Como descobrir a minha vocação?




Parte 03

Estamos em uma pequena série em busca do nosso propósito neste mundo. Este artigo se trata do terceiro passo nesta importante jornada. Nossos assuntos anteriores discorriam sobre a diferença entre dons e talentos e sobre o que é vocação. Hoje, vamos falar especialmente sobre como descobrir a nosso chamado a partir do autoconhecimento.

Um dos grandes impedimentos para descobrirmos a nossa vocação é a falta de autoconhecimento. Às vezes, sabemos muito mais a respeito das outras pessoas do que de nós mesmos. Com a “explosão” das redes sociais, as pessoas passam muito mais tempo observando a vida alheia do que elas próprias. Algumas vezes, a Palavra de Deus nos orienta a examinarmos a nós mesmos (1Co 11.28; 2Co 13.5); devemos aplicar este mesmo princípio quanto a nossa vocação. A pergunta “por que estou aqui?”, abordada em nosso episódio anterior, é antecedida pela pergunta “ quem sou eu? ”. Cada pessoa é única nesse mundo, possuindo temperamentos, comportamentos, defeitos e qualidades peculiares. A descoberta destas características lança muita luz quando o assunto é vocação.

É necessário fazermos aqui algumas ressalvas: todos somos pecadores, esta é uma verdade básica. Todo cristão crê nisto ou não é um cristão. Porém, aqui não iremos desenvolver uma teologia do pecado, pois não estamos falando da vocação para a salvação, e sim para o serviço. Por esta razão, não falaremos de uma introspecção da nossa natureza pecaminosa à luz da Bíblia. Em segundo lugar, nosso propósito não é determinar a vocação de cada pessoa que está lendo este artigo: é apenas mostrar os caminhos que podem te ajudar a encontrar a resposta a partir de um melhor conhecimento de si mesmo, e não fornecer uma resposta pronta. Portanto, vamos analisar nas linhas subsequentes como o nosso temperamento nos ajuda a entender qual é a nossa vocação.

Temperamentos

Temperamento é uma combinação de características que herdamos de nossos pais. Já nascem conosco por meio de uma transmissão genética. Não se trata de algo arranjado pelas circunstâncias à nossa volta, mas é hereditário. É o temperamento que define se um bebê é calminho ou se ele tem “o dedinho ligado no 220v”; o recém-nascido se comporta de forma correspondente ao temperamento herdado de seus pais ou ascendentes mais distantes. Há aqueles que se parecem muito mais com os avós do que com os próprios pais.

Entretanto, a medida que a criança se desenvolve, o ambiente que a circunda provoca algumas modificações em seu temperamento. Fatores como a educação, a cultura, entre outros, ajudam nesse processo. Estas alterações vão formando a nossa personalidade, que, por sua vez, é a forma como nós nos expressamos. É bem verdade que a nossa personalidade nem sempre é compatível com o nosso caráter; ou seja: a maneira como nos expressamos (personalidade), nem sempre está de acordo com aquilo que de fato somos (caráter). Há pessoas que são mais sinceras que outras neste aspecto.

O temperamento é uma espécie de “background” para nossas qualidades, defeitos, alimentação, hábitos e até a forma como regemos nossos relacionamentos interpessoais. Segundo Tim LaHaye “o âmago da teoria do temperamento, concebido pela primeira vez por Hipócrates, há mais de dois mil e quatrocentos anos, divide as pessoas em quatro categorias que ele chamou de sanguíneos, coléricos, melancólicos e fleumáticos. Cada tipo de temperamento tem tanto pontos fortes quanto pontos fracos, que são uma parte distinta de sua formação por toda a vida. Uma vez que a pessoa diagnostique seu próprio temperamento básico, ela estará melhor equipada para determinar a quais oportunidades vocacionais melhor se ajusta e quais fraquezas naturais deve trabalhar para que utilize o seu potencial e sua criatividade”. Nossos temperamentos são indicativos da nossa vocação. Eles podem ser trabalhados, combinados, e assim podemos alcançar resultados melhores no cumprimento do nosso propósito. Vejamos, de forma bem resumida, como funciona cada temperamento segundo a visão de Hipócrates:

Sanguíneo

As pessoas carismáticas integram perfeitamente este grupo. Espontaneidade, dinamismo, interação com pessoas, são algumas marcas deste tipo de temperamento. Pessoas sanguíneas são entusiastas e bastante impulsivas, mas, apresentam muitos pontos fracos também. Por se empolgar muito facilmente, o sanguíneo começa muitas coisas, mas termina poucas. Desorganização, indisciplina, perda de tempo e falta de perseverança marcam de forma negativa pessoas assim. Vendedores, oradores, evangelistas, mestres de cerimônias, pregoeiros de leilões, são alguns tipos de vocações que se encaixam bem neste tipo de temperamento.

Colérico

Por sua vez, este temperamento possui forte determinação; a capacidade de planejar é acompanhada da capacidade de realizar. O colérico é do tipo de pessoa que persegue os seus objetivos até o fim e são muito produtivas. Pode “chover canivete”, mas nada faz o colérico recuar em sua meta. São pessoas que não gostam de depender de outras, são autossuficientes e preferem gerenciar a ser subordinados. Em contrapartida, o colérico é dominador, autoritário, intolerante com os outros, em especial com pessoas mais “lentas”; além disso é inflexível em suas opiniões. Gerentes, supervisores, empresários, são em geral pessoas assim.

Fleumático

Diferente do colérico, o fleumático é uma pessoa amigável, que possui grande disposição em ouvir, dar conselhos e guardar segredos; a lealdade é uma marca distintiva neste temperamento. São pessoas que preferem não emitir as suas opiniões, e são pacificadoras e equilibradas. São resistentes a mudanças (conservadores), lentos para tomar iniciativas, esperando que os outros deem o primeiro passo. Aventuras são opções contrárias a este tipo de temperamento, o fleumático prefere se sentir seguro. Enquanto o colérico é autoconfiante e encara os desafios, o fleumático é o extremo oposto; não possui muita confiança em si e teme os obstáculos à sua frente. Conselheiros, assistentes técnicos, bibliotecários, chefes de departamentos, são opções que se encaixam nas qualidades deste perfil.

Melancólico

Perfeccionismo e organização são características peculiares ao temperamento melancólico. Pessoas deste grupo são muito detalhistas e prezam pela excelência. São introvertidos, pessimistas e não aceitam erros; nem os próprios, nem os dos outros. Tendo em vista que se lançar em novos projetos é assumir riscos e a possibilidade de errar, o melancólico prefere não se aventurar por medo de errar. Filósofos, artistas, inventores, músicos e autores estão geralmente neste grupo.

O equilíbrio

Entender qual é o seu temperamento é importante. Tomemos como exemplo uma pessoa predominantemente melancólica: geralmente, alguém assim não se torna um leiloeiro, vendedor. Seu perfil introvertido, fechado, não casa bem com este tipo de vocação. Por outro lado, a superficialidade, a sensibilidade emotiva e a indisciplina de um sanguíneo dificultam em muito a capacidade desta pessoa se tornar líder. Mas, não devemos nos esquecer: temperamentos podem ser equilibrados e combinados.

Tendo em vista que cada temperamento tem seus pontos negativos, por vezes há uma luta dentro de nós contra nós mesmos. Porém, vemos na Palavra de Deus pessoas que conseguiram, pela graça do Senhor, dominar estes aspectos negativos. Ao observarmos Pedro, concluímos que ele era um homem sanguíneo; isto é facilmente perceptível ao vermos que ele estava em muitos relatos da vida de Jesus e era uma espécie de “pra frente” na turma do Colégio Apostólico; dificilmente passava sem ser notado, mas vemos que ele era instável. Ao mesmo tempo que dizia morrer por Jesus e cortava a orelha de Malco para defender o seu Mestre, negava-O afirmando não O conhecer. O típico “fogo de palha”, que começa bem, mas não termina tão bem. Porém, após o Pentecostes, Deus fez uma grande obra em Pedro. Ele permaneceu sanguíneo, evangelista fervoroso, carismático, ganhador de almas, e mais que isto: disposto até mesmo a morrer pelo seu Salvador. Deus pode trabalhar em nós também, produzindo o fruto do domínio próprio (Gl 5.22), para assim podermos controlar os pontos fracos do nosso temperamento e melhor desenvolver a nossa vocação, seja no âmbito religioso, ou não.

E você? Qual destes temperamentos você considera predominante em sua vida? Se você nunca atentou para isto, faça agora mesmo uma autoanálise. Deus colocou algumas setas em nós que indicam o nosso propósito; é preciso descobri-las, aprimorá-las, combiná-las, e pôr em prática o nosso chamado com excelência. Nos vemos em nosso próximo artigo, dando sequência a este tema. Até breve!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira