Desapega!




(Parte 1)

O Evangelho exige renúncia. Aquele que deseja seguir as pisadas de Jesus precisa estar bem ciente disso. O evangelista Mateus, já no início do seu livro, registra o chamado divino dos primeiros discípulos de Cristo. Eram dois irmãos pescadores; Pedro e André eram seus nomes e eles estavam em plena atividade de trabalho, pois “lançavam a rede ao mar” (Mt 4.18). De repente acontece algo atípico: Jesus passando pelo mar da Galileia convida aqueles homens para que deixem os seus afazeres e O sigam. Isto soa um tanto estranho, afinal eles não eram homens desocupados que estavam sem fazer nada; é razoável concluirmos que, sendo a pesca a profissão daqueles homens, disto também dependia o sustento deles e de suas famílias respectivamente. No entanto, o Mestre chama, e eles simplesmente deixam “logo as redes” e começam segui-Lo (Mt 4.20). Segundo o estudioso Ralph Gower, “os povos judeus primitivos não pareciam ser bons pescadores […]. Não foi senão nos dias do Novo Testamento que a pesca se desenvolveu, e isso no mar da Galileia”. Gower ainda afirma que “havia um grande mercado nas circunvizinhanças da Galileia […] Pedro, André […] eram sócios numa empresa de pesca, não eram homens pobres, mas compartilhavam de uma indústria viável” (Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos. CPAD, pg.124. Tradução: Neyd Siqueira, 2002). Conforme as palavras de Gower, podemos deduzir que aqueles homens deixaram não apenas o seu trabalho, mas também o seu lucro. A chamada de Jesus a eles teve um custo; foi exigida uma renúncia e eles não hesitaram em deixar as redes e atender a convocação. Jesus não estava os convidando para deixar de trabalhar; ninguém melhor que o Senhor sabia que é do suor do rosto que o homem come o seu pão (Gn 3.19). Agora eles haviam mudado de função, pois trabalhariam para o Senhor e Ele se encarregaria de sustenta-los.

Pedro e André nos ensinam uma lição maravilhosa: devemos amar a Cristo mais que os bens que esta vida pode nos oferecer. Seria difícil para muitas pessoas tomar uma atitude como esta; deixar uma profissão rentável por amor a Jesus não é fácil. Porém, quando continuamos a ler a narrativa de Mateus, ela vai mais a fundo e nos mostra que um pouco mais adiante, Jesus encontrou outros dois irmãos que trabalhavam com o seu pai: Tiago e João. O texto registra que ao serem chamados por Cristo a obediência deles foi imediata (Mt 4.22). Devemos aqui atentar para um detalhe: Mateus diz que eles deixaram “o barco e seu pai” para seguir a Jesus. Eles não renunciaram apenas um emprego lucrativo, mas deixaram também o próprio pai! Será que Jesus não estava sendo muito intransigente? Não é a própria Escritura que nos ensina honrar pai e mãe (Ef 6.1)? Estaria Jesus violando o primeiro mandamento com promessa? Se Jesus fosse um mero homem, a resposta seria sim, mas como Jesus Cristo é Deus, Ele tem o direito de exigir uma devoção total dos seus seguidores. “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim”, afirmou o Senhor (Mt 10.37). Devemos amar e honrar pai e mãe, mas não podemos deixar que o nosso amor a eles seja maior do que o nosso amor a Cristo. Tiago e João nos ensinam outra importante lição: devemos amar a Cristo mais que a nossa própria família. O homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher em casamento, todavia quando ele acha a Cristo, ele deve mais lealdade ao seu Senhor do que à sua esposa. William Carey, conhecido como o pai das missões modernas, foi chamado por Deus para entregar a sua vida em prol da salvação dos pagãos. Sua mulher recusou acompanha-lo de primeira mão, porém os apelos do Espírito Santo no coração de Carey foram mais fortes, então ele disse a ela: “Se eu possuísse o mundo inteiro, daria alegremente tudo pelo privilégio de levar-te e os nossos queridos filhos comigo; mas o sentido do meu dever sobrepuja todas as outras considerações. Não posso voltar para trás sem incorrer em culpa a minha alma” (Orlando BOYER, Heróis da Fé. CPAD, 2014. Pgs 84-85).

O cristão precisa entender que o chamado de Deus vai exigir tudo dele; vai custar tudo o que ele tem. Um evangelho que custa pouco, pouco serve. Deus não deseja apenas uma fatia; a entrega deve ser integral. Certo homem queria seguir a Cristo, mas antes queria realizar os seus sonhos, então ele disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai” (Mt 8.21). Como disse David H. Stern a respeito deste texto: “não suponha que esse aspirante a talmid [discípulo] esteja viajando com Yeshua enquanto o cadáver de seus pai está esperando em casa, fedendo sob o sol” (Comentário Judaico do Novo Testamento. TEMPLUS, 2008, pg.61). John MacArthur nos informa que a expressão “‘preciso sepultar o meu pai’ era uma figura de linguagem muito comum, que significava ‘vou esperar até receber a minha herança’” (Bíblia de Estudo MacArthur. SBB, 2015, pg. 1221). Aquele pretendente queria viver com seu pai e curtir a herança como ele mesmo disse: “primeiramente”, e só então seguir a Jesus definitivamente. Alguém disse que “prioridade é uma palavra que não tem ‘s’”. O cristão não possui “prioridades” em sua vida, ele tem apenas uma: Cristo! Não pode haver dois primeiros lugares no pódio do nosso coração. A resposta de Jesus àquele homem foi dura, “deixa os mortos [espirituais, que ambicionam coisas mundanas] sepultar os seus mortos [físicos, quando estes vierem a falecer]” (Mt 8.22). Cristo não fornece opções cinzentas e nebulosas; é tudo ou nada. Se alguém quer ser discípulo vai ter que renunciar o TUDO.

Abraão é um exemplo para nós; já no início de sua caminhada com Deus teve de fazer uma grande renúncia. “Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai”, foi a exigência divina (Gn 12.1). O patriarca não teve outra opção alternativa; precisou cortar o cordão umbilical. Deus é Deus, e quando Ele faz uma aliança conosco quem dita as regras é Ele. Mais tarde foi necessário Abraão renunciar seu próprio filho Ismael despedindo-o permanentemente da sua casa (Gn 21.9-12). Por fim, Deus exigiu Isaque, o filho da promessa (Gn 22.1, 2), e Abraão sentiu na pele o que Jesus expressou em seu ensino: “quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37). Abraão foi chamado de amigo de Deus (Is 41.8) e sua vida foi uma benção para toda a humanidade, mas isto foi custoso.

Hoje se fala muito em desapegar, é a “febre” do momento. Há muitos sites disponíveis onde as pessoas desfazem dos “entulhos” que não lhes servem mais. Geralmente são coisas que já não tem tanto ou nenhum valor para si, no entanto este não é o tipo de desapego de que estamos falando. Deus vai exigir algo que custe, pois a renúncia não é uma experiência indolor. Muitas vezes estamos embaraçados com muitas coisas que nos fazem ter um relacionamento raso com Deus, e só teremos uma comunhão íntima quando nos desligarmos delas. Deus dará mais de Si a nós quando dermos mais de nós a Deus. Pedro e André deixaram as redes, Tiago e João deixaram o barco e seu pai, Abraão renunciou muitas coisas; e nós? Será que estamos dispostos a romper com as travancas? Você deseja mais de Deus? Quer uma vida cristã substancial? Ser amigo de Deus como Abraão? Então DESAPEGA!

Em Cristo,
Gabriel Oliveira