Fazendo a coisa certa com a motivação errada




O que nós fazemos é importante, mas o por que nós fazemos o que fazemos é igualmente – ou ainda mais – importante.Em outras palavras, Deus não considera apenas uma ação em si, mas também a motivação por detrás dela. Muitas coisas boas podem se tornar ruins porque não estão acompanhadas de bons motivos. Apenas o “fazer” não confere legitimidade ao ato! Assim como uma maçã atrativa por fora e podre por dentro, é a boa ação separada de uma boa motivação.

Enquanto escrevia aos filipenses, Paulo alertou aquela igreja sobre este terrível problema: “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e contenda […]. Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões” (Fp 1.15,16 – ênfase acrescentada). Se atentarmos para o texto, veremos que o conteúdo da pregação estava certo: “pregam a Cristo… anunciam a Cristo”. Pregar a Cristo não é uma coisa boa? Todo cristão concordaria que sim! O próprio Paulo, escrevendo aos coríntios, disse: “Porque nada me propus a saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2.2 – ênfase acrescentada). O contexto da epístola de Filipenses 1 deixa claro para nós que os tais a quem o apóstolo se refere não estavam necessariamente contra o Evangelho, e sim contra Paulo. Eles tinham inveja dele e por isso se aproveitavam de alguma maneira da sua prisão para conseguir influência. O problema daqueles homens não se tratava de questões quanto à ortodoxia; eles não estavam mentindo a respeito de Cristo e propagando heresias. Paulo prezava pelo ensino dogmático da verdade, e se assim fosse ele teria rechaçado, como fez no capítulo 3 da carta. Porém, apesar de tudo, Paulo ainda pôde se regozijar no fato de que Cristo, e não outro, estava sendo anunciado (Fp 1.18). O problema estava na motivação e não na ação, na intenção e não na pregação, pois pregavam “por inveja e contenda”. Este texto é um exemplo clássico para nós de que podemos pregar Cristo com as motivações do Diabo!

Vemos algo parecido no Antigo Testamento. O profeta Jonas levou uma mensagem fiel de Deus aos ninivitas, contudo o seu coração estava carregado das piores intenções possíveis contra aquele povo. Após a mensagem, ele esperou a destruição de Nínive, e não hesitou em expressar sua revolta contra a Compaixão Divina. Quão diferente foi a atitude do nosso amado Salvador: Jesus chorou sobre Jerusalém por causa de um povo a quem Deus havia se revelado de forma gloriosa, mas que rejeitou os ensinos do Seu Filho e a oportunidade de salvação, enquanto Jonas desejou a destruição de um povo gentio que não conhecia a Deus – mas recebeu Sua mensagem e se arrependeu dos seus pecados. Alguém talvez possa ficar intrigado com o fato da pregação de Jonas ter tido um impacto tão notável. Houve um arrependimento em massa, de tal forma que o rei de Nínive desceu do trono e se humilhou perante o Deus de Israel. Uma grande cidade inteira se voltou para o Senhor naquela ocasião. Como isso é possível, visto que a motivação de Jonas era contrária a vontade do próprio Deus? Devemos compreender que Deus operou aquela grande salvação não por causa de Jonas, mas, apesar de Jonas. É o Santo Evangelho que salva, e não o evangelista; a Palavra, e não o pregador. Por esta mesma razão Paulo se regozijava a despeito das motivações daqueles a quem ele se referia. Cristo estava sendo anunciado; embora os tais estivessem atraindo juízo contra si mesmos, estavam salvando a outros.

Um outro exemplo de como as nossas motivações podem estar erradas é o dos fariseus no tempo de Jesus. Eles eram profundamente religiosos e se davam às práticas de piedade. Tal era o compromisso deles com a religião que Jesus conta a parábola de um fariseu “tão justo” que orou a Deus confiado na sua própria justiça. O farisaísmo era uma espécie de “elite religiosa” naquele tempo, mas por vezes Jesus censurou o comportamento deles.

No contexto da religião judaica, três atos de piedade se destacavam por sua importância: dar esmolas, orar e jejuar. No Evangelho de Mateus, Jesus alerta seus discípulos quanto ao comportamento dos fariseus nesses três aspectos da religião: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles… e, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens… e, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareçam que jejuam” (Mt 6.1,5,16). Que tragédia! Uma religião motivada apenas por uma coisa: a admiração dos homens. Foquemos no ato de dar esmolas: os fariseus não faziam isto para a glória de Deus, mas sim “para serem glorificados pelos homens” (Mt 6.2). Não era pelo bem alheio, e sim pelo interesse próprio. Tudo girava em torno de mero exibicionismo. Na perspectiva de Jesus, esse tipo de religião é pura hipocrisia. É pecado revestido de “santidade” e malignidade encoberta de “bondade”. Enfim, é perversidade do pior tipo! Quando o nosso modo de agir não está alinhado com a disposição do nosso coração, estamos agindo com hipocrisia.

Dentre muitas consequências acarretadas com esse tipo de atitude, Jesus nos alerta: “não tendes galardão junto de vosso Pai, que está nos céus” (Mt 6.1). No caso apresentado por Paulo na Epístola aos Filipenses, uns pregavam por inveja e contenda; em Mateus, Jesus censura uma religião cuja suma é a hipocrisia. Pensemos um pouco: Pode um Deus Santo e Justo recompensar a inveja, o espírito faccioso e a hipocrisia? Claro que não! Todos somos sabedores de que Deus pune todas essas coisas. De que adianta ajudar os pobres sem amá-los? Esse tipo de esmola, embora beneficie alguém matando a sua fome, traz um grande prejuízo para quem a pratica. Em busca da admiração dos homens pelo que fazemos, perdemos as recompensas eternas.

Hoje é dia de perguntarmos com profunda franqueza: Por que eu faço o que faço? Quais as minhas intenções? O que me motiva a agir dessa maneira? Tudo deve ser feito para glória do Senhor, até as atitudes corriqueiras como comer ou beber (1Co 10.31). Que a adoração a Cristo seja a força motivadora das nossas ações, que ao ajudar alguém o nosso coração esteja de fato no outro e não em nós; sejamos movidos pelo amor aos homens e não pelo louvor dos homens, pois as más intenções transformam as obras mais importantes nas ações mais insignificantes.

Pelos interesses de Cristo,

Gabriel Oliveira