Graça pedagógica




“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.11,12 – ARA, ênfase acrescentada). Esta é uma profunda declaração de Paulo escrevendo a Tito. Encontramos nesta passagem dois aspectos importantes da graça divina; primeiro, Paulo se refere a ação salvadora da graça: “se manifestou salvadora a todos os homens”, mas também nos mostra que esta mesma graça está “educando-nos”, portanto é educadora. Sendo assim a graça salvífica de Deus é pedagógica pois nos ensina a viver piedosamente. A salvação não é uma obra consumada apenas com o ato de “aceitar a Jesus”, é preciso aprender imitá-Lo a partir de Suas palavras e exemplo. Uma vez que fomos regenerados e justificados por Deus, devemos viver de forma compatível com a nova vida, e isso demanda aprendizado constante até o dia em que chegarmos ao padrão que Deus quer: a perfeição. Embora esse estágio – de perfeição – não se dará aqui, Deus não deixará de nos ensinar até que cheguemos nele.

Em todo o tempo que nosso Senhor esteve neste mundo ele foi reconhecido como mestre em Seu ministério. Desde a mais tenra idade Jesus já estava entre os doutores. As pessoas comuns o chamavam de Mestre, como também os ricos, herodianos, saduceus e fariseus (Lc 18.18; Mt 22.10,23-24). Até mesmo Nicodemos, um dos membros do Sinédrio, admitia Jesus como “Mestre vindo da parte de Deus” (Jo 3.2). À luz de quem Nicodemos era, percebemos a qualidade incomparável dos ensinos de Jesus. Segundo John MacArthur “Nicodemos era mestre renomado entre o povo de Israel, uma autoridade religiosa estabelecida por excelência, e que gozava alta consideração entre os rabinos ou mestres de sua época”[i] (MACARTHUR, 2015).

Embora Jesus fosse compassivo com os marginalizados da sociedade, pobres e doentes, Ele a todos ensinou o Evangelho. Ele percorria cidades e aldeias, ensinando, pregando e curando (Mt 9.35). Sua pregação não constituía apenas de sermões e ensinos, mas a Sua própria vida era uma mensagem. O Cristo de Deus veio salvar o perdido, mas também veio ensiná-lo a viver corretamente. O propósito de Jesus não se limitava a libertar as pessoas de seus problemas, ou somente fazê-las escapar da danação eterna; Ele desejava imprimir nelas os valores do Reino e as práticas da piedade. Jesus nunca ensinou uma salvação sem mudança de comportamento. Isto é visto claramente no Evangelho escrito por Mateus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei, tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim” (Mt 11.28,29 – ênfase acrescentada). Num primeiro momento Jesus nos convida à salvação, descanso e refrigério da Sua presença, mas sucessivamente Ele nos convida ao aprendizado. O “vinde a mim” é seguido do “aprendei de mim”. Concluímos que a graça que não ensina ao pecador a retidão é graça sem graça; nossa salvação precisa ser desenvolvida na “Escola do Discipulado” dia a dia com Cristo.

Um dos grandes aspectos que marcam a Nova Aliança é Deus ensinando o Seu povo. No período veterotestamentário a lei foi escrita em tábuas, mas agora “diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei” (Hb 8.10). A graça operou em nossa mente e coração. Deus abriu o nosso entendimento para aprender a Sua lei, e também o nosso coração para amá-la. Não se trata mais de um conjunto de normas fora de nós, mas sim de algo que foi entalhado em nosso homem interior; amamos de coração a verdade que foi esclarecida na mente, por isso “os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5.3). A graça não anulou a lei, mas nos ensinou compreendê-la e amá-la, e nesse amor o dever se torna prazer e a obrigação se torna satisfação. Uma vez que a justiça é amada, logo será praticada resultando em uma vida santa. Hoje se prega muito salvação sem transformação, “santos sem santidade” tem sido a tragédia do cristianismo moderno. Paulo foi claro escrevendo a Tito que a graça está nos ensinando a renunciar “à impiedade e às concupiscências mundanas” (Tt 2.12). Dietrich Bonhoeffer expõe as mazelas do nosso tempo com muitas persipcácia: “A graça barata, em vez de justificar o pecador, justifica o pecado. Desse modo resolve tudo sozinha, nada precisa mudar e tudo pode permanecer como antes. ‘Nossos esforços são vãos’. O mundo continua mundo, e nós continuamos pecadores, ‘mesmo na vida mais piedosa’, o cristão pode, então, viver como toda gente, em pé de igualdade com todos, e não se atreve a, sob essa graça, ter uma vida diferente da que tinha sob o pecado, a fim de não ser acusado de herege fanático”[ii] (BONHOEFFER, 2016). A graça de Deus não é como uma mãe que “coloca um filho no mundo” e o abandona a própria sorte; a graça concebe a nova vida mas também fornece instrução para vivê-la. O Bom Pastor nos “guia mansamente às águas tranquilas”, mas igualmente nos guia “pelas veredas da justiça” (Sl 23.2,3). O salmista Davi captou bem a pedagogia da graça, no Salmo 25 ele escreveu: “Guia-me na tua verdade… ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação” (Sl 25.5). Aqui vemos a salvação e a instrução do Senhor; as duas coisas trabalham juntas, não há antagonismo nem contradição, e sim cooperação. Ainda no mesmo Salmo ele diz: “Bom e reto é o SENHOR, por isso ensinará o caminho aos pecadores” (Sl 25.8). Este texto mostra-nos claramente que a bondade do Senhor não é uma licença para pecar; Ele é bom e reto, por isso Ele ensina os pecadores. Não há relação entre a bondade divina e a libertinagem, graça e pecado são inimigos mortais. Pecar sob o pretexto de vivermos na Dispensação da Graça é fatalmente perigoso, no entanto, este é um problema velho. Paulo escreveu aos romanos mostrando que a graça superabunda onde abundou o pecado (Rm 5.20), mas parece-nos que, para evitar que aqueles crentes abusassem da graça de Deus ele escreveu: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?” (Rm 6.1). A resposta é enérgica: “De modo nenhum”! A graça alcança o pecador que estiver no charco de lama mais sujo do pecado, porém, se mostrará muito curta para aqueles que dela abusam. Uma leitura mais atenta da carta aos Romanos nos mostrará que a graça de Deus deve exercer direito sobre o crente; ao nos salvar ela se torna a nossa “educadora”, e passa a ter jurisdição sobre nós. Antes o pecado reinava sobre nós, mas agora, por Cristo Jesus, a graça reina pela justiça (Rm 5.21). A salvação deve ser integral: a graça salva, educa e reina sobre aqueles que por ela foram alcançados, é um pacote completo; a vida com Cristo não é um self-service onde escolhemos aquilo que é do nosso gosto. Já nos dias da Igreja Primitiva havia “homens ímpios que convertem em dissolução a graça de Deus” como alertou Judas (Jd 3). Transformar a graça em dissolução é, em certo sentido, aceitá-la como meio de salvar-se apenas, sem nenhum comprometimento com o Salvador, rejeitando-a como método de educação espiritual. Judas adverte severamente ao que assim fazem: “Ai deles” (Jd 11).

Deus usa vários meios para nos educar na vida santa. O ensino bíblico como também a leitura das Escrituras, conselhos de cristãos maduros, até mesmo “açoites”; sim, Deus corrige Seus filhos com a vara (Hb 12.5,6). Não podemos negar ainda a ação interna do Espírito Santo, visto que Ele habita em nós, está constantemente lutando contra o nosso pecado que quer nos dominar. Certa vez, alguns jovens levaram um bolo para a universidade, fizeram um “lanche” no intervalo da aula e ofereceram daquele bolo para um rapaz cristão. Porém, tocado pelo Espírito, aquele jovem ouviu o Senhor dizer em seu coração para não comer daquele bolo. Depois de insistirem, os colegas desistiram. No dia seguinte a aula foi cancelada, o bolo estava “recheado” com drogas. Percebe isto? Deus fala em nosso coração ainda, esse é o papel da graça nos ensinando por meio de um testemunho interno do Espírito Santo.

Se a graça não está te educando também não está te salvando, ou então você está desatento as instruções de Deus e sofrerá as consequências. É triste ver como muitos que se dizem cristãos vivem dando trabalho na igreja; o comportamento deles nos leva a duvidar se foram ensinados por Deus realmente. Um crente que ouve a Deus ouvirá os homens de Deus e obedecerá aos pastores fiéis a palavra. Há nesse processo algo que cabe a nós: a atenção. É necessário está interessado na instrução do Senhor. Os Salmos nos mostram como os santos de Deus tinham esse desejo: “Faze-me saber os teus caminhos”, “ensina-me, SENHOR, o teu caminho”, “ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 25.4; 27.11; 90.12). Todas estas passagens mostram o desejo do indivíduo. Deus quer nos ensinar, e nós devemos ter disposição para aprender. Nossa mente deve se voltar com atenção para Deus a fim de receber dEle a instrução. John Milton Gregory disse: “sem atenção o aluno não pode aprender. Tentar ensinar uma criança inteiramente desatenta é o mesmo que conversar com um surdo ou um defunto”[iii] (GREGORY, 2017). A graça ensina, entretanto, o cristão deve estar atento, esta é a “Lei do aluno”. Se não estamos evoluindo no aprendizado das coisas santas significa que não fomos transformados ou estamos muito distraídos, e nesse caso, Deus utilizará a educação punitiva para despertar nosso interesse.

Como está a sua educação espiritual? Será que não nos enquadramos no grupo de Agur, este homem disse: “sou o mais bruto dos homens, nem mesmo tenho o conhecimento de homem. Nem aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do santo” (Pv 30.2,3). Precisamos avançar meus irmãos! Não importa em que nível espiritual estamos, há sempre mais para aprender do Senhor. Você ficará estagnado ou se dedicará na Escola do Discipulado? A escolha é nossa, o melhor Mestre já temos.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


Referências

[i] Bíblia de Estudo MacArthur. Barueri, SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 2015. pg. 1386.

[ii] BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo, SP. Mundo Cristão, 2016. pg. 19

[iii] GREGORY, John Milton. As Sete Leis do Ensino. Tradução: Luciana Alves. Rio de Janeiro, RJ. CPAD, 2017. pg. 35.