A Razão em favor da Fé




Muitos cristãos acreditam haver um divórcio entre a razão e a fé. Não se pode manter os dois ao mesmo tempo na mentalidade de muitos; é necessário escolher um ou outro. Essa polarização é resultado de uma compreensão equivocada das Escrituras. Segundo a Bíblia, a razão desempenha um papel de grande importância para a fé.

Sabemos que o pecado afetou todo o nosso ser, de tal maneira que até a nossa mente foi prejudicada. “Toda a cabeça está enferma”, afirmou o profeta messiânico (Is 1.5). Após a queda, a mente humana se tornou incapaz de compreender as coisas de Deus. O apóstolo Paulo confirma esta triste realidade escrevendo à igreja de Corinto: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14). Paulo afirma de forma categórica que o homem natural não pode entender as coisas de Deus. O mesmo apóstolo escrevendo aos crentes em Roma disse: “Não há ninguém que entenda; não há quem busque a Deus” (Rm 3.11). A salvação é pela graça por meio da fé, todavia a fé brota no coração a partir do momento em que o Espírito Santo ilumina o nosso entendimento para compreendermos o nosso estado espiritual e, assim, nos achegamos a Cristo.

Agora, devemos fazer uma observação: se a razão e a fé trabalham juntas, por que muitas pessoas de mentes brilhantes não creem em Cristo? Se a razão é necessária à fé, como compreender o ateísmo dos filósofos?

Um fato que não podemos negar é a inteligência humana. O homem é capaz de fazer descobertas fantásticas, escrever livros, construir arranha-céus e fazer com que toneladas de aço fiquem suspensas no ar. Ele é capaz de tudo isso, mas seu conhecimento ainda é natural e não espiritual. Apesar de o homem não saber tudo, ele sabe muitas coisas do mundo natural, e a Bíblia não nega isso. Pelo contrário, as Escrituras afirmam que no fim dos tempos “o conhecimento se multiplicará” (Dn 12.4). O problema do ser humano não está em entender as coisas naturais, e sim as espirituais. É por isso que muitos sábios deste mundo são ateus.

Nicodemos era um mestre, mas quando Jesus lhe falou sobre o novo nascimento ele não conseguiu compreender, pelo que Jesus lhe disse: “Tu és mestre de Israel, e não sabes isto? […] Se vos falei das coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3.10,12). Por essas palavras Jesus revela mais uma vez a incapacidade do ser humano caído em compreender as coisas do céu, porém esse não era um problema pessoal de Nicodemos, mas de todos nós. Os demais escribas e fariseus que se assentavam na cadeira de Moisés (Mt 23.2) não compreendiam as palavras de Jesus. João registra o momento em que o Senhor lhes dirige a seguinte pergunta: “Por que não entendeis a minha linguagem?” (Jo 8.43).

Na conhecida Parábola do Semeador, Jesus ensina claramente que “ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no coração; este é o que foi semeado junto ao caminho” (Mt 13.19). Você percebe o que Jesus diz? Se o homem não entender a palavra, ela será arrancada do seu coração pelas mãos de Satanás! O entendimento precede a fé. John Piper a respeito desta parábola escreveu: “A diferença entre o solo que não tem vida e o solo que produz fruto é o entendimento. É verdade, como Paulo disse em Romanos 10.17, que “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (ARC). O ouvir é importante. Mas Jesus disse que ouvir sem entender não produz nada”. Depois que Filipe explicou ao eunuco o sentido do texto que ele lia quando retornava de Jerusalém, ele creu em Jesus e se batizou (cf. At 8.26-39). Primeiro houve entendimento, depois houve fé!

Isso não é afirmar que temos de entender tudo para crer; a fé cristã não é contrária à razão, mas está acima dela. Como iremos entender Deus em Sua plenitude? Se precisássemos compreender a Deus completamente para depois crer nEle, nunca chegaríamos à fé, pois o finito não pode compreender o Infinito. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor?” (Rm 11.33,34a). Se juntássemos todo o conhecimento que há no mundo sobre Deus, isso ainda seria “apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26.14). No entanto, há algumas coisas que devemos entender para que haja fé: precisamos entender o nosso estado pecaminoso, que não podemos ser salvos por nosso próprio mérito e que Cristo morreu por nós para nos dar a vida. Quando entendemos isso à maneira de Deus, a fé se torna possível. Para haver conversão, Deus ilumina primeiro a nossa razão para que entendamos a Sua Palavra. Se isto não acontecesse teríamos uma fé cega, iríamos crer sem saber no que estamos crendo.

Além do pecado ter “subido para a nossa cabeça”, a Bíblia afirma que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4.4). Satanás não quer que o homem compreenda a palavra, e por isso ele luta para que cada vez mais a Bíblia seja tirada dos púlpitos e o entretenimento substitua o entendimento das Escrituras através da pregação. Ele sabe que quando a luz do evangelho clareia o nosso entendimento, a porta está aberta para a fé, e por meio da fé a graça de Deus é canalizada trazendo salvação ao pecador.

Querido leitor, o Espírito Santo está neste momento lançando luz ao seu coração. Faça como diz o hino 96 da Harpa Cristã: “Deixa penetrar a luz! Que a formosa luz de Deus fulgure em ti; e serás feliz assim”. Deixe que a luz de Cristo remova toda a escuridão do seu entendimento. Deus não deseja apenas clarear a sua mente; Ele deseja te conceder a mente de Cristo para que você possa não apenas crer, mas também crescer na graça e no conhecimento do Senhor! Que Deus, em Cristo, te abençoe, e que Deus seja louvado pela Sua palavra!

Em Cristo,
Gabriel Victor Cardoso de Oliveira