Como descobrir a minha vocação?




Final

O que você vai ser quando crescer? Quem nunca foi abordado com esta pergunta? Para a maioria, a resposta estava na ponta da língua, não titubeávamos em responder o que iríamos ser. Mas… A gente não fica criança para sempre. A gente cresce e muitas coisas mudam. É fácil ser alguma coisa quando a gente não precisa ser nada a não ser criança, é fácil brincar de tudo quando o nosso mundo é feito de fantasias, mas não é nada simples quando a gente deixa das coisas de criança e temos que encarar a realidade. A pergunta que era a mais fácil pode se tornar para muitos a mais difícil. A falta de autoconhecimento, a “síndrome da comparação”, o desprezo por aquilo que somos e a falta de incentivo, todas estas coisas podem contribuir negativamente para deixar a nossa cabeça túrbida. Como dirimir este sofrimento? Como saber qual é o seu propósito? Grande parte destas respostas sobre você estão em você. Deus sinalizou muito bem o caminho da nossa vocação colocando em nós muitos “vestígios de propósito”. Nossa missão agora é observar a sinalização para que possamos chegar ao alvo desejado. Já vimos como o nosso temperamento diz muito sobre nós, mas há outros indícios que podem nos ajudar nesta trilha. Vamos continuar a nossa jornada?

Prazer

É claro que todos nós gostamos de muitas coisas, mas o ponto que queremos focar aqui não é um hobby ou entretenimento; é natural que o lazer nos proporcione algum tipo de prazer. Viagens, passeios, e tantas outras coisas não exigem tanto esforço para serem realizados porque estão conectados ao prazer. Não estamos falando também de algum prato delicioso, como comer bolo de chocolate ou picanha, estamos falando de serviço. Não é se você gosta de comer bolo, mas se você gosta de confeitá-lo; não é sobre gostar de viajar necessariamente, é sobre gostar de dirigir, percebe a diferença? O primeiro trata-se de ser servido, e o segundo, de servir.  Há certas coisas que fazemos porque nosso coração está ali; aquilo nos traz prazer, alegria e satisfação – independente das dificuldades que acompanham a tarefa. Veja a vida de Paulo; sem dúvida, foi muito dura. Sua autobiografia nos mostra isso: “recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos…” e a lista segue (2Co 11.24-26 – ênfase acrescentada). Paulo tinha uma vocação perigosa, seu chamado era seguido de inúmeras dificuldades, e o que fez este homem arriscar tanto? Ele responde escrevendo aos coríntios ainda; “Eu, de muito boa vontade, gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas” (2Co 12.15a). Paulo não estava desgostoso; ele não era do tipo “deixa a vida me levar”, não! Ele arriscava conscientemente a sua vida porque ele sabia do seu propósito, e tudo isso de “muito boa vontade”. Ele chegou a escrever: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas” (2Co 12.10). Isto é incrível! Se algo não nos dá prazer, logo se torna um fardo insuportável de carregar; no entanto, quando há prazer, até mesmo a tarefa mais pesada se torna leve. Aquilo que você faz (serviço), e nem vê o tempo passar pelo prazer que isto lhe proporciona, está conectado a sua vocação neste mundo. Porém, não estamos negando a nossa humanidade, somos pó, e alguns momentos vamos experimentar fraquezas e desânimo, mas isto não significa – necessariamente – falta de vocação.

Habilidades

Não se engane: somente o prazer não é a garantia de que você nasceu para fazer. É preciso mais que isso ainda. Gostar de fazer deve acompanhar o saber fazer. A vocação está atrelada às nossas habilidades e desenvoltura. Alguém pode dizer: “gosto de dirigir”, mas a questão é: Você é bom nisso?  Você tem golpe de vista? Você possui reflexo?

Quando olhamos para a história de José, vemos que havia marcas em sua vida que já demonstravam o propósito de Deus para ele em governar o Egito. Ele administrou a casa de Potifar, como também administrou o cárcere quando estava na prisão. A capacidade dada por Deus já indicava o futuro do rapaz. A maioria das pessoas não se encaixam na categoria de “prodígios” como comentamos em um artigo anterior; no entanto, é natural que, com o passar do tempo, nossas habilidades sejam reveladas – e elas vão indicando o caminho que devemos trilhar.

Deus nos concedeu dons e Ele quer que o usemos. Deus não deu ao pássaro uma asa para nadar, nem deu ao peixe uma barbatana para voar, a asa é para o voo e a barbatana para o nado, assim também o dom é para a vocação. Deus vai trabalhar através de nós por meio dos dons que temos, como também pelos nossos talentos e demais habilidades.

Até mesmo capacidades sensoriais podem nos ajudar em nossa busca. Há pessoas com grande sensibilidade sensorial em distinguir odores, outros em perceber formas, outros em discriminar sabores, como no caso de um degustador de café. Uma pessoa com ouvido absoluto nasceu para a música, sua capacidade aponta o seu propósito. Temos pessoas com habilidades intelectuais também, tal como atenção, memória, raciocínio aguçado, e há aqueles que possuem grande disposição motora, movimentam-se de forma rápida, tem muito reflexo, todas essas coisas se encaixam em determinados serviços que exigem estas habilidades, é bem estranho conceber a ideia de que você nasceu para fazer algo que não consegue fazer. Sim, podemos desenvolver habilidades, mas há certas coisas que nunca iremos conseguir fazer.

Muitas pessoas dizem que não são boas em nada, e isto não é verdade. Para cada um Deus deu capacidades, cabe a nós examinarmos e entendermos quais elas são e aceitar isto. Infelizmente, muitos querem ser os outros e não eles mesmos; nesse caso, o problema não é falta de capacidade, e sim falta de aceitação. Pessoas assim ignoram o fato de que se elas tentarem cumprir o propósito do outro vão ficar frustradas e não realizadas. Se um peixe tentar voar ele irá morrer, se uma tartaruga tentar ser um leopardo ela vai se frustrar pela sua lentidão. Assim como os animais, cada um de nós tem capacidades distintas e incapacidades distintas. Não sabemos fazer tudo nem saberemos. Aceite as suas habilidades, mas também reconheça que Deus nos fez em uma relação de interdependência com o próximo. Há coisas que você sabe e o outro não, e vice-versa, e cada um deve servir ao outro dentro da sua vocação.

Há outro fato que devemos pontuar aqui: sempre haverá alguém melhor do que nós. Não ser tão bom quanto o outro não quer dizer que você não seja vocacionado. Dentro de uma mesma esfera de vocação há aqueles que vão sobressair. Nem todo escritor brasileiro é um Machado de Assis, nem todo evangelista é um Billy Graham, mas nem por isso um escritor ou um evangelista deve desanimar do seu trabalho. Todos nós devemos ser o melhor que pudermos dentro dos nossos limites.

Sentimentos

Embora possa soar estranho, aquilo que nos deixa tristes ou indignados podem ser indícios da nossa vocação. É preciso dizer que não nos referimos a uma indignação que nos leve a tomar atitudes violentas contra pessoas; estamos falando de uma revolta contra o erro e uma indignação contra a injustiça, que nos conduz, radicalmente, a tomarmos atitudes corretas.

Se voltarmos ao tempo da Reforma Protestante e analisarmos a vida de Martinho Lutero, veremos como seus sentimentos contribuíram para o seu propósito. Lutero “foi enviado a Roma, em companhia de outro monge, para tratar de um problema relacionado com a ordem dos agostinianos. Lutero permaneceu quatro semanas em Roma, onde – como diria ao relatar posteriormente – percorreu todas as igrejas e catacumbas como se fosse um santo desmiolado. Mais tarde, também, em retrospectiva, Lutero relatou que, por ocasião daquela visita, pela primeira vez ele se sentiu ofendido e começou a questionar a comercialização e a banalização da religiosidade”[i]. Quando Lutero deparou com as vendas de indulgências, e em especial com as heresias pregadas por Johan Tetzel, ele foi levado a tomar uma atitude. A indignação contra o comércio da fé revelou a vocação de reformador em Lutero. Algo parecido nós encontramos no Novo Testamento; Paulo quando estava em Atenas, e diz a Bíblia que “o seu espírito de revoltava em face da idolatria dominante na cidade” (At 17.16 – ARA, ênfase adicionada). Isto levou Paulo a dissertar com judeus e debater com os filósofos a respeito de Jesus, e nós bem sabemos que isto fazia parte da vocação de Paulo, pois ele havia sido posto para “defesa do evangelho” (Fp 1.16).

O que te causa indignação, incômodo ou tristeza? A fome no mundo, o tráfico de drogas, a decadência na educação ou a corrupção? Tais sentimentos podem estar indicando a sua vocação. O comércio do sagrado levou Lutero à Reforma, a idolatria de Atenas levou Paulo a pregar, a tragédia dos muros caídos de Jerusalém causou tanta tristeza em Neemias que o copeiro se tornou temporariamente um pedreiro, e ele passou a lutar pelas causas do seu povo. Qual é o problema no mundo que te desperta tais sentimentos? Pare e pense nisso, a solução de Deus pode ser você!

Os pais

Os pais exercem grande influência na vida de seus filhos. Por terem maturidade e experiência, podem muito ajuda-los na descoberta vocacional. Nossos pais conhecem nossas habilidades e limitações, pontos fortes e pontos fracos, e principalmente para o jovem que experimenta uma fase de confusão, um bom conselho deve ser muito bem-vindo. Nas Escrituras vemos Manoá, pai de Sansão, e Zacarias, pai de João o batista, que mesmo antes de seus filhos nascerem já sabiam da vocação deles, e muito embora nos tempos bíblicos os pais ensinassem a própria profissão aos filhos, vemos que, nesses dois casos, os pais não interferiram no chamado de Deus. É necessário dizer isto porque muitos pais querem que seus filhos vivam os projetos deles e não os do Senhor para eles. Nem sempre há uma confluência do propósito de Deus com o propósito dos pais. É certo que os filhos devem ser submissos, isto está claro na Palavra de Deus, mas ninguém deve ingressar em uma carreira só para agradar a família, pois isto geraria de um lado satisfação para os pais e frustração para a própria pessoa. Os pais devem ajudar aos filhos, não forçá-los ao querer pessoal deles. Desde que haja respeito, cautela e sabedoria, os filhos podem contestar seus pais quanto a essa questão. O pai de Lutero não gostou nem um pouco da decisão do seu filho, mas vemos que Deus tinha um propósito em tudo aquilo; por insistência da família, ele havia ingressado no curso de direito, mas, ainda católico, sentiu-se chamado por Deus. A história registra que Lutero foi acusado pelo pai “de ter desrespeitado o mandamento que manda honrar os pais. Lutero respondeu que tinha recebido um chamado celestial, mas o pai não se deu por satisfeito”[ii]. Isto nos ensina que nem sempre há confluência, mas sempre deve haver equilíbrio.

Revelação especial

Nós vemos ainda na palavra de Deus pessoas que souberam do seu propósito por meio de uma orientação divina especial. Sonhos, profecias e visões foram meios sobrenaturais usados por Deus para revelar propósitos aos seus servos. Deus chamou a Moisés por meio de uma sarça ardente (Êx 3), José teve sonhos que mostravam sua vocação como futuro governador do Egito (Gn 37. 5-11); na Igreja Primitiva, Paulo e Barnabé foram separados por uma comunicação direta do Espírito Santo (At 13.1,2). Ainda assim temos que observar duas coisas em casos assim:

  1. José teve sonhos, mas ele também tinha capacidade de administrar. Deus deu a visão, mas também deu o dom para que a visão fosse executada. Há muitos que dizem ser chamados por Deus para uma tarefa, mas não vemos sinais da capacitação divina, e isto é um problema. Quando Deus chama Bezalel para trabalhar na obra do Tabernáculo, diz a Bíblia que “o Espírito de Deus o encheu de sabedoria, entendimento e ciência” (Êx 35.31). O Deus que chamou também capacitou. A mera experiência de uma visão, ou qualquer coisa sobrenatural, não é garantia de chamado real, isto deve ser evidenciado pela habilitação dada pelo senhor;
  2. Embora Deus ainda fale de forma sobrenatural, Deus não falará assim com todos. Nem todo chamado é acompanhado de uma experiência dramática, e isto não torna alguém inferior ou superior. Deus fala de diversas formas e de diversas maneiras. Além disso, notamos que na maioria dos casos em que vemos esse tipo de ação divina sobrenatural em revelar aos homens a sua vocação, a tarefa está ligada a questões espirituais. Bezalel foi artista, mas o principal propósito era trabalhar para o Tabernáculo de Deus; José foi governador, mas por trás disto Deus traria livramento ao povo eleito de Deus: Israel. Deus pode chamar quem Ele quer, como quiser para o propósito que Ele deseja, mas, na maioria das vezes que Deus revelou a vocação de alguém havia um propósito espiritual por trás disso.

E aqueles que sabem tanto?

Há pessoas que possuem muitas capacidades e ficam confusas por não saberem o que fazer com tantos dotes. Como comentamos em um episódio anterior, Lucas era médico, historiador e evangelista, e há muitas pessoas assim, que sabem fazer muitas coisas.  Nesse caso, devemos servir a Deus como nossas habilidades à medida que surgem as necessidades; há tempo em que somos mais úteis em uma área do que em outra: Neemias era copeiro, mas absteve por um tempo desta profissão para dedicar-se à reconstrução dos muros de Jerusalém até que a obra ficasse pronta; naquela ocasião, era mais necessário que ele fosse pedreiro do que copeiro. Ainda assim, é possível em alguns casos, fazer várias coisas em tempos diferentes, uma boa organização do nosso dia nos dá a chance de fazer múltiplas tarefas. Devemos ainda considerar que há algo em que somos melhor do que as demais capacidades que possuímos, e há coisas que gostamos de fazer mais que outras. Olhando para seus dons, talentos e habilidades, em que você se considera melhor? O que te traz mais satisfação? Em que você é mais útil? Faça uma análise séria de si mesmo e descobrirá o que Deus quer de você nesse tempo presente: dedicar a uma tarefa mais necessária ou organizar o tempo para desenvolver diversos serviços.

Esperamos que essas orientações sirvam para te ajudar a descobrir a sua vocação. Ao chegar a uma conclusão definida, não se esqueça de fazer como diz o hino: “Dá teu melhor para o Mestre”. Seja no meio religioso ou não, você está servindo a Deus e trabalhando no Seu Reino, ainda que em um contexto diferente. Deus não usa somente púlpitos e microfones, ele usa canetas, bisturis, vassouras, panelas e muitas outras ferramentas. Deus quer que Seus filhos reflitam a Sua imagem nas diversas esferas do trabalho. Precisamos de bons padeiros, bons garis, bons advogados, bons pastores, bons escritores, bons economistas, bons mecânicos… enfim, só nos resta dizer: “fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31).

Soli Deo Gloria!

Pelos interesses de Cristo,

Gabriel Oliveira





[i] Bíblia de Estudo da Reforma. Barueri, SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. p.5.

[ii] Idem. p.4.