Entrando na Presença do Rei




Ao olharmos os registros bíblicos veremos que os grandes governantes do passado eram homens quase que inacessíveis. Apenas um seleto grupo de pessoas permanecia na presença daquelas autoridades. Se alguém cruzasse a linha impenetrável de acesso sem que tivesse sido convocado, poderia pagar com a própria vida por sua ação irrefletida. Até hoje os Chefes de Estado fazem uso de grandes escoltas; é um ato de preservação da vida como também da integridade das autoridades. Intrusos não são bem-vindos em lugar nenhum, muito menos na presença de alguém que está capitaneando uma nação.

Quando Nabucodonosor, o grande rei do império babilônico, mirou a sua ambição conquistadora para a terra de Judá, no ano 606 a.C. o Senhor entregou o Reino do Sul em suas mãos, e este rei levou para sua terra “jovens em quem não houvesse defeito algum, de boa aparência, e instruídos em toda a sabedoria, e doutos em ciência, e entendidos no conhecimento, e que tivessem habilidade”, tais jovens faziam parte “da linhagem real e dos príncipes” do povo judeu (Dn 1.3,4). Estes jovens tinham um bom e extenso currículo, no entanto nenhuma dessas vantagens descritas acima deram a eles o privilégio de estar perante o rei. Era necessário que eles passassem por um processo de aculturamento e cuidado físico rigoroso “por três anos, para que no fim destes pudessem estar diante do rei” (Dn 1.5).

Um outro exemplo disso é Neemias. Ele exercia um cargo de extrema confiança no império medo-persa, sendo o copeiro do rei. Embora sendo um judeu, Neemias era aquele que espremia uvas no copo da mais alta potestade do império. É possível perceber até um certo grau de afinidade entre os dois, pois quando Neemias se apresentou perante Artaxerxes após receber as notícias de sua terra, o soberano logo percebeu a tristeza do copeiro ao olhar em seu rosto. Um certo ditado afirma que “a familiaridade encurta o respeito”, porém este não é o caso nessa história. Apesar de gozar de uma posição privilegiada, Neemias não ousou se apresentar na presença do rei irrefletidamente, antes disse: “Se é do agrado do rei, e se o teu servo é aceito em tua presença” (Ne 2.5). Neemias se posicionou com humildade, pois ele sabia que nem todas as pessoas eram bem-vindas na presença régia.

Este fato se torna mais perceptível à luz do livro de Ester. Os judeus que haviam sido levados cativos para a Babilônia estavam prestes a ser massacrados pela fúria de Hamã, um implacável inimigo do povo de Deus. A história de Ester difere em muito da de Neemias quanto ao grau de intimidade com o rei. Neemias era um copeiro, Ester a rainha. Neemias era um servo, Ester a esposa. Contudo, essa posição elevada não lhe dava a prerrogativa de se aproximar do rei sem que fosse solicitada, então Ester convocou o seu povo para jejuar e invocar a Deus num período de três dias, a fim de que Deus tornasse o coração do rei Assuero favorável à sua pessoa, pois ela entraria em sua presença sem ser chamada. Esta atitude poderia custar a própria vida daquela jovem rainha. Isso é claramente notável em suas próprias palavras, pois disse: “assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci” (Et 4.16).

Agora, pare e pense: Nabucodonosor, Artaxexes e Assuero eram apenas homens. Se para se apresentar perante eles era exigido tanta preparação e reverência, quanto mais será necessário para se apresentar diante dAquele de quem os serafins escondem o rosto!? Enquanto estes homens tiveram domínio apenas sobre alguns territórios, o salmista afirma que “Deus é o Rei de toda a terra”, e muito embora Israel seja o povo peculiar de Deus, o salmista reitera que “Deus reina sobre os gentios” (Sl 47.7,8). Toda a terra e todos os homens da terra estão sob o domínio soberano de Jeová. Quem, pois, está apto para se apresentar ante a Sua majestosa presença? José barbeou-se e mudou as roupas; com este ato ele estava pronto para comparecer diante de faraó (Gn 41.14), mas Davi, o maior dos reis de Israel, indagou: “SENHOR, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?”. A seguir ele mesmo dá as diretrizes: “Aquele que anda sinceramente, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração. Aquele que não difama com a sua língua, nem faz mal ao seu próximo, nem aceita nenhum opróbrio contra o seu próximo; a cujos olhos o réprobo é desprezado; mas honra os que temem ao SENHOR; aquele que jura com dano seu, e contudo não muda. Aquele que não dá o seu dinheiro com usura, nem recebe peitas contra o inocente” (Sl 15). Quem é o homem que preenche os requisitos deste grau de perfeição? Nenhum! Além disso, o profeta Habacuque disse que Deus “é tão puro de olhos, que não [pode] ver o mal” (Hc 1.12). Como pode, então, o homem que é mal por natureza se apresentar diante dEle? As bases do Seu trono são “justiça e juízo” (Sl 89.14), e isso elimina qualquer possibilidade de o homem estar perante Deus!

O que pode nos deixar ainda mais perplexos é o que está escrito na carta aos Hebreus. O autor deste precioso livro das Escrituras, inspirado pelo Espírito Santo, registrou as seguintes palavras: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça” (Hb 4.16). Esse texto carrega uma verdade inimaginável para a mente humana! Não é este o Deus Santo? Aquele que disse a Moisés no Sinai: “marcarás limites ao povo em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá” (Êx 19.12)? Deus continua santo, e o homem continua pecador! Se alguém se aproximasse do Monte onde Deus iria descer, certamente morreria; Moisés ficou trêmulo diante da visão, Daniel, o homem muito amado, ficou sem força e sem fôlego (Dn 10.17); João, o apóstolo mais chegado, caiu como um morto (Ap 1.17), e Isaías, o profeta messiânico, exclamou: “Ai de mim” (Is 6.5)! Mas agora o próprio Deus nos convoca a entrar em Sua presença com ousadia. Isto é extraordinário! Como isto pode ser possível, visto que os homens mais santos que pisaram nesta terra ficaram aterrorizados diante da grandeza do Senhor? Antes do autor aos Hebreus convidar os homens a se aproximarem do trono, ele nos deixa claro que há um Grande Sumo Sacerdote que penetrou os céus, Um que em tudo foi tentado, mas nunca cedeu à tentação; Ele é o Redentor plenamente qualificado para assegurar que o homem se aproxime de Deus sem perigo; Seu nome é Jesus, o Filho de Deus (Hb 4.14,15)! Cristo é a Aliança entre Deus e o homem!

A nossa condição perante Deus era como a de Mefibosete perante o rei Davi. Quando esse homem, aleijado de ambos os pés, foi trazido ao monarca de Israel, ele se “inclinou, e disse: Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu? ” (2Sm 9.8). Por duas vezes Davi afirmou conceder tal benevolência a Mefibosete por causa de Jônatas (2Sm 9.1,7). Assim também éramos como um cão morto, mas por causa de Cristo podemos nos achegar ao Rei e receber a Sua benevolência e graça. Deus “nos elegeu nEle”, somos adotados na família celestial “por Jesus Cristo”, “em quem temos a redenção pelo sangue”; “Nele, fomos feitos […] herança” de Deus (Ef 1.4,5,7,11); todas os privilégios que os crentes desfrutam hoje são possíveis apenas por causa de Cristo e em Cristo.

O trono, cujas bases são “juízo e justiça”, também é o trono da graça! Não importa quão pecador você é, está jorrando graça do trono de Deus para você! Ester colocou vestes reais para ir até Assuero; Deus chama o pecador como ele está, com as vestes sujas e manchadas pelo pecado. Venha ao trono e o Reis dos reis estenderá para você o Cetro da Sua misericórdia. Venha confiando em Cristo, toque na ponta do Cetro, pois o Rei te será favorável; Ele te dará perdão e salvação, Ele te cobrirá com vestes de justiça. Ele não te dará apenas a metade do Seu Reino, como propôs Assuero a Ester, mas junto com Cristo te dará todas as coisas (Rm 8.32)! Não perca mais tempo. Por que te demoras? “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16).

Em Cristo,

Gabriel Oliveira