A humilhação de Cristo




No capítulo 9 de Isaías encontramos uma das profecias mais surpreendentes das Escrituras. O registro do vaticínio diz o seguinte: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado estará sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). A primeira parte da profecia se refere ao nascimento terreno de Jesus; porém, devemos compreender que Jesus não passou a existir por ocasião do Seu nascimento. Muito antes de ser concebido milagrosamente no ventre de Maria, Ele já existia. “Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.16). Abraão viveu centenas de anos antes de Maria, e Jesus afirmou categoricamente: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58). Cristo é preexistente e eterno, não tendo início ou fim de dias. É neste pilar fundamental da Fé Cristã que repousa o grande assombro da profecia de Isaías. Embora Jesus seja chamado de “Pai” neste texto, Ele não é a Pessoa do Pai na Trindade; Isaías usa esse título para se referir ao cuidado eterno do Messias pelo Seu povo, como um pai cuida do seu rebento. Neste sentido podemos dizer que o Pai se tornou o filho, o Deus da Eternidade nasceu, o Criador de todas as coisas veio a este mundo concebido por uma de Suas criaturas. Há uma palavra que pode definir perfeitamente essa atitude altruísta: humilhação.

A humilhação de Jesus não começa quando Ele é cuspido pelos soldados romanos (Mt 27.30), e sim quando Ele deixa o seio do Pai Celestial e vem para o ventre de uma mãe humana. “Eis que os céus, e o céu dos céus, não [podem contê-lo]” (2Cr 6.18), ainda sim, tal como nós, Ele ficou nove meses retido no ventre de uma moça virgem. Antes que os romanos o desprezassem Ele se humilhou a Si mesmo. Veja o que disse o apóstolo Paulo: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8). Vamos analisar um pouco mais esse texto nas linhas seguintes.

Jesus não possuía apenas a aparência de Deus, Ele não era apenas a Sua imagem e semelhança. Paulo diz: “sendo em forma de Deus”. Jesus é tão divino quanto o Pai o é. Ele não é um “deus” menor com “d” minúsculo; Ele não pertence à uma classe inferior, mas é tão grande quanto o Pai, possuindo a mesma qualidade, os mesmos atributos, a mesma natureza, e o mesmo tamanho. Ambos compartilham o mesmo Ser. No entanto Ele não se prendeu ao fato de “ser igual a Deus” (Fp 2.6). Aqui vemos uma diferença abismal entre Adão, o primeiro homem, e Jesus. No Éden Satanás disse a Eva: “Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes [do fruto da árvore do bem e do mal], se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus” (Gn 3.5). A partir deste relato observamos que, na essência da desobediência do primeiro homem, estava a síndrome de Satanás: o desejo de ser como Deus. Jesus trilhou um caminho completamente oposto ao de Adão. Ele “sendo em forma de Deus”, se fez homem, e foi “achado na forma de homem” (Fp 2.8).

Nosso Salvador renunciou muitos privilégios abdicando da Sua glória (Jo 17.5). Embora todas as riquezas insondáveis fossem dEle, aqui no mundo Ele veio de pais pobres e não possuía fortuna (2Co 8.9). Porém, Jesus não deixou de ser Deus. Ele se limitou, renunciou e se humilhou. Se fez verdadeiramente homem assumindo todas as propriedades da natureza humana, até mesmo aquelas mais frágeis, mas não deixou de ser Deus.

Não bastasse tamanho rebaixamento, Paulo diz que Ele tomou a “forma de servo” (Fp 2.7). O testemunho das Escrituras nos mostra que Jesus realmente foi um servo. Ele não fez uso de Sua onipotência, mas rendeu-Se completa e voluntariamente a direção do Espírito do Senhor (Mt 11). Ele serviu as pessoas e chegou até mesmo a dizer: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20.28). A qualidade do Seu serviço foi de tal maneira que a excelência da Sua obediência O levou até as últimas consequências: “sendo obediente até a morte”. Jesus submeteu-Se à vontade do Pai abrindo mão da Sua própria autoridade se entregando voluntariamente para morrer. Faz-se necessário entendermos que a morte de Cristo não foi uma morte qualquer, e sim uma morte de cruz. Seus próprios compatriotas judeus abominavam esse tipo de execução. Não havia nada mais vil, repelente, degradante, horroroso e sobremaneira cruel do que a morte de cruz. O madeiro era o sinal da mais horrível maldição de Deus.

Não bastava nascer de uma criatura, ser batizado por um pecador, servir ao menos privilegiados; Jesus teve de descer à posição mais inferior que alguém poderia chegar. A cruz era o horror dos horrores, por isso Paulo afirmou que “Cristo crucificado […] é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (1Co 1.23). Do nascimento até a Sua morte vemos o Filho de Deus sendo humilhado, como bem disse o evangelista Billy Graham: “Jesus nasceu com a sombra da cruz em Seu destino” (2014, pg.91), e não poderia haver destino mais abjeto para um Deus! Nunca iremos compreender tamanho mistério. Acertadamente afirmou Eusébio de Cesareia: “a teologia de Cristo […] em elevação e grandeza excedem ao homem (2019, pg.16). Como está escrito: “[…] Grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo e recebido acima, na glória” (1Tm 3.16).

Tudo isso está registrado não apenas para aumentar o nosso conhecimento teológico. A doutrina da humilhação de Cristo ultrapassa os limites da teoria. Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, disse: “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Fp 2.5). Não se trata de literatura romântica, e sim de uma doutrina poderosa para ser posta em prática. Ao depararmos com este ensinamento da palavra de Deus nossos rostos deveriam queimar de vergonha. Muitas vezes queremos estar “por cima”, queremos ser “a nata”, tomados pelo sentimento de superioridade em relação aos outros mortais. Tratamos as pessoas com desdém e as desprezamos pelo modo de falar, vestir ou por não possuírem o mesmo nível cultural, intelectual ou social do que nós. Quando o nosso coração é orgulhoso estamos encrencados com Deus. Ele resiste aos soberbos, afirmou Tiago (Tg 4.6). O orgulho é um paredão de ferro entre nós e Deus. Se a humilhação da cruz é a coisa mais degradante para o homem, a soberba é o pecado mais abominável para Deus. Todos os pecados são filhos do orgulho. O cristão dever ser humilde como seu Salvador; um cristianismo que não desce ao nível das pessoas mais baixas não pode elevar ninguém ao céu. Quando olharmos alguém “de cima para baixo’ devemos nos lembrar de que há um Deus acima da nossa cabeça. Há muitos crentes que carregam em si o mesmo sentimento que houve em Satanás: o orgulho; e se há em nós esse tipo de sentimento a nossa ruína será semelhante à dele e incorreremos na mesma condenação (1Tm 3.6). O Meigo Nazareno ainda nos convida: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11.29). Vamos nos humilhar debaixo da potente mão de Deus. Vamos ser servos uns dos outros. Vamos tomar a cruz e matar o ego. “Saiamos, pois, a ele [Jesus] fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13.13), cantando alegremente: “Eu aqui com Jesus, a vergonha da cruz, quero sempre levar e sofrer”!

Em Cristo,

Gabriel Oliveira

Referências

GRAHAM, Frankilin e LEE TONEY, Donna. REFLEXÕES DE BILLY GRAHAM. Tradução: Sérgio Rolemberg. Rio de Janeiro: BV Books, 2014, pg.91

CESAREIA, Eusébio de. HISTÓRIA ECLESIÁTICA. Fonte Editorial, Tradução: Wolfang Fischer, São Paulo, 2019, pg.16

Como citar esse artigo:

OLIVEIRA, Gabriel Victor Cardoso de. A humilhação de Cristo. Portal IPJC Oficial, Curitiba, 2020. Coluna Café com a Palavra. Disponível em: <http://www.ipjc.com.br/category/cafe-com-a-palavra/>. Acesso em: [dia, mês, ano].