povo de Israel os chamados provérbios. Alguém disse que “um provérbio é a experiência de uma vida inteira resumida em uma frase”. Realmente é difícil memorizar textos longos, porém frases curtas em forma de máximas grudam em nossa cabeça com muita facilidade. Portanto, dentre tantos propósitos de Deus com a repetição, música e provérbios, um deles é desenvolver a memorização em seu povo.

Há muitas coisas em nossa vida que não fazem muita falta se não forem aprendidas ou se forem esquecidas. Mas todos concordamos que há outras que não podem passar batido de forma alguma. A Bíblia nos fala de coisas importantíssimas que sempre devem estar ocupando a nossa memória. Embora haja muito mais do que aquelas que estão citadas neste texto, nos ocuparemos com aquelas que são mais relevantes para a nossa vida.

Primeiro, devemos lembrar de Deus em todo o tempo. Apesar do Senhor estar conosco todos os dias, corremos o perigo de esquecermos dEle. Quando o cristão começa a considerar Deus como um segundo plano em sua agenda de compromissos está cometendo um erro fatal. Esse tipo de esquecimento está sempre atrelado a negligência e a falta de atenção. O descuido em nutrir um relacionamento com Deus, em que Ele é a nossa única prioridade, vai nos distanciando gradativamente da comunhão com o Senhor, e a cada passo Ele se torna menos presente em nossos pensamentos. Ao debruçarmos sobre a história do povo de Israel, vemos que inúmeras vezes o Senhor usou profetas para repreender a omissão do Seu povo quanto à Aliança; parece-nos que uma espécie de “Alzheimer espiritual” se propagou terrivelmente no povo de Deus do passado e este mal ainda é presente em nossos dias. Não se engane: essa espécie de Alzheimer se desenvolve em todas as idades, por isso a Bíblia diz: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade” (Ec 12.1). Uma rápida observação nos mostrará que muitos jovens sofrem com a doença do “Alzheimer espiritual”. Algo interessante a ser notado nas Escrituras é que o esquecimento de Deus não é neutro, pois à medida que vamos deixando apagar da nossa memória as doces lembranças da comunhão, vamos nutrindo cada vez uma união com o pecado. Sempre que a Bíblia fala de Israel se esquecendo de Deus, ela mostra como consequência disso o envolvimento com toda a sorte de abominações.

É por essa razão que Deus sempre usa meios para nos trazer à lembrança de que a coisa mais importante é estarmos em contato com o céu. Examinemos como exemplo a Ceia do Senhor. Um dos grandes propósitos desse momento solene é manter viva em nossa mente a lembrança. Ao tomarmos em nossas mãos o cálice e o pão, devemos recordar o nosso Salvador, e consequentemente tudo aquilo que Ele fez por nós na cruz. “Fazei isto em memória de mim”, disse o Senhor (Lc 22.19). Como pode, pois, o crente participar de um momento tão sublime sem se lembrar da cena do Calvário? Certamente não há nenhum benefício em participar da cerimônia se a nossa memória não estiver conectada à Pessoa e ao evento que ela representa. A Ceia não se trata de mera refeição para o corpo, e sim de alimento para a alma. Todavia, para que haja o efeito esperado é preciso que a nossa memória esteja em pleno exercício de recordação. Ceia e cena devem se juntar, cerimônia e memória não podem se separar, do contrário estaremos apenas desenvolvendo um ritualismo destituído de sentido. A apropriação dos efeitos da cruz depende da recordação da obra da cruz, e embora a Bíblia não esclareça com que frequência a Ceia deve ser observada, a periodicidade faz bem, tornando a lembrança mais recorrente e, por conseguinte, mais clara, mais firme e mais útil.

Contudo, não nos deixemos levar pela ideia de que isso deve ocorrer apenas neste evento em particular. É preciso um profundo engajamento da nossa parte dia após dia para não cairmos em esquecimento descuidado. Com que frequência Deus ocupa os nossos pensamentos? Ao longo do dia, em meio a correria frenética, há algum espaço para Ele? Será que não estamos entre aqueles que só lembram de Deus na hora do sufoco? Tomemos cuidado! Nosso Pai celestial nos ama o suficiente para nos manter em aperto a fim de deixar a nossa memória aguçada em relação a Ele.

Uma segunda coisa importante a ser lembrada são os ensinamentos contidos na palavra de Deus. Enquanto os apóstolos caminharam com Jesus, ouviram dEle lições preciosas. Quando o Senhor ascendeu ao céu, eles se empenharam grandemente para inculcar tais doutrinas nos crentes do seu tempo. Paulo expressa isso na carta aos filipenses: “Não me aborreço de escrever-vos as mesmas coisas” (Fp 3.1). Alguém pode interpelar dizendo: “por que falar a mesma coisa se eles já sabem?”, e Paulo nos oferece a resposta: “é segurança para vós”. Watchman Nee escreveu: “Somente pela repetição se retém a verdade, e só pela revisão se consegue aprendê-la” (O Homem Espiritual; Editora Betânia; pg.20). Receber uma informação uma vez somente, não significa que você está seguro do que “aprendeu”. A retenção, a cognição e a memorização se dão por meio de processos de repetição e revisão. Por isso que o crente deve ler a Bíblia todos os dias, frequentar aos cultos e as escolas bíblicas, a fim de estar cada vez mais seguro dos conselhos de Deus. Escrevendo aos colossenses o mesmo apóstolo diz: “a palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Cl 3.16). Observe: a palavra deve habitar em nós, e não apenas ser uma visita que raramente aparece.

Essa preocupação não era particular de Paulo, mas estava presente em vários escritores do texto sagrado. Veja as seguintes palavras do apóstolo Pedro: “Por isso não deixarei de exortar-vos sempre acerca destas coisas, ainda que bem as saibais, e estejais confirmados na presente verdade. E tenho por justo, enquanto estiver neste tabernáculo, despertar-vos com admoestações, sabendo que brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, como também nosso Senhor Jesus Cristo já me tem revelado.  Mas também eu procurarei em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas” (2Pe 1.12-15 – ênfase acrescentada). Aqui devemos ponderar sobre algumas coisas: aqueles crentes eram informados e confirmados a respeito da verdade. Pedro, porém, os desperta e faz questão de registrar para que, depois da sua morte, eles ainda se lembrem do ensino que ele estava transmitindo. Pedro morreu, mas a palavra do Senhor permaneceu e chegou até nós e fazemos bem em lembrar dela. Agora perguntamos: se o objetivo de Paulo era produzir segurança nos crentes de Filipos, qual era o de Pedro visto que seus leitores já estavam confirmados na verdade? Para compreender essa importante questão devemos pensar no estágio final da nossa salvação. Fomos justificados, estamos sendo santificados, mas ainda não somos perfeitos, e o que Deus deseja é nos levar à perfeição. C.S. Lewis afirma que as pessoas costumam a dizer: “Nunca quis ser santo, apenas um sujeito normal e decente” (Cristianismo puro e simples; Thomas Nelson Brasil; pg.260); mas este não é o propósito de Deus. Enquanto não chegarmos à perfeição Ele não vai parar de trabalhar em nós. É certo que a obra não se completará nesta vida, porém Deus nos levará ao máximo que pudermos ir antes de chegar ao Céu. Mais que informação e confirmação, perfeição é o alvo de Deus para nós, e Ele faz isso, em parte, utilizando a nossa memória. Isso não se trata de ser apenas um teólogo de cabeça; não adianta ter a Bíblia de cor na cabeça e não a guardar no coração. Ambos são necessários, mas o segundo depende do primeiro, e não o contrário.

Tomemos o exemplo dos irmãos primitivos. Poucas pessoas sabiam ler naquele tempo e impressoras eram uma ideia ainda muito distante. Para se ter uma cópia, era necessário fazer isso à mão, e devido as perseguições, era difícil se reunir para ouvir as palavras do manuscrito, pois não havia liberdade religiosa como temos hoje no Brasil. Aqueles que ouviam a palavra deveriam fazê-lo com atenção; a memorização era uma questão de necessidade. Hoje, apesar de um número incontável de exemplares da Bíblia, é muito mais fácil esquecê-la nos bancos da igreja do que o aparelho celular. Se esquecemos facilmente do exemplar, o que dirá da leitura?

Em terceiro lugar, devemos lembrar do propósito de Deus para nós quanto à edificação do Corpo de Cristo. Paulo quando escreveu a Timóteo trazia consigo boas lembranças do seu “verdadeiro filho na fé”. Observe nas seguintes palavras: “Faço memória de ti nas minhas orações noite e dia […], lembrando-me das tuas lágrimas […], trazendo à memória a fé não fingida que em ti há” (2Tm 1.3-5). Quanta recordação, quanta lembrança, quanto amor nessas palavras! Tudo isso que Paulo escreveu visava um objetivo bem esclarecido: “Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti” (v.6). Paulo estava se lembrando e despertando lembranças em Timóteo! Na carta anterior ele já havia orientado o jovem pastor a não desprezar o dom que havia sido dado a ele, mas parece-nos que aquele conselho não obteve bons resultados. Por isso o apóstolo reforça; ele não quer que Timóteo deixe escapar da sua mente o fato de que Deus lhe deu capacidades extraordinárias para que promovesse o bem do Corpo de Cristo na parte que lhe cabia. Quantos têm feito como Timóteo! Estão colocando seu dom na gaveta e se esquecendo dele. Deus nos presenteia com recursos para o trabalho, mas muitos crentes simplesmente guardaram suas ferramentas no almoxarifado do esquecimento. Caso seja um desses, o que você fará quando o Supremo Patrão lhe pedir as contas pelo seu trabalho? Será tarde demais para se lembrar do que te foi dado. Portanto, faça isso agora, enquanto pode dar tudo de si e trabalhar no serviço do seu Rei. Um homem que sai para trabalhar e esquece sua caixa de ferramentas não conseguirá executar o serviço, logo, não poderá receber recompensa alguma pelo que não fez. Da mesma forma, há crentes que, embora sejam salvos, perderão a suas recompensas por que se esqueceram daquilo que Deus lhes outorgou.

Por fim, a lembrança é necessária à gratidão. Por vezes, quando Israel estava no deserto, ao se depararem diante de uma nova dificuldade, ao invés de confiar em Deus, reclamavam e murmuravam. A história de Israel nos mostra como nós, seres humanos, somos predispostos ao pecado; o povo se lembrou do Egito, dos peixes, melões e pepinos que lá comiam (Nm 11.5), mas se esqueceram de dar graças ao Deus que havia lhe tirado com mão forte de debaixo do jugo de 430 anos de escravidão. As provisões sobrenaturais de Deus no deserto deveriam produzir corações cheios de gratidão e confiança, no entanto o povo reagiu com ingratidão e incredulidade. Não se esqueceram das comidas do Egito, mas se esqueceram e se entojaram da provisão graciosa do céu. O salmista Davi expressou: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios” (Sl 103.2). Lembrar-se do que Deus já fez gera gratidão quanto ao passado e confiança quanto ao futuro. O grande problema é que somos como Israel, e a cada desafio posto à nossa frente somos tentados à ingratidão. Vemos o problema em todas as suas formas possíveis e nos esquecemos de quanto Deus já realizou em nosso favor. Quem dera se vivêssemos o que cantamos quando dizemos: “contas as bênçãos, dizes quantas são”, pois são muitos mais do que se podem contar. Se fizéssemos isso cairíamos prostrados de gratidão perante o Senhor. Temos infinitamente mais motivos para agradecer do que para pedir, e nenhum para reclamar. Será que não estamos sendo ingratos? Procure pelos escaninhos da sua memória e verás que a bondade do Senhor é extraordinariamente maior que a nossa gratidão. José, pelo poder de Deus, interpretou o sonho do copeiro-chefe de Faraó. Este fora restituído ao seu cargo e José pediu para que não se esquecesse dele quando estivesse diante do rei. Porém, diz a Bíblia que o copeiro “não se lembrou de José, antes se esqueceu dele” (Gn 40.23). O sábio rei Salomão ilustra algo parecido de forma profunda no livro de Eclesiastes: “Também vi esta sabedoria debaixo do sol, que para mim foi grande: Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens, e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes baluartes; e encontrou-se nela um sábio pobre, que livrou aquela cidade pela sua sabedoria, e ninguém se lembrava daquele homem” (Ec 9.13-15). Este texto confirma o fato de que o esquecimento e a ingratidão são parceiros íntimos. Aquele homem merecia ser honrado e seu nome deveria ser gravado em um memorial como gratidão pelo seu feito, no entanto caiu no anonimato do esquecimento. A razão da ingratidão de Israel e nossa é o esquecimento. Por não lembrarmos do que Deus fez, pagamos o bem com o mal, e retribuímos as mãos com o pés.

E você, como anda a sua memória quanto as coisas que meditamos? Não se esqueça do Senhor, pois embora não mereçamos, Ele sempre se lembra de nós. Não se esqueça também da Sua santa palavra, pois Ele não se esquece de nossas orações. Não se esqueça dos propósitos de Deus para sua vida, e que o seus interesses não venham sufocar os interesses dEle para você. Por fim, lembre-se de ser grato. Mantenha em mente as obras do Senhor. Se possível for, compre um diário e anote todas as coisas maravilhosas que Deus tem feito por você, “uma a uma, todas de uma vez. E verás surpreso o quanto Deus já fez”!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira