Causa e coisas




A carta aos Hebreus apresenta Jesus como a “Causa” da nossa redenção: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5.9). Ao fazer tal afirmação, fica evidente que a redenção tem sua origem, seu princípio, em Cristo. Não é algo que parte de nós, mas de Deus; não é iniciativa humana, mas divina. Não foi o homem quem subiu ao Céu e se dirigiu até Deus para ser salvo: foi Deus, na pessoa do Filho, que desceu em nosso mundo, como está escrito: “Ele veio” (Jo 1.11).

Precisa ficar muito claro em nossa mente o fato de que é Deus quem dá o primeiro passo em direção ao homem na obra da salvação. Como bem explica o teólogo Wellington Mariano: “o homem não busca a Deus [cf. Rm 3.11], logo se o homem não busca a Deus, como ele pode ser salvo? O homem, portanto, só pode ser salvo se Deus o buscar primeiro” [i](MARIANO, 2015). A bíblia não acolhe dúvidas quanto a essa questão:“Aquele que em vós começou a boa obra” (Fp 1.6), é um texto que sustenta a verdade de que a salvação tem sua origem em Deus.A obra é feita em nós, mas não foi iniciada por nós.

Deus nos amou primeiro, e Ele agiu em nós por meio de uma graça ao qual os teólogos chamam de preveniente, ou seja, uma graça que vem antes. Muito antes do homem decidir buscar a Deus, a graça já estava agindo nele, trazendo luz a sua mente, sensibilizando o seu coração e animando a sua vontade para ir até Cristo. A salvação é pela graça através da fé (Ef 2.8), mas foi por causa de Jesus que recebemos graça sobre graça (Jo 1.16), e é Ele mesmo o Autor da nossa fé (Hb 12.2); por conseguinte, é também o Autor da nossa salvação. Como bem afirmou o salmista: “A salvação vem do SENHOR” (Sl 3.8).

Esta compreensão tira de nós todo rastro de mérito. Se Deus não nos amasse, não o amaríamos; se Ele não nos buscasse, não o buscaríamos; logo, ninguém pode se orgulhar de ser salvo, pois não depende primeiramente de nós, e sim de Deus. Se Ele nada fizesse, nada poderíamos fazer.

O mais surpreendente é que a salvação tem sua causa, continuidade e consumação em Cristo. Fomos salvos por Ele – e é por Ele que permanecemos e permaneceremos salvos. Jesus é o Autor e Consumador da fé; Ele começou a boa obra e Ele irá completá-la. Muitos pensam que foram salvos por Jesus e agora permanecem de pé por causa da sua performance espiritual. Esta é uma compreensão equivocada. Se Cristo tira de nós o Seu amparo divino, tudo o que construímos até aqui irá se desmoronar, não importa quão grande seja o edifício. Sem Cristo, tudo o que fazemos é uma nulidade; não tem nenhum valor e para nada serve no plano espiritual. Porém, isto levanta um questionamento: se a salvação depende de Cristo, então o homem não precisa fazer nada? A resposta à isto é um altíssono não! Uma vez que a graça toca nosso coração e nos capacita a desejar a Deus, devemos responder a este impulso positivamente. Se fomos habilitados para buscá-Lo, agora Ele espera que nós o busquemos – e quando há essa combinação do estímulo de Deus e a resposta positiva do homem, acontece a salvação.

Agora salvo, o homem pode e deve agradar a Deus. Mas a salvação não vem sozinha, o autor aos Hebreus esperava dos seus leitores “coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação” (Hb 6.9). A verdadeira salvação em Cristo é como uma massa de pão com vários ingredientes. O Evangelho é pregado, mas a mensagem para ter efeito deve estar misturada com a fé daquele que ouve (Hb 4.2); e a fé, por sua vez, é acompanhada das obras.

O homem salvo obedece a Deus e se aplica às práticas espirituais e às boas obras: essas são as coisas melhores que acompanham a nova vida em Jesus. Nada disso causa a sua salvação, mas é um resultado dela. Não somos salvos por obras, mas para fazer boas obras; e onde houver fé verdadeira, haverá obras que a evidencia (Tg 2.17). O carcereiro que foi salvo após o terremoto na prisão em que Paulo e Silas estavam, demonstrou a qualidade da sua fé pelas suas obras. O texto bíblico diz: “E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus.E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16.33,34).

Como afirmou o luterano C.F.W Walther: “O Evangelho não exige nada da pessoa: não exige um bom coração, boa disposição, condição melhor, piedade, santidade, nem amor para com Deus ou para com o próximo. Não dá nenhuma ordem, mas modifica o indivíduo. Ele planta o amor em seu coração e o torna capaz de toda boa obra. Não exige nada, mas dá tudo[i]. Percebe esta realidade? Todas estas coisas ditas por Walther são coisas que acompanham a salvação. Cristãos não tentam agradar a Deus para se tornarem dignos da vida eterna ou para acumular mais pontos no crédito que eles possuem no Céu. Obedecemos a Deus por saber que Ele merece o melhor de nós, e vale a pena todo esforço dedicado em servi-Lo.

Aqui deve haver um ponto de equilíbrio. Precisamos da causa e das coisas. Muitos enfatizam a salvação somente em Cristo – e isto é verdadeiro. Mas não podemos incorrer no erro de nos tornarmos infrutíferos sob o pretexto de sermos salvos apenas por graça. Muitos crentes se tornam estéreis em sua vida espiritual e usam o argumento do “Sola Gratia” como justificativa da sua improdutividade nas coisas de Deus. Paulo defendeu veementemente a salvação só em Jesus, pela graça e através da fé, mas ele mesmo disse: “Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1Co 15.10). Ele não usou a graça como subterfúgio para ser infecundo, mas reconheceu que ela era a força motriz por trás de toda eficácia do seu ministério.

Mas também há aqueles que estão tentando “fazer por onde” para serem salvos, e este é o erro oposto. Ainda que você gaste 24 horas se exercitando nas práticas espirituais, fazendo boas obras e obedecendo rigorosamente os preceitos divinos, nada disso valerá a pena se Jesus não for a “Causa Primeira”. O texto bíblico que abre nosso assunto diz: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5.9). A causa da salvação dos que obedecem a Jesus não é a obediência deles, e sim o próprio Cristo. Tentar ser salvo pelo próprio esforço é como alguém que não sabe nadar dando braçadas no oceano: vai se afogar.

Nem oito, nem oitenta: faz-se necessário equilíbrio, precisamos de ambos. Cristo é o Único que salva, e as nossas obras evidenciam a verdadeira fé. A Causa produz as coisas, e não façamos das coisas a causa.

Em Cristo, a Causa Primeira,

Gabriel Oliveira


[i] MARIANO, Wellington. O que é a Teologia Arminiana. 1. ed.  São Paulo, SP: Editora Reflexão, 2015. pg. 23.

[ii] Bíblia de Estudo da Reforma. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. pg. 1848