Desapega!




(Final)

Ao fazermos uma análise dos exemplos bíblicos mencionados em nosso episódio anterior, podemos perceber que os primeiros discípulos de Jesus, assim como Abraão, renunciaram coisas boas. Emprego rentável e família não são coisas ruins, são coisas boas. No entanto, nada – absolutamente nada – pode servir de estorvo para nosso relacionamento com Deus. Se nos aprofundarmos nesta questão alguém poderá precipitadamente concluir: “se alguma coisa é boa, logo, não deve ser rejeitada”. Isto não está completamente destituído de verdade, porém até mesmo aquilo que é bom pode se tornar mal quando reagimos a isso de forma errada. Comer é um dom de Deus e isto é bom; ser um glutão é mau. Emprego e família são coisas boas, mas quando nos apegamos exageradamente a isso a tal ponto de atrapalhar nossa comunhão com o Senhor, uma renúncia deve ser feita para que haja uma correção em nosso relacionamento com as coisas e com Deus.

O apóstolo Paulo nos dá uma autobiografia em sua carta aos Filipenses (3.5-6). Ao lermos o que ele descreve, veremos que este homem possuía muitas credenciais religiosas. Vejamos:

  • Circuncidado ao oitavo dia cumprindo o pacto abraâmico e a lei mosaica (Gn 17.23-27; Lv 12.3);
  • Era da linhagem israelita e não um judaizante;
  • Da tribo de Benjamim: quando o Reino de Israel foi dividido essa foi a única tribo que permaneceu ligada à tribo de Judá, de onde descenderia o Cristo (1Rs 12.21; Mq 5.2);
  • Era um dos fariseus, a seita mais rigorosa dentro do judaísmo (At 26.5);
  • Segundo o zelo perseguia a igreja;
  • Irrepreensível na lei; Paulo era um homem que seguia todas as regras de sua religião à risca.

Um currículo desses era quase que impecável do ponto de vista judaico, no entanto a afirmação seguinte de Paulo é surpreendente: “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo” (Fp 3.7). Havia em Paulo um certo zelo que lhe transmitia a confiança de estar bem com Deus por ser religioso, porém era uma confiança falsa que estava fundamentada nas obras da carne e não na obra de Cristo. Quando este apóstolo encontrou-se com Jesus no caminho de Damasco sua vida foi mudada radicalmente, e aquilo que para ele era ganho tornou-se perda. Perda! Essa é uma palavra forte em nosso vocabulário, e basicamente significa “ser privado de algo” ou “sofrer um prejuízo”. É disso que se trata a renúncia; é perder muitas coisas por amor a Jesus, inclusive coisas boas.

A devoção de Paulo foi tão completa a Cristo que ele abriu mão não somente do seu elevado currículo religioso, mas também teve por perda “todas as coisas” (Fp 3.8). Isso é um comprimido difícil de engolir para alguém cujo coração está entrelaçado com as coisas desta vida. Há sempre algo que não queremos deixar ir embora, e por isso seguramos fortemente com as nossas mãos. Paulo, no entanto, se desprendeu totalmente. Ele perdeu o prestígio dos seus compatriotas e, quem sabe, até mesmo a chance de se tornar um grande líder farisaico; ele perdeu muitas coisas boas, mas ele também ganhou.

Até aqui discorremos sobre renunciar e perder, porém algo é certo: a vida com Cristo não significa apenas perder, mas também abraçar outra coisa em lugar daquilo que perdemos. Paulo chama “todas as coisas” que ele renunciou de “escória” – algo desprezível e irrelevante -, mas no mesmo versículo ele mostra a razão da sua abdicação: a “excelência do conhecimento de Cristo Jesus” (Fp 3.8)! Pare e observe: ele trocou a “escória” pela “excelência”, o bom pelo melhor, as obras da carne pela obra completa e eficaz de Cristo. Paulo perdeu, mas ele ganhou infinitamente mais do que ele havia perdido. A fé cristã é como dois lados da mesma moeda: de um lado você renuncia, deixa e perde; já do outro você recebe, agarra e ganha. “De que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36 – NAA). Todavia, vale muito a pena perder o mundo inteiro para ganhar a Cristo!

Precisamos decidir, tudo ou nada. Hoje há muitas pessoas vivendo um evangelho indeciso, estão em cima do muro; querem Cristo, mas querem o mundo. A renúncia é uma decisão consciente que deve ser tomada com forte determinação pelo discípulo de Cristo. Moisés era um homem muito capaz em toda a sabedoria egípcia, formoso de aparência e tinha tudo para ser um futuro Faraó (At 7.20-22). Entretanto, o escritor aos Hebreus nos chama a atenção para duas palavras que mudaram o rumo da vida deste homem: recusar e deixar. Em Hebreus 11.24 diz: “Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó” (ênfase do autor); no v.27 ele complementa: “Pela fé deixou o Egito” (ênfase do autor). Isso é renúncia. Devemos ainda atentar para o fato de que tudo isso foi fruto de uma escolha ousada, como diz o v.25: “Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado”. O mais incrível nesta história é que Moisés trocou a glória pelo desprezo; para ele, o vitupério de Cristo era um tesouro espantosamente maior que as glórias do Egito.

Seguir a Cristo vai custar tudo o que você tem, e se você não quiser perder também não poderá ganhar. O valor de Cristo não pode ser mensurado com as coisas deste mundo; Ele não pode ser equiparado a nada que existe no tempo e no espaço, pois Ele é o Rei de toda glória. Se tivéssemos mil vidas e renunciássemos tudo isso por causa de Cristo, ainda seria pouco comparado Àquele que ganhamos. Deus vai exigir tudo: sua família, seu emprego, seu zelo religioso e até mesmo você; e esta é a maior renúncia! Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo” (Lc 9.23); ninguém é obrigado a vir, mas se quer vir tem de renunciar, e você terá de renunciar a si próprio por amor a Ele. Às vezes pensamos que o Senhor está cobrando muito de nós; essa visão resulta da falta de entendimento sobre quem Deus é e aquilo que Ele fez. Deus é digno de receber tudo de nós, e essa é uma prerrogativa própria da Divindade; além disso, devemos refletir na entrega de Cristo por nós no Calvário; Paulo escrevendo a Timóteo disse que Cristo “se deu a Si mesmo em preço de redenção por todos” (1Tm 2.6); na carta a Tito ele afirma que nosso “Salvador Jesus Cristo […] deu a Si mesmo por nós, afim de nos remir de toda a iniquidade e purificar, para Si mesmo, um povo exclusivamente Seu” (Tt 2.13, 14 – NAA). Em sua carta aos Gálatas, novamente ele é surpreendido por esta realidade: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2.20); Jesus se entregou por Paulo, e por entender tamanha realidade Paulo se entregou por Cristo. Sua renúncia foi tal que ele não vivia mais para si, Cristo era sua própria vida! Paulo renunciou, perdeu e até mesmo morreu para o mundo; seu único interesse era Cristo. Estamos tão acostumados com o texto de João 3.16 que não somos mais impactados pela verdade ali contida. A entrega de Deus foi de “tal maneira” que Ele “deu o Seu Filho Unigênito” por nós. Deus deu o melhor que Ele tinha, Ele nos deu a Si mesmo. É inadmissível querer servir a Deus com um coração dividido quando entendemos que Deus se renunciou em nosso favor.

O segundo grande mandamento nos ensina amar o próximo como a nós mesmos. Esta expressão carrega a ideia de amor próprio, devo amar meu irmão como a mim (Mt 22.39), afinal a Escritura afirma que “nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta” (Ef 5.29). Porém, o primeiro grande mandamento que é amar a Deus sobrepuja ao segundo em exigência: “de todo o teu coração, e de toda a tua alma” (Dt 6.5). O próximo você deve amar como ama a si mesmo, já a Deus você deve amar mais que a si mesmo a tal ponto de entregar todo o seu ser a Ele. O Deus único reivindica amor exclusivo do Seu povo.

Há muitos crentes que discutem sobre a guarda do sábado, considerando este como um dia especial de consagração a Deus; outros preferem se reunir no domingo fazendo da reunião dominical a mais importante para eles; ainda há aqueles que santificam suas vidas ao Senhor nos dias que antecedem a Santa Ceia do Senhor se esquecendo que a ordem é: “tome cada dia a sua cruz” (Lc 9.23). Zacarias, pai de João, o batista, falou pelo Espírito Santo que Deus deseja que vivamos “em santidade e justiça, perante Ele, todos os dias da nossa vida” (Lc 1.75). A vida cristã não é compromisso de um dia específico da semana ou de datas especiais; antes, Deus quer cada dia da nossa agenda consagrado para o louvor da Sua glória, quer estejamos na igreja ou no trabalho, em casa ou na Universidade. Cristianismo não é um experimento esporádico, e sim uma experiência diária.

Servir a Deus custa um preço muito caro, é uma renúncia muito grande. Evangelho não é parque de diversão; é cruz, é dor, é perda. Temos que assentar para fazer o cálculo, o alto preço deve ser computado antes de se fazer a escolha do discipulado. Assim como o holocausto era uma oferta inteiramente queimada (Lv 1.7-9), toda a nossa vida deverá ser oferecida a Deus no altar da renúncia.

Em Cristo,
Gabriel Oliveira.