As contradições da religião




A palavra religião reúne uma grande gama de definições, desde ideias mais restritas até aquelas mais populares. Basicamente, a palavra se traduz como um conjunto de crenças e comportamentos que regem a vida de um indivíduo ou grupo. Apesar de toda discussão que orbita em torno do tema, há um fato inegável: o ser humano é, por natureza, religioso. Sejam aqueles que são muito devotados as suas ideias ou os que se consideram não-religiosos. Todo homem crê em algo, até aqueles que não creem em Deus. O ateu precisa acreditar no seu ateísmo, e ao devotar seu tempo e envolver sua mente nesta descrença, faz do ateísmo a sua própria fé. Como diz Russel N. Champlin: “a devoção encontra-se à raiz de toda religião”[i] (CHAMPLIN, 2004).

Em meio a este emaranhado de definições e confusões, a palavra religião herdou uma conotação profundamente ruim. Sobretudo no meio cristão, quando se fala em pessoa religiosa, logo associamos em nosso imaginário alguém excessivamente legalista, ascético, ritualístico, cheio de não-me-toque e que se preocupa desmedidamente com minúcias – se esquecendo do que realmente importa.

Esse tipo de religião não é rejeitada apenas pelos homens, mas também – e principalmente – por Deus. Tomemos como modelo os fariseus dos dias de Jesus. Dentro do judaísmo daquela época, os fariseus eram a seita mais rígida (At 26.5); mas no discurso de Mateus 23, Jesus os repreendeu de forma intransigente, lançou em rosto suas atitudes hipócritas e pronunciou sobre eles muitos “ais”, expressão que sugere dor e tormento.

É sobre esta espécie de religião, baseada meramente em regras e ritos – vazia de significado e permeada de inconsistências – que queremos lidar aqui. Nosso propósito é mostrar, com base na Palavra de Deus – a Bíblia –, algumas contradições da religião e, por fim, apontar a verdadeira religião cristã “pura e imaculada” (Tg 1.27).

O religar que desliga

Em nossa língua portuguesa, a palavra religião advém do latim “religare” e possui o sentido de religar. Sabemos que entre o homem e Deus há um abismo intransponível por causa do pecado; por isso, Deus, em Seu infinito amor pela humanidade, proveu um meio para que o homem pudesse se reconciliar com Ele: Cristo. Jesus mostra de forma cabal que Ele é o Único Caminho que pode levar o homem ao Pai e restaurar a comunhão com Ele. A religião cristã verdadeira apresenta Cristo ao pecador, Aquele que é o Único capaz de reatar o elo quebrado no Éden.

Porém, já nos dias da Igreja Primitiva se infiltrou o Cristianismo Judaizante. Esse grupo era composto de pessoas que vieram do judaísmo, mas ainda estavam presas aos seus elementos. Eles criam em Cristo; só não criam que Ele era suficiente e queriam acrescentar à Sua obra alguns componentes. Os cristãos judaizantes diziam que antes de ser cristão era necessário ser judeu, que para ser salvo por Cristo era imprescindível passar primeiro por Moisés. Para os judaizantes a circuncisão era necessária para a salvação, e eles conquistaram um grande espaço entre os crentes que habitavam na Galácia no primeiro século.

O apóstolo Paulo, guiado pelo Espírito Santo, escreve àqueles irmãos uma epístola que visava ressaltar o verdadeiro Evangelho. Ele os alertou de forma enérgica dizendo: “Separados estais de Cristo, vós os que justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gl 5.4). Quanta incoerência! A religião estava os separando de Cristo ao invés de exercer sua função: uni-los a Ele! Na tentativa de chegarem mais perto de Deus, estavam ficando mais distantes, pois estavam rejeitando a suficiência dAquele que é o Mediador entre Deus e os homens.

Na Igreja de Colossos havia um problema semelhante. Muitos estavam impondo aos irmãos de Colossos a necessidade de se observar dias de festa, lua nova e sábados, dentre outras coisas. Paulo afirma que os tais estavam “inchado[s] na sua carnal compreensão, e não ligado[s] à cabeça” (Cl 1.18,19). Em nome da religião eles se desligaram de Cristo, o Cabeça da Igreja.

Resta-nos refletir: pode alguém ser salvo fora de Cristo? Jesus disse que o ramo não tem vida em si mesmo, mas deve estar ligado à Videira. A salvação só pode ser garantida em Cristo e através de Cristo, e todo aquele que nEle não estiver ou nEle não permanecer, será lançado no fogo (Jo 15.6)!

Toda vez que dizemos que alguém deve fazer isso ou aquilo para ser salvo, estamos anulando a graça de Deus. Ninguém vai para o Céu com suas próprias pernas: ou o homem se une a Cristo pela fé através da graça, ou a única coisa que lhe sobra é o fogo! Moisés não pode estar à frente de Cristo, nem mesmo a circuncisão. Nenhuma regra humana pode ocupar a primazia dEle, nem mesmo as regras de Deus! Primeiro o homem renasce pela fé em Cristo, para então obedecer às regras de Deus. Inverter esta verdade é colocar o carro na frente dos bois, e o pior de tudo, é em nome da religião declarar a separação entre o homem e o Seu Salvador e, portanto, selar sua destruição.

Muito esforço, nenhum resultado

A religião não se contenta em colocar um fardo pesado de regras sobre os seus seguidores: ela credita a essas regras um poder que elas não têm. Paulo disse aos colossenses que os falsos mestres eram rigorosos em sua “disciplina do corpo” – que na versão ARA é traduzido como “rigor ascético”. Para eles, disciplinar o corpo era mortificar a carne, mas o resultado era outro: “satisfação da carne” (Cl 2.23). Parecia ser contra a carne, mas era em favor dela.

Embora ter um nível sadio de disciplina com o corpo é bom, as pessoas que enfatizam muito as práticas rigorosas querem fazer uma demonstração pública de sua suposta santidade, tal como os fariseus faziam na prática do jejum (Mt 6.16-18). Paulo escreveu a Timóteo alertando sobre alguns que estavam “proibindo o casamento, e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou para os fiéis” (1Tm 4.2). A Bíblia nos mostra que todo esse esforço ascético para inibir aquilo que Deus considerou como bom e nos deu para o nosso deleite, não tem nenhum efeito contra o pecado. Proibir o casamento não anula o adultério no coração; se você arrancar suas mãos para não tocar em uma mulher que não seja a sua, seus olhos ainda poderão cobiçá-la. Se arrancar os olhos, sua mente ainda poderá nutrir pensamentos malignos. Tentar vencer a carne pela força da carne é o mesmo que satisfazê-la. O pecado está no nosso homem interior; aquilo que fazemos por meio do corpo é apenas uma manifestação de uma doença arraigada em nossa alma. A santidade verdadeira só é possível pelo Espírito Santo em nós. O religioso ascético é como um hamster que corre freneticamente em sua esteira sem, no entanto, sair do lugar. Muito esforço, nenhum resultado.

Exterior limpo, interior sujo

A ênfase do religioso está na aparência e não na essência. De fato, a aparência é importante. A salvação que Cristo dá é integral e envolve espírito, alma e corpo (1Ts 5.23). Um interior limpo produzirá um exterior correspondente; o problema é que o inverso não é verdade, e grande parte das pessoas acreditam no inverso.

Uma pessoa estar aparentemente bem vestida, ou fazendo uso de indumentárias religiosas, não significa que o seu coração está limpo; uma gola clerical não torna ninguém mais santo. Os fariseus não comiam sem lavar as mãos e tinham que lavar o interior dos pratos antes das refeições, mas em seus corações eram verdadeiros sepulcros caiados. Por fora, a cal branca da suposta santidade; por dentro, a podridão da decomposição. “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2Tm 3.5). A única preocupação do religioso é a estética, querendo sustentar algo que ele não é. O religioso é um ovo goro; por fora branco, por dentro pútrido. Pura ostentação.

Ensinando o que não sabe

O religioso ensina todo mundo aquilo que ele nunca aprendeu. Ele é uma fraude, uma mentira ambulante sobre duas pernas. Embora goste de dar sermões, ele mesmo nunca experimentou aquilo que afirma com tanta veemência. Esta é a crítica que Paulo levantada na carta aos Romanos: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2.17-24). Ele ensina, mas nada sabe; somente delira em sua soberba. O religioso conhece com a mente, mas não com a experiência, ou com a proximidade e com as faculdades exercitadas na prática da piedade. Sua fé é apenas mental; às vezes, até acadêmica, mas não atinge o coração e, por fim, não resulta em uma forma de vida santa.

Imagine que alguém tente ensinar a outro manobrar um trator sem ele mesmo nunca ter andado em um – a única coisa que ele fez foi ler um livro afirmando que para trocar a marcha é necessário pôr a mão no câmbio –, então ele diz: “Faça assim”, mas ele mesmo nunca fez. Ele não tem o tato, a habilidade, o golpe de vista; o resultado só pode ser uma tragédia. É um cego guiando outro cego.

O religioso é daqueles “que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade” (2Tm 3.7). O pior de tudo é que ele acredita na própria fraude que é, assim como alguém que mente e acredita na própria mentira. Tal como o pitoresco Inri Cristo achava ser o próprio Jesus, o religioso pensa parecer-se com Deus, mas ele é de outra espécie, raça de víbora, filho da serpente. Mas Paulo diz: “Confias que és”!

A verdadeira religião

Poderíamos falar de mais contradições da religião, mas por ora, estas são suficientes para entendermos a gravidade do problema.

Em contraposição a tudo isso, a Bíblia aponta o caminho da verdadeira religião. Tiago diz: “A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27). Em um primeiro momento, alguém pode pensar que tudo se resume a fazer “caridade”, mas não é isto. Para entender este texto é necessário levar em consideração o seu contexto imediato e o contexto geral da epístola. Tiago está apresentando contrastes entre a falsa e a verdadeira fé, e ele nos mostra que a fé real é a fé que age. Não se trata de boas obras apenas, mas de obras que resultam de alguém que nasceu de novo, isto é, de Deus; alguém que vive uma vida moral fundamentada na Bíblia, guardando a si mesmo da “corrupção do mundo”.

A religião verdadeira é aquela em que o homem está unido a Deus por meio de Cristo através da fé, e ele se esforça não para conquistar o favor divino por meritocracia, mas porque foi alcançado pela Graça de Deus (favor imerecido), e esta o capacita a viver de forma obediente e voluntária à Lei dEle.

A religião verdadeira não foca na aparência e sim na essência, pois quando o interior muda, inevitavelmente o exterior irá mudar. Uma árvore com raízes profundas produz folhas viçosas e frutos bons. A pessoa que segue esse tipo de religião pode não ter o conhecimento acadêmico das coisas de Deus, mas ela as conhece pela leitura da Palavra, pela proximidade com Deus e pela prática.

Há um fato inegável: o ser humano é, por natureza, religioso. A pergunta que fica para sua reflexão é: que tipo de religioso você é?

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.


[i] CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 7. ed. São Paulo, SP: Editora Hagnos, 2004. pg. 638.