A celebração da aparência




Vivemos na era dos filtros, em que todo mundo deseja se mostrar apresentável nas redes sociais. Ângulo perfeito, aplicativos que removem deformidades – toda forma de artifício é usada para que as fotos apresentem zero defeitos; afinal, as redes sociais nos expõe e não podemos passar uma má impressão. A consultoria de imagem está em alta e em cada esquina há uma academia: a celebração da aparência e o culto à exterioridade é uma tônica do nosso tempo.

Embora não estejamos aqui advogando o desmazelo, – pois isto não é agradável a Deus, é preciso recordar a nossa geração que aparência não é tudo. A forma como as pessoas nos vêem pode estar muito distante daquela que Deus sabe realmente que somos. O que uma pessoa aparenta nem sempre está de acordo com aquilo que ela é. Nem todo mundo que usa óculos “geek” é nerd; fotos cheias de ostentação podem esconder dívidas e cartões de crédito estourados. Já dizia a sabedoria antiga: “Nem tudo o que parece, é”.

Um hino cristão levanta o seguinte questionamento: “Como estás com o teu Deus?” Esta é a coisa que verdadeiramente importa. Estamos preocupados com a imagem que as pessoas têm de nós, mas elas apenas acham, se encantam e supõem a nosso respeito… Deus? Deus sabe quem somos. E assim como no mundo virtual, existe na igreja uma certa “espiritualidade exibicionista”, um exemplo claro disto nas Escrituras é a igreja de Sardes. Aquela igreja possuía uma determinada reputação – e quem enxergava de fora presumia que estava tudo certo. Jesus chegou a dizer: “Tens nome de que vives” (Ap 3.1). E o que dizer de Laodicéia? Para nós hoje seria uma mega-igreja, templo suntuoso, um verdadeiro cartão postal. Mas para Cristo, Sardes estava morta – e Laodicéia era desgraçada, miserável e pobre (Ap 3.1; 17). Olhe para a cidade de Jerusalém: verdadeiro símbolo de religiosidade. Fiéis de todo o mundo percorrem quilômetros para conhecer esta importante cidade da Terra Santa. Entretanto, no Apocalipse, João afirma que esta cidade é chamada espiritualmente de Sodoma (Ap 11.8). Não é necessário ser perito nas Escrituras para compreender que Sodoma sempre será lembrada como símbolo de degradação moral e toda sorte de depravação sexual. Curiosamente, o profeta Isaias também se referiu à Jerusalém como Sodoma e Gomorra, e sem rodeios chamou a Cidade Santa de prostituta (Is 1.10,21).

Isto no ensina que o raio-x de Deus pode ser diferente do nosso achismo. Nossa suposta santidade não deixa Deus de boca aberta. Como disse o Senhor a Samuel quando ele pensou que Eliabe seria o substituto de Saul no trono de Israel: “Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1Sm 16.7).

Nos dias de Noé tudo parecia muito normal. As pessoas comiam, bebiam, se casavam e se davam em casamento (Mt 24.37,38); tudo era festa. Mas o livro de Gênesis registra: E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente […] A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência” (Gn 6.5,11 – ênfase acrescentada). Para eles, tudo de vento em polpa; para Deus, maldade e corrupção, e o Senhor atentou até para o que se passava em seus corações. É razoável imaginar que aqueles homens pensaram que Noé era um louco quando começou construir a arca – uma vez que no período pré-diluviano a chuva era inexistente, apenas um vapor subia da terra para regá-la (Gn 2.5,6; cf. Hb 11.7). Mas embora aos olhos daquele povo Noé fosse um velho desmiolado, disse o SENHOR a Noé: “Entra tu e toda a tua casa na arca, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração” (Gn 7.1). Bem, o final da história revelou quem era de fato sem juízo.

Precisamos entender que o nosso coração está desnudado perante o Senhor, não podemos enganá-Lo, pois todas as coisas estão patente aos Seus olhos. Diante dEle não há máscaras. No dia em que os crentes prestarem contas ante o Tribunal de Cristo, Deus trará a luz muitas coisas secretas: “A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um” (1Co 3.13 – ênfase acrescentada). Nossa vida será exposta – não perante homens que são comprados por estereótipos, mas perante Aquele que pesa os espíritos (Pv 16.2).

Paulo elogiou o fato dos filipenses serem obedientes em sua presença, mas muito mais na sua ausência (Fp 2.12) e ainda orientou aos servos da igreja de Colossos dizendo: “obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus” (Cl 3.22). Deus quer que o sirvamos, mas não só de aparência. É necessário muito mais que isso para agradá-lo. A verdadeira espiritualidade brota de dentro e não se contenta com mera exibição, mas com a essência. Quando Habacuque ouviu a voz de Deus, seu ventre (interior) se comoveu e seus lábios (exterior) tremeram (Hc 3.16). O efeito da Palavra foi de dentro para fora. A quem estamos tentando agradar? Deus ou os homens? Queremos a aprovação humana ou divina? Deus conhece cada ângulo torto da nossa vida, nada fica encoberto sob a radiação dos Seus olhos como chamas de fogo. Precisamos conviver com a terrível verdade de que Deus nos vê além dos filtros.

Em Cristo,

Gabriel Oliveira.