“Empurrando com a Barriga”




Adiar compromissos, tarefas, projetos e até mesmo lavar a louça; estas circunstâncias fazem parte das nossas vidas. Seja em menor ou maior grau, a arte de “deixar pra depois” é exercitada por todos. De forma mais polida, isso se chama procrastinação, e de forma mais popular, “empurrar com a barriga”. O que não se pode negar é que isso prejudica a nossa vida em vários aspectos, e além de nos manter sobrecarregados de coisas por fazer, vamos perdendo o entusiasmo diante da montanha das responsabilidades adiadas.

Infelizmente esta prática tem afetado até mesmo a vida espiritual de muitos. Alguns estão esperando um pouco mais para decidir a respeito da sua eternidade, enquanto outros que já foram salvos estão protelando o chamado de Deus e os exercícios espirituais. O grande problema da procrastinação é que ela implica em uma perda de tempo, e uma vez que este tempo foi perdido, jamais ele será recuperado. As pessoas dizem que tempo é dinheiro; elas afirmam isso porque basicamente nós trocamos o nosso tempo de trabalho por um determinado valor financeiro; todavia, não importa quanto você tem em sua conta bancária, nenhum dinheiro no mundo pode comprar o tempo que passou, por isso, tempo é mais que dinheiro. O tempo pode nos dar a oportunidade de recuperar o dinheiro que se perdeu, mas o dinheiro nunca nos trará de volta o tempo perdido. Tempo perdido uma vez é tempo perdido para sempre.

Werner Gitt, cientista cristão, escreveu em seu livro “O Tempo e a Eternidade” (ACTUAL EDIÇÕES, pgs. 64-65, 2014): “Alguém avaliou que, na metrópole de Paris, anualmente são perdidas 100 milhões de horas nos congestionamentos de automóveis no trânsito”, depois desta informação surpreendente ele acrescenta uma lição prática: “Em nossa vida também podem ocorrer ‘congestionamentos’ paralisantes […]. Assim se perde um precioso tempo, que é irrecuperável”. Múltiplas tarefas, redes sociais e falta de responsabilidade roubam grande parte do nosso tempo, e com isso vamos empurrando com a barriga aquilo que não se pode postergar; com isso, nossa vida acaba ficando estática, sem progresso.

O médico Lucas deixa registrado no livro de Atos dos Apóstolos o encontro de Paulo com o presidente Félix; após Paulo apresentar-lhe a fé em Jesus, a justiça de Deus e o juízo vindouro, atemorizado, Félix diz a Paulo: “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei” (At 24.25). Este é um exemplo cristalino de procrastinação espiritual. Diante de tamanha oportunidade Félix não tomou uma decisão e simplesmente deixou para depois, apesar de estar amedrontado com a mensagem. É um grande erro para o ser humano se aventurar nesta armadilha; como deixar pra depois se não sabemos se teremos outra oportunidade? Imagina se o ladrão da cruz deixa pra depois? O que seria dele se Jesus o dissesse: “mais tarde eu penso no seu caso”? Certamente aquele homem estaria ardendo em chamas infernais agora; entretanto, ele não adiou o inadiável, e suplicou o socorro do Salvador em tempo oportuno. Jesus, por Sua vez, também não deixou para o amanhã, mas disse ao ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.43)!

Estamos acostumados com frases do tipo: “Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”; apesar de não estar na Bíblia, este dito popular é mais que uma frase de efeito, é uma grande realidade amplamente demonstrada na Palavra de Deus. O profeta Isaías afirmou: “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-O enquanto está perto” (Is 55.6). Este texto nos mostra que há um tempo determinado por Deus em que a oportunidade de salvação é oferecida aos homens, mas esse tempo irá acabar. Chegará o dia em que os homens irão buscar, e infelizmente eles ouvirão do Senhor aquilo que Jesus disse para os fariseus: “Vós me buscareis, e não me achareis” (Jo 7.34). Isaías vaticinou que Jesus viria a este mundo, e que o Espírito de Deus seria sobre Ele para “apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus” (Is 61.1). É interessante notar que, quando esta profecia se cumpre, o Senhor Jesus não menciona o dia da vingança de Deus. Ele afirma que veio “evangelizar os pobres […], curar os contritos de coração […], proclamar liberdade aos cativos […] pôr em liberdade os oprimidos [e] anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18, 19). Jesus não veio trazer a vingança divina, pois isso ocorrerá quando Ele retornar em glória a este mundo; na primeira vinda, nosso Salvador veio proclamar o “ano aceitável”, a Dispensação da Graça de Deus. Nós estamos vivendo neste tempo, um período em que Deus tem derramado largamente o Seu favor sobre a humanidade, convocando os homens ao arrependimento e à salvação. Não sabemos quanto tempo durará este “ano” do Senhor, por isso não devemos adiar esta oportunidade; após o ano da aceitação virá o dia da rejeição, o “dia da vingança do nosso Deus”!

Muitos pessoas dizem que o “amanhã” pertence só a Deus, e isto é verdade; mas, será que o “hoje” pertence a nós? Certamente que não! O hoje não é nosso, é de Deus. Nenhum dia sequer da nossa vida está em nosso domínio, todos eles estão nas mãos do Criador. Ele determina quando é o início e o fim de tudo. Jesus contou uma parábola sobre um homem rico que ajuntou muitos bens, e após fazer isso disse a sua própria alma: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos” (Lc 12.19). Estas palavras nos mostram que aquele homem pensou que viveria muito; o que ele não sabia era que nem o amanhã nem o hoje estavam sob o seu controle. Deus lhe disse: “Esta noite te pedirão a tua alma” (Lc 12.20). Deus não disse amanhã ou daqui alguns anos, e sim “esta noite”! O amanhã pertence só a Deus, e o hoje também; nada é nosso, tudo é dEle; o Deus Soberano tem a prerrogativa de pôr um ponto final em nossa vida quando Ele bem quiser.

Nossa agenda anda abarrotada demais, estamos andando sem tempo para Deus, então vamos adiando aquilo que é de fundamental importância. Você disse que iria ler toda a Bíblia esse ano, e já estamos às vésperas de um ano novo e você sequer saiu de Gênesis 1; e aquele amigo que se desviou da fé e você propôs em seu coração ir visita-lo? Até agora você não se levantou da cadeira, e a sua coragem de testemunhar de Jesus está cada vez mais diminuída. Você disse que iria desenvolver o bom hábito da oração diária, no entanto a única hora que Deus ouve sua voz é nos resmungos do almoço; até quando você vai postergar? E se amanhã for tarde demais para se entregar a Cristo ou para apresenta-Lo à alguém? E se suas orações já não servirem mais amanhã? Não há uma segunda chance para tudo na vida, existem oportunidades que são únicas, e se forem desperdiçadas, nunca mais voltam. Barclay afirma que “de todas as tristes palavras da língua e a pena, as mais tristes são estas: ‘Poderia ter sido’” (“Graça resistível”. REFLEXÃO, pg.81, 2016). Refletir que o tempo um dia acabará faz bem à nossa alma. O tempo corre implacavelmente; tirar a bateria do seu relógio irá parar o ponteiro, mas não irá deter a corrida do tempo!

O rico no inferno clamou por misericórdia e quis investir em obra missionária, porém já estava no inferno (Lc 16.23,24,27,28), sua chance havia escapado pelos dedos e já era tarde demais. Nos resta refletir nas palavras do apóstolo Paulo: “vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão (porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável e socorri-te no dia da salvação; eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” (2 Co 6.1,2)! Não deixe pra depois, a hora é AGORA!

Em Cristo,
Gabriel Oliveira