A diferença entre dons e talentos




 Parte 01

Embora nem todos reconheçam, fato é que o Criador dotou a cada uma de suas criaturas com capacidades maravilhosas. Os pássaros cantam, os cavalos possuem a força, os leopardos correm velozmente e as águias alçam altos voos. Todavia, Deus concedeu ao ser humano capacidades mais elevadas. Uma vez que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, foi incutida nele a capacidade de pensar, e embora não tenha asas, o homem consegue suspender toneladas de aço no ar com asas de metal; ainda que não consiga acompanhar um leopardo em uma corrida, ele pode se valer do seu intelecto para construir meios de transporte muito mais velozes. Mas não caiamos no erro de pensar que apenas pessoas que inventam coisas extraordinárias são realmente capazes. Somos tendenciosos a supervalorizar determinadas coisas e menosprezar outras. É certo que nem todos têm a genialidade de Thomas Edson[1] ou de Gutenberg[2], cada pessoa é única e possui capacidade distinta da outra – e todas são importantes no plano de Deus. Uma cozinheira é tão necessária quanto um filósofo. Talvez se Aristóteles estivesse vivo em nossos dias e o colocássemos na cozinha, ele iria deixar o feijão cru e sem sal, além de desligar o arroz antes do ponto e cortar o dedo; ao passo que, se colocássemos um chefe de cozinha para escrever “A Política”, veríamos sua cabeça virar uma chaminé. Acredite, precisamos do filósofo para nos ajudar a pensar, precisamos da cozinheira para preparar o nosso alimento; e é bom que estejamos bem alimentados antes de raciocinar, senão a única coisa que irá ocupar o nosso cérebro será o estômago.

O filósofo e a cozinheira são importantes, mas cada qual com a sua capacidade – e a estas capacidades nós chamamos de dons ou talentos. Muita confusão se faz quanto ao significado dessas palavras, e por vezes elas são usadas de forma intercambiável. Mas afinal, qual a diferença entre dons e talentos?

O que é dom?

De forma simples, dom pode ser definido como uma capacidade inata, uma aptidão natural não adquirida por meio de treinamento. Não depende de preparo, mas já nasce conosco. Existem habilidades que conseguimos desenvolver mesmo sem nunca ter frequentado uma escola ou curso para aquilo, é um presente congênito dado por Deus a nós. Isto se chama dom natural.

Consideremos o homem e a mulher. Por natureza, a mulher possui dons que geralmente os homens não tem. Deus colocou na essência feminina certas habilidades que são compatíveis com a tarefa do lar. A culinária e a costura são exemplos. Não se pode negar que há homens que são excelentes cozinheiros e alfaiates, enquanto há mulheres que não tem sensibilidade culinária e mal sabem pregar um botão. Mas, em regra geral, esses dons são mais comuns em mulheres do que em homens. Também é fato que há coisas que são típicas da essência masculina. É muito mais comum ver homens caminhoneiros e pedreiros do que mulheres exercendo essas atividades. São tarefas que exigem força, que expõe a pessoa a um risco maior, e tudo isso está mais voltado a personalidade masculina. Sim, há mulheres que assentam tijolos melhor que homens, e outras que dirigem e lidam com os perigos da estrada com muito mais prudência, mas isto não é a regra.

Porém, nós observamos que, mesmo entre as mulheres, há aquelas que mostram mais facilidade e desempenham melhor certas atividades que outras, como também acontece entre os homens. Isto se dá por que a pessoa já nasce com aquele dom, e por isso possui uma predisposição maior que outras pessoas para fazer determinadas coisas. Embora toda, ou quase toda dona de casa saiba cozinhar, há aquelas que conseguem fazer receitas difíceis, criar receitas novas, misturam um tempero aqui e outro ali e acabam desenvolvendo um novo sabor. Elas não se limitam ao arroz e ao feijão, mas conseguem, por uma habilidade inata, criar pratos novos, alguns até exóticos, e tudo isso revela que por trás de toda essa criatividade há algo que faz parte do próprio núcleo existencial desta pessoa.

Devemos considerar que, embora o dom não seja habilidade adquirida por treinamento, há casos em que o treinamento revela o dom. Muitos que têm habilidades musicais descobrem isso antes mesmo de frequentar um conservatório; há outros que só irão revelar esta capacidade ao ingressarem numa escola de música. Imagine a seguinte situação: se colocássemos 10 alunos em uma sala que nunca pegaram em um violão, não demoraria muito para perceber que alguns não enfrentam muitos obstáculos para lidar com o instrumento. Algo nos mostra que os tais já nasceram com aquela capacidade, e quando são colocadas em um grupo, conseguem sobressair e destacar-se entre os demais. Nesse caso, a escola, ou o treinamento, não criou, mas revelou a habilidade – e poderá servir para aprimorá-la.

O que é talento?

O talento, por outro lado, significa fazer as coisas com qualidade. É a habilidade aguçada de alguém que desempenha determinada tarefa com maestria, e geralmente, é adquirida por meio da prática. Uma pessoa que nunca fritou um ovo pode – pelo exercício contínuo – tornar-se um mestre-cuca, e outro que mal sabe a tabuada pode vir a ser um matemático. O treinamento, a disciplina e a persistência podem fazer com que uma pessoa desenvolva capacidades que não possui, e sobretudo, com muita perícia e virtuosidade; como também pode aperfeiçoar ainda mais aqueles que já possuem uma habilidade inata.  Chamamos de talentosa uma pessoa que faz, e faz com excelência. Não é apenas tocar, cantar, ou pintar, e sim tocar, cantar e pintar muito bem. Na escola ou na faculdade há professores que tem muito conhecimento e são bons profissionais, mas há aqueles que ensinam de forma apaixonada e apaixonante, que conseguem fazer com que os alunos com mais dificuldades consigam captar a matéria. Nesse caso, eles são mais que bons profissionais, são verdadeiros talentos na área do ensino.

O dom é algo que temos desde o nascimento, algo que flui com naturalidade, facilidade e prazer, o talento geralmente é algo que desenvolvemos, que exige prática disciplinada e desafio constante.

Dotados sim, talentosos não

Pode-se dizer que muitas pessoas possuem o dom natural mas não são talentosas, e por que? Os nossos dons podem ficar adormecidos, amortecidos, soterrados nos escombros da indiferença, da influência negativa de outras pessoas, entre outras coisas. Não são poucos aqueles que embora tenham facilidade para aprender/fazer algo, se acomodam com a mediocridade e não se aperfeiçoam. Possuem o dom, mas não o talento. Assim como tem gente que não nasceu com determinada capacidade, mas tem muita disponibilidade e esforço para aprender, são pessoas que trabalham duro e se tornam muito habilidosas naquilo que fazem; estas não têm o dom, porém, são talentosas. Mas é claro que, se uma pessoa aperfeiçoar a capacidade inata que já tem, ela vai sobressair à frente de outras igualmente esforçadas, mas que não têm esta predisposição forte que chamamos de dom.

E os prodígios?

O dom é natural, o talento nem sempre, mas, existem ainda aqueles indivíduos que são verdadeiros prodígios. Esses, além do dom, são talentosos fora do comum, e isso, desde o nascimento. É o caso do brasileiro Guido Sant’Aana, Garoto que nasceu em região periférica de São Paulo, e é reconhecido como “o mais promissor violonista do país”. Guido, no ano de 2018 participou de um dos maiores concursos de violonistas do mundo, o Menuhin Competition, aos 7 anos de idade foi solista em uma orquestra, mostrando desde a mais tenra idade uma habilidade descomunal. Existem casos como esse espalhados por todo o mundo, pessoas que possuem habilidades colossais que são de causar espanto. Como explicar o caso de crianças que conseguem fazer coisas que adultos experientes e bem treinados não conseguem, ou teriam muita dificuldade para executar? São pessoas que já nascem com o raciocínio lógico aguçado, a memória motora desenvolvida, a percepção do belo evoluída e muitas outras capacidades complexas – parecem até que já “nascem sabendo”. É maravilhoso ver a ação de Deus no mundo, concedendo aos pequeninos as aptidões de gente grande. Nesse caso, a pessoa possui não apenas um dom natural, mas também um talento natural.

Os dons que Deus deu à Igreja

Feitas tais considerações, não podemos deixar de colocar nessa discussão os dons sobrenaturais. Eles são diferentes dos dons naturais e dos talentos. São ferramentas que Deus nos concede de forma sobrenatural. Eles são distribuídos de forma soberana pelo Espírito Santo à Igreja (1Co 12.11). A Bíblia nos ordena busca-los com zelo (1Co 12.31), como também abundar neles (1Co 14.12). Umas das coisas que distinguem esses dons dos demais é que eles são dados apenas ao Corpo de Cristo, isto é, à Igreja. Todos os indivíduos possuem capacidades naturais, mas somente os salvos podem receber esses dons. Uma pessoa pode ter nascido com o dom natural para ser um médico, ela estuda incansavelmente e se torna um cirurgião, no entanto, isto não é o dom da cura. Deus pode usar um cristão que nada conhece de medicina com o poder de sarar um doente, pois não se trata de dom natural ou talento desenvolvido, e sim de uma capacidade sobrenatural conferida pelo Espírito Santo. O dom de cura não é faculdade de medicina, assim como o dom de línguas não é poliglotismo; ambos são capacidades concedidas pelo Espírito Santo aos crentes. A Bíblia ainda nos fala dos dons ministeriais (Ef 4,11) e dos dons de serviço (Rm 12.6-8). Embora muitos desses soem para nós potencialmente naturais, como presidir e ensinar, administrar e etc… a Bíblia deixa claro que o Espírito Santo está agindo na Igreja por meio destes, eles são acompanhados da graça (Rm 12.6) e regidos “segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado” (1Pe 4.10,11), e a igreja seja edificada.

Conclusão

Muitas pessoas se entristecem por se acharem inúteis. Consideram-se como sem nenhum valor por não terem nenhuma capacidade extraordinária. Mas veja o que disse o salmista Davi inspirado pelo Espírito Santo: “…entreteceste-me no ventre da minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo terrível e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas, as quais iam sendo dia a dia formadas, quando nem ainda uma delas havia. E quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles!” (Sl 139.13-17). O assombro e o espanto tomaram conta de Davi ao ver que Deus nos criou de forma sublime e traçou projetos para nós antes mesmo que fossemos formados no ventre! Podemos estar certos de que não somos um acidente. Você não é um erro! Deus nos deu capacidades, tanto naturais como sobrenaturais para servirmos a Ele, a Igreja e ao mundo. Os dons constituem parte do propósito do Senhor para nós neste mundo. Não devemos sufoca-los, mas coloca-los à disposição do Senhor. Todos nós sabemos fazer algo, e não devemos menosprezar a nossa capacidade julgando ser pequena. Deus disse a Gideão: ‘Vai nesta tua força” (Jz 6.14). Não era para Gideão lutar com a força de um gigante, era pra ele ir na força que ele tinha. Não tente honrar ao Senhor com a força dos outros, com os dons dos outros e a capacidade dos outros, você não vai conseguir. Seja você! Honre ao Senhor com aquilo que Ele te deu, pois a nós não compete julgar algo como grandioso ou pequeno para Deus, Ele não vê como o homem vê. A nós compete o dever da fidelidade.

Os pássaros cantam, os cavalos possuem a força, os leopardos correm velozmente e as águias alçam altos voos… e você? Qual é o seu dom? Quer saber como descobri-lo? Nos vemos em nosso próximo encontro.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira



[1] Inventor da bateria de carro elétrico, câmera cinematográfica, caneta elétrica, distribuição da energia elétrica, embalagem a vácuo, fonógrafo, lâmpada incandescente e o mimeógrafo.

Fonte: ABDO, Humberto. 8 invenções de Thomas Edison que mudaram o mundo. Revista Galileu, Editora Globo, 2017.  Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Tecnologia/noticia/2017/02/8-invencoes-de-thomas-edison-que-mudaram-o-mundo.html>. Acesso em: 01 abr. 2020.

[2] Inventor da tinta de prensa móvel, que permitiu a impressão de livros. Europa, séc. XV.