A pandemia de Atenas




No mundo antigo, a cidade Grega de Atenas era reconhecida como a epítome da evolução cultural, filosófica, intelectual e política. Grandes luminares da sabedoria humana vieram de lá, dos quais podemos citar Sócrates, Platão e Aristóteles. Além de ser o centro cultural da Grécia, Atenas se destacava como um verdadeiro centro religioso, com milhares de estátuas de deuses espalhadas por todos os lados. No entanto, a cidade sofria com uma doença espiritual terrível; o berço da sabedoria, contraditoriamente, acolhia a maior ignorância de todas: a falta do conhecimento de Deus. 

Em Atenas era possível encontrar dois tipos de pessoas: os intelectuais que não conheciam a Deus, e os religiosos que não conheciam a Deus. Por mais absurdo que isto seja, esta era a situação da cidade, quando em sua segunda viagem missionária, passou por lá o apóstolo Paulo. O pior de tudo, é que estadoença espiritual, que podemos nomear aqui como “A Pandemia de Atenas”, é algo que se propagou no mundo inteiro e chegou em terra brasileira. O maior problema que nós enfrentamos hoje no meio do nosso povo é a falta do conhecimento do Santo, sobretudo entre os cristãos, e todos os demais problemas que a igreja brasileira vêm encarando, tem sua origem neste.

Se traçarmos um paralelo entre os atenienses e os brasileiros, veremos que há muita coisa em comum. Atenas era uma cidade profundamente idólatra, e enquanto Paulo esperava a chegada de Silas e Timóteo, “o seu espírito se agitava em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria” (At 17.16). Em seu discurso, Paulo destaca a religiosidade do povo dizendo: “Homens atenienses, em tudo vos vejo como sendo um tanto supersticiosos” (At 17.22). No Brasil a realidade não é muito distinta. Além de outros grupos religiosos, o número de cristãos nominais cresce de forma acelerada, e como em Atenas, Deus tem um altar garantido entre nós. É bom lembrar que sempre que a Bíblia fala de altar, o apresenta como um elemento religioso, um símbolo de culto. Onde há altar, há devoção, sacrifício e adoração, mas como disse Jesus a samaritana: “Vós adorais o que não conheceis” (Jo 4.22), o nosso povo, tal como acontecia em Atenas, honra ao DEUS DESCONHECIDO. O ateísmo é um caso sério? Sim, mas crer em Deus de maneira equivocada, é um problema tão grave quanto – ou ainda pior – que o ateísmo. O ateu sabe que não conhece a Deus – pois nem sequer crê – , o religioso pensa que conhece, mas está vivendo um engano, e quando perceber seu equívoco pode ser muito tarde.

Outra semelhança que nos aproxima de Atenas é que, apesar de todo avanço intelectual, há um desconhecimento da questão mais importante. Analisando o meio cristão, não se pode negar que na atual conjuntura, tem havido um despertamento pela busca do saber. O mercado literário cristão está fervilhando, as impressoras estão a todo o vapor, os clássicos da literatura cristã estão preenchendo as prateleiras das nossas bibliotecas, mas a questão é: nós estamos apenas estudando sobre Deus, ou estamos de fato conhecendo a Ele? Muitos imaginam que conhecer a Deus é apenas estudá-Lo como uma matéria, e se esquecem de que Deus não é meramente um assunto da nossa grade curricular, e sim, uma Pessoa.

Embora a mente esteja envolvida no processo de conhecer a Deus, ela não é a única peça nesse processo. Existe um nível que ultrapassa os limites da mente, que toca a alma e faz com que o indivíduo experimente Deus em um verdadeiro contato pessoal. Há muitas pessoas intelectuais, que chegaram a altos níveis acadêmicos, mas não passaram da lógica fria e pensam conhecer ao Senhor. A única coisa que eles têm são preposições, mas não possuem a revelação que o Pai deu a Pedro. O conhecimento teológico é necessário, mas não é o bastante, há um nível místico que é muito mais profundo. A teologia deve estar fundamentada na Escritura, mas ela serve apenas como ponte para o conhecimento relacional com o Deus vivo. Há muitos que estão substituindo Deus pela sistematização de doutrinas, e até se gabam do seu labor teológico e das suas conquistas intelectuais, mas tudo isso é apenas uma parte do todo, e não devemos ficar orgulhosos com a pilha de material teológico que estamos produzindo, como bem disse o profeta: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força, ; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR” (Jr 9.23,24).

Cuidado cristão! A Pandemia de Atenas está em todo lugar, e esse mal respingou até na própria igreja. Estamos apenas lendo livros, ou estamos de fato nos relacionando com Deus? Estamos apenas “engordando” o nosso cérebro, ou estamos servindo a amando ao Senhor com todo o nosso coração? Será que não estamos nutrindo pensamento equivocados sobre Deus? Ou será que apesar da nossa ortodoxia, criamos um reducionismo no real significado de conhece-Lo? É tempo de refletir sobre isso, pois, como disse A.W. Tozer: “A nossa limitação determina o quanto do Senhor iremos experimentar”[i] (TOZER, 2015), se é que alguns irão provar e ver que o Senhor é bom.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira


[i] TOZER, A.W. Deleitando-se em Deus. Rio de Janeiro, RJ: GRAÇA EDITORIAL. pg. 82.